sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

RELIGIÃO, BÍBLIA E TERRAPLANISMO: UMA ANÁLISE EPISTEMOLÓGICA E TEOLÓGICA

O presente estudo analisa a relação entre religião, especialmente o cristianismo bíblico, e a crença contemporânea na Terra plana. Busca-se demonstrar que o terraplanismo não constitui doutrina de nenhuma religião histórica, mas emerge como uma interpretação literalista moderna de textos bíblicos poéticos e fenomenológicos. A pesquisa adota metodologia qualitativa, de natureza bibliográfica, com abordagem interdisciplinar entre teologia, epistemologia e história da ciência. Conclui-se que o conflito entre Bíblia e ciência, frequentemente alegado por defensores do terraplanismo religioso, é artificial e resulta de uma leitura descontextualizada dos textos sagrados e de uma rejeição dos critérios científicos de validação do conhecimento. O estudo demonstrou que o terraplanismo não possui fundamentação teológica consistente, resultando de interpretações literalistas e descontextualizadas da Bíblia. Verificou-se que os textos bíblicos utilizam linguagem simbólica e não visam descrever modelos científicos do universo. Os dados indicam que a crença na Terra plana é minoritária, porém socialmente relevante. Conclui-se que o conflito entre fé e ciência é artificial e epistemologicamente equivocado. Assim, o terraplanismo configura-se como um problema sociocultural contemporâneo e não como controvérsia científica legítima. Essa mentalidade fundamentalista parece que veio dos estadunidesnses cerca de 2%, nos brasileiros está estimado em cerca de 8% , 11 milhões de pessoas que negam metodologia científica e defendem ideologias misturadas com religião. 

Palavras-chave: Terraplanismo. Bíblia. Epistemologia. Teologia. Ciência.


1. Introdução

A difusão contemporânea do terraplanismo, impulsionada pelas redes sociais, reacendeu debates sobre a relação entre religião e ciência. Em especial, alguns grupos religiosos passaram a reivindicar fundamentação bíblica para a crença de que a Terra seria plana e coberta por um firmamento físico. Tal postura contrasta com o consenso científico e com a tradição histórica das grandes religiões monoteístas.

Nesse contexto, este artigo objetiva analisar criticamente se há, de fato, base teológica consistente para a defesa da Terra plana a partir da Bíblia, bem como investigar os fatores epistemológicos que explicam a emergência do terraplanismo religioso como fenômeno sociocultural moderno.


2. Desenvolvimento

2.1 A linguagem bíblica e seus limites interpretativos

A Bíblia é composta por múltiplos gêneros literários, como poesia, narrativa, profecia e literatura sapiencial. Grande parte das passagens utilizadas por terraplanistas possui caráter simbólico ou metafórico, como as expressões “quatro cantos da Terra” (Is 11:12) e “as colunas da Terra” (Jó 9:6). Tais expressões configuram linguagem fenomenológica, isto é, descrevem o mundo conforme a percepção humana imediata, não como tratado científico.

Segundo Barr (1993), a leitura literalista ignora a hermenêutica básica dos textos sagrados, confundindo linguagem teológica com descrição cosmológica.


2.2 A posição histórica das religiões cristãs

Contrariamente ao discurso popular, nenhuma tradição cristã dominante defendeu oficialmente a Terra plana. Desde a patrística, autores como Agostinho de Hipona e Tomás de Aquino reconheciam a esfericidade da Terra, com base na filosofia aristotélica e na observação empírica (AQUINO, 2005).

A ideia de que a Igreja medieval acreditava em uma Terra plana é um mito moderno, difundido principalmente no século XIX por autores como Draper e White, em uma narrativa de suposto conflito permanente entre ciência e religião (NUMBERS, 2009).


2.3 Terraplanismo como fenômeno epistemológico

O terraplanismo contemporâneo caracteriza-se menos como posição religiosa e mais como movimento ideológico anti-institucional. Ele se apoia em três pilares principais:

Desconfiança sistemática das instituições científicas;

Valorização da experiência individual como critério absoluto de verdade;

Interpretação conspiratória da realidade.

Do ponto de vista epistemológico, trata-se de uma forma de negação do método científico, substituído por uma lógica de confirmação subjetiva, conforme descrito por Pigliucci (2013) como pseudociência.


2.4 Religião, ciência e falsa oposição

A oposição entre fé e ciência promovida por grupos terraplanistas constitui uma falsa dicotomia. A teologia contemporânea reconhece que ciência e religião operam em campos distintos: a primeira investiga o funcionamento da natureza, enquanto a segunda busca sentido existencial e transcendental (BARBOUR, 2000).

Portanto, utilizar a Bíblia como manual de cosmologia não apenas distorce o texto religioso, como compromete sua própria função espiritual e simbólica.


2.5 Estimativas quantitativas do terraplanismo e sua relação com grupos religiosos

A mensuração do número de indivíduos que acreditam na Terra plana apresenta limitações metodológicas significativas, uma vez que não existem censos específicos ou registros institucionais que categorizem formalmente os adeptos dessa crença. O terraplanismo configura-se como um movimento difuso, predominantemente digital, sem filiação religiosa oficial ou estrutura organizacional centralizada.

No Brasil, dados do Instituto Datafolha indicam que aproximadamente 7% a 8% da população declara acreditar que a Terra é plana, o que corresponderia, em termos absolutos, a mais de 11 milhões de pessoas (DATAFOLHA, 2019). Esses números variam conforme o recorte etário e o nível de escolaridade, sendo mais elevados entre jovens adultos e indivíduos com menor escolarização formal.

Estudos internacionais apontam tendência semelhante. Nos Estados Unidos, pesquisas do YouGov revelaram que cerca de 2% a 5% da população adulta considera plausível a hipótese da Terra plana, o que representa milhões de indivíduos em números absolutos (YOUGOV, 2018). Entretanto, organizações formais como a Flat Earth Society possuem apenas alguns milhares de membros registrados, evidenciando a natureza descentralizada e informal do fenômeno (LIVESCIENCE, 2016).

No que se refere à dimensão religiosa, não há evidências empíricas de que denominações cristãs históricas sustentem oficialmente a cosmologia terraplanista. Todavia, pesquisas sociológicas indicam que a crença aparece com maior frequência entre indivíduos que se autodeclaram religiosos e adotam uma leitura literalista das Escrituras, especialmente em contextos evangélicos independentes e movimentos fundamentalistas digitais (NUMBERS, 2009; PIGLIUCCI, 2013).

Assim, os dados disponíveis permitem concluir que o terraplanismo contemporâneo constitui um fenômeno sociocultural transversal, presente em diferentes grupos religiosos e não religiosos, sem correspondência direta com qualquer tradição teológica institucionalizada.



3. Conclusão

Conclui-se que o terraplanismo não encontra respaldo nas doutrinas das religiões históricas, mas emerge como produto de um literalismo bíblico descontextualizado e de uma postura epistemológica negacionista. A Bíblia não propõe um modelo científico do universo, e sua leitura adequada requer instrumentos hermenêuticos, históricos e literários.

O terraplanismo religioso, assim, revela mais sobre crises contemporâneas de confiança na ciência e nas instituições do que sobre a teologia propriamente dita, configurando-se como fenômeno sociocultural moderno, e não como herança legítima da tradição bíblica.

O presente estudo demonstrou que o terraplanismo não possui fundamentação teológica consistente nas tradições religiosas históricas, mas resulta de interpretações literalistas e descontextualizadas dos textos bíblicos. Verificou-se que a Bíblia utiliza linguagem simbólica e fenomenológica, não tendo como objetivo descrever modelos científicos do universo.

 Os dados quantitativos indicam que a crença na Terra plana é minoritária, embora socialmente relevante em termos absolutos. Observou-se que o fenômeno está associado a padrões de negacionismo científico e desconfiança institucional. Conclui-se que o conflito entre fé e ciência é artificial e epistemologicamente equivocado. 

A religião, enquanto sistema simbólico, não se opõe ao conhecimento científico, mas ocupa campo distinto de explicação da realidade. O terraplanismo revela mais uma crise de racionalidade contemporânea do que um debate cosmológico legítimo. Portanto, sua análise deve ser compreendida como problema sociocultural e não como controvérsia científica real.


Referências 

AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. São Paulo: Loyola, 2005.

BARBOUR, Ian G. Quando ciência encontra religião. São Paulo: Cultrix, 2000.

BARR, James. Fundamentalism. London: SCM Press, 1993.

BÍBLIA. Bíblia Sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 2011.

NUMBERS, Ronald L. Galileo Goes to Jail and Other Myths about Science and Religion. Cambridge: Harvard University Press, 2009.

PIGLIUCCI, Massimo. Nonsense on Stilts: How to Tell Science from Bunk. Chicago: University of Chicago Press, 2013.

DATAFOLHA. 7% dos brasileiros acreditam que a Terra é plana. São Paulo: Instituto Datafolha, 2019.

LIVESCIENCE. Why do some people believe the Earth is flat? New York: Live Science, 2016.

NUMBERS, Ronald L. Galileo goes to jail and other myths about science and religion. Cambridge: Harvard University Press, 2009.

PIGLIUCCI, Massimo. Nonsense on stilts: how to tell science from bunk. Chicago: University of Chicago Press, 2013.

YOUGOV. One in six Americans believe the Earth is flat. London: YouGov Survey Results, 2018.


















WHITE, Andrew Dickson. A History of the Warfare of Science with Theology in Christendom. New York: Appleton, 1896.









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