sábado, 31 de janeiro de 2026

A EXPRESSÃO “FACE DA TERRA” NA BÍBLIA: UMA ANÁLISE HERMENÊUTICA, LINGUÍSTICA E HISTÓRICO-CULTURAL

A presente análise sobre a expressão “face da Terra” presente em diversos textos bíblicos do Antigo e Novo Testamento, frequentemente utilizada em debates contemporâneos sobre cosmologia bíblica, especialmente por correntes literalistas e terraplanistas. A pesquisa adota o método hermenêutico crítico, considerando os aspectos linguísticos, os gêneros literários e o contexto histórico-cultural das Escrituras. Demonstra-se que a expressão não possui caráter cosmológico ou geométrico, mas constitui um idiomatismo semítico que designa a totalidade da superfície habitada, sendo utilizada como recurso poético, narrativo e teológico. Conclui-se que a Bíblia não propõe um modelo físico do planeta, mas comunica mensagens espirituais por meio de linguagem fenomenológica e simbólica.

Palavras-chave

Hermenêutica bíblica; Face da Terra; Cosmologia bíblica; Literalismo; Exegese.


1. Introdução

A expressão “face da Terra” aparece recorrentemente nas Escrituras, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, sendo interpretada por alguns grupos religiosos como evidência de uma Terra plana. Tal leitura, contudo, ignora princípios básicos da hermenêutica bíblica e da linguística semítica.

O objetivo deste estudo é analisar criticamente essa expressão a partir da exegese acadêmica, demonstrando que seu significado é idiomático, cultural e teológico, não cosmológico. 

Busca-se, assim, contribuir para uma compreensão mais adequada do texto bíblico, evitando anacronismos interpretativos.


2. Textos bíblicos e análise linguística

A expressão “face da Terra” deriva principalmente do hebraico:

פְּנֵי הָאָרֶץ (pᵉnê hā’ārets)

E, no Novo Testamento, do grego:

πρόσωπον τῆς γῆς (prósōpon tês gês)

Ambos os termos significam literalmente:

superfície

presença

extensão visível

região habitada

Exemplos:

Gênesis 7:4

“Destruirei da face da Terra todo ser vivente.”

Atos 17:26

“De um só fez toda a raça humana para habitar sobre a face da Terra.”

Em nenhum desses contextos a expressão indica formato geométrico, mas sim totalidade espacial.


3. Gêneros literários bíblicos

A Bíblia não é um livro único, mas uma biblioteca composta por diversos gêneros:

Narrativa histórica (Gênesis, Êxodo)

Poesia (Salmos, Jó)

Profecia (Isaías, Jeremias)

Apocalíptico (Daniel, Apocalipse)

Epistolar (cartas apostólicas)

A expressão “face da Terra” aparece majoritariamente em:

narrativas

poesia

discursos proféticos

Portanto, pertence a um registro linguístico simbólico e fenomenológico, não científico.


4. Contexto histórico-cultural

Os autores bíblicos escrevem a partir da cosmovisão do Antigo Oriente Próximo, na qual o mundo é descrito conforme a experiência sensorial humana:

sol “nasce” e “se põe”

céu “se estende”

terra “tem fundamentos”

Trata-se de linguagem fenomenológica, isto é, descrição do mundo como ele aparece aos sentidos, não como modelo físico-matemático.


5. Hermenêutica crítica e erro do literalismo

A hermenêutica bíblica crítica rejeita a leitura literalista absoluta, pois esta incorre em:

Anacronismo semântico

Impor conceitos científicos modernos a textos antigos.

Falácia categorial

Confundir linguagem teológica com linguagem científica.

Assim, interpretar “face da Terra” como prova de Terra plana é um erro metodológico grave, pois transforma metáfora teológica em engenharia cosmológica.


6. Significados teológicos da expressão

Na teologia bíblica, “face da Terra” comunica:

universalidade da criação

soberania divina

presença humana no mundo

abrangência da ação de Deus

É uma expressão existencial e espiritual, não geométrica.


7. Mensagens para o século XXI

A leitura correta desses textos ensina que:

fé e ciência pertencem a campos epistemológicos distintos;

a Bíblia não pretende explicar o universo fisicamente;

o conflito entre Escritura e ciência surge de má interpretação, não do texto em si.

Para o século XXI, a principal mensagem é:

A Bíblia comunica sentido, não estrutura física do cosmos.


Conclusão

A expressão “face da Terra”, analisada à luz da hermenêutica crítica, da linguística semítica e do contexto histórico-cultural, não sustenta qualquer modelo cosmológico específico. 

Trata-se de um idiomatismo poético que designa a totalidade do mundo habitado. A tentativa de utilizá-la como prova de Terra plana constitui erro exegético, anacronismo semântico e confusão entre teologia e ciência.

Portanto, a Bíblia não afirma nem nega a esfericidade da Terra; ela comunica verdades teológicas por meio de linguagem simbólica adequada à experiência humana.

A expressão “face da Terra” na Bíblia não descreve o formato físico do planeta, mas é uma forma de falar da superfície e do mundo habitado.

Esse modo de falar existe até hoje quando dizemos “da face da Terra” sem pensar em geometria.

Os autores bíblicos usavam linguagem comum, baseada na experiência humana, não linguagem científica.

A Bíblia foi escrita para ensinar verdades espirituais, não para explicar astronomia.

Ler tudo de forma literal gera erro, porque poesia e metáfora viram “prova física”.

“Face”, “fundamentos” e “quatro cantos” são figuras de linguagem.

Isso não diminui a Bíblia, apenas respeita seu gênero literário.

Confundir teologia com ciência é erro de interpretação.

A fé não depende do formato da Terra.

Depende do sentido da mensagem, não da geometria do planeta.


Referências 

BÍBLIA. Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2016.

BROWN, Francis; DRIVER, S. R.; BRIGGS, Charles. The Brown-Driver-Briggs Hebrew and English Lexicon. Peabody: Hendrickson, 2003.

CARSON, D. A.; MOO, Douglas. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2010.

FEE, Gordon; STUART, Douglas. Entendes o que lês? Um guia para interpretação da Bíblia. São Paulo: Vida Nova, 2011.

KÖSTENBERGER, Andreas; PATTERSON, Richard. Invitation to Biblical Interpretation. Grand Rapids: Kregel, 2011.

SILVA, Moisés. Biblical Words and Their Meaning. Grand Rapids: Zondervan, 1994.

WRIGHT, N. T. The New Testament and the People of God. Minneapolis: Fortress Press, 1992.















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