A presente análise discute as dificuldades de mobilização coletiva da categoria docente em Santa Catarina diante das transformações estruturais na formação profissional, na carreira e na organização do trabalho educacional. Parte-se da hipótese de que a fragmentação formativa e institucional do magistério contribui para a reprodução de práticas individualizadas, dificultando a construção de pautas coletivas. Analisa-se também o papel do sindicato na mediação dessas demandas, problematizando se a estrutura sindical tradicional ainda responde às condições contemporâneas da profissão docente. Conclui-se que a mobilização da categoria exige reconhecer a heterogeneidade formativa e laboral produzida pelo atual modelo educacional, articulando novas estratégias de organização política e sindical.
Palavras-chave: carreira docente; sindicalismo; trabalho docente; política educacional; Santa Catarina.
1 Introdução
Nas últimas décadas, o trabalho docente no Brasil passou por profundas transformações associadas às reformas educacionais, à expansão do ensino superior e à diversificação das trajetórias formativas dos professores. Em Santa Catarina, esse processo produziu uma categoria profissional marcada por múltiplas formas de ingresso, formação e condições de trabalho, o que repercute diretamente nas possibilidades de mobilização coletiva.
Ao mesmo tempo, o debate sobre a valorização docente permanece central. Apesar da existência do piso nacional do magistério, as disputas salariais continuam sendo um dos principais eixos de mobilização da categoria. Em 2025, por exemplo, professores da rede estadual reivindicaram reajuste salarial de 23% e a descompactação da tabela salarial como forma de corrigir perdas acumuladas e valorizar a carreira docente. �
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Contudo, a dificuldade de mobilização coletiva levanta questões importantes: a categoria docente está satisfeita com as condições salariais ou enfrenta limites estruturais para a ação coletiva?
Além disso, os sindicatos docentes estariam operando com modelos organizativos que correspondem a realidades históricas distintas das atuais?
Analisa-se os desafios da mobilização coletiva dos professores em Santa Catarina diante das transformações no trabalho e na formação docente. Argumenta-se que o atual modelo educacional produziu uma categoria heterogênea, com diferentes trajetórias formativas e condições de trabalho.
Essa diversidade tende a fragmentar a identidade profissional e fortalecer práticas individualizadas. Ao mesmo tempo, questiona-se se as estruturas sindicais tradicionais conseguem responder às novas realidades da profissão.
Conclui-se que fortalecer a mobilização docente exige reconhecer essa heterogeneidade e renovar as estratégias de organização coletiva.
2 Transformações na formação e na identidade docente
A expansão do ensino superior nas últimas décadas ampliou significativamente o acesso às licenciaturas, mas também produziu uma heterogeneidade formativa no interior da profissão docente. Professores ingressam na carreira com diferentes níveis de formação, trajetórias acadêmicas e experiências profissionais.
Essa diversidade impacta a construção de identidades coletivas no interior da categoria. Enquanto alguns docentes possuem formação em cursos presenciais tradicionais e forte inserção acadêmica, outros ingressam na profissão por meio de formações emergenciais ou programas de formação acelerada. Como resultado, o campo docente torna-se mais fragmentado, dificultando a construção de uma identidade profissional comum.
Do ponto de vista sociológico, essa heterogeneidade também está associada à precarização do trabalho docente. Contratos temporários, múltiplos vínculos empregatícios e a intensificação do trabalho pedagógico produzem uma experiência laboral fragmentada, que tende a reforçar estratégias individuais de sobrevivência profissional em detrimento da ação coletiva.
3 Estrutura da carreira e contradições salariais
A carreira docente em Santa Catarina apresenta contradições importantes. Embora o salário inicial esteja próximo ao piso nacional, estudos apontam que a evolução salarial ao longo da carreira é limitada, resultando em um achatamento da remuneração entre professores iniciantes e experientes. �
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Esse fenômeno gera insatisfação entre docentes com maior tempo de serviço e maior titulação acadêmica, que percebem pouca valorização institucional de sua trajetória profissional. A reivindicação pela descompactação da tabela salarial surge justamente nesse contexto, buscando ampliar as diferenças salariais entre níveis de formação e tempo de carreira.
Ao mesmo tempo, o governo estadual argumenta que alterações significativas na estrutura salarial implicariam aumento substancial nos gastos públicos, o que limita a implementação imediata das reivindicações da categoria. �
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Essas tensões revelam uma contradição estrutural: enquanto a valorização docente é amplamente reconhecida como condição para a qualidade da educação, os limites fiscais e institucionais frequentemente restringem a implementação de políticas de carreira mais robustas.
4 Individualismo docente e limites da mobilização coletiva
Um dos desafios centrais da organização política da categoria docente está na tensão entre individualização do trabalho e construção de solidariedade coletiva. A lógica contemporânea de gestão educacional enfatiza desempenho individual, metas e resultados, incentivando práticas competitivas entre profissionais.
Nesse contexto, muitos professores passam a priorizar estratégias individuais de progressão profissional, como cursos de pós-graduação ou certificações, em detrimento da participação em processos coletivos de mobilização política.
Além disso, a heterogeneidade formativa e contratual fragmenta ainda mais a categoria. Professores efetivos, temporários e terceirizados vivenciam condições de trabalho distintas, o que dificulta a construção de pautas unificadas.
5 O papel do sindicato e o desafio da renovação organizativa
O sindicalismo docente brasileiro foi historicamente estruturado a partir das grandes mobilizações da década de 1980, período marcado pela redemocratização e pela expansão dos movimentos sociais. Esse modelo organizativo consolidou sindicatos fortes e politizados, capazes de mobilizar amplos setores da categoria.
Entretanto, as transformações recentes do trabalho docente exigem uma atualização das estratégias sindicais. A heterogeneidade formativa e contratual da categoria demanda novas formas de representação e participação política.
Nesse sentido, a atuação sindical precisa considerar não apenas as demandas salariais, mas também as mudanças estruturais na profissão docente, como:
a diversificação das trajetórias formativas;
a precarização do trabalho docente;
a intensificação das exigências pedagógicas;
a fragmentação institucional da categoria.
Reconhecer essa heterogeneidade torna-se condição fundamental para reconstruir formas de mobilização coletiva capazes de responder às demandas contemporâneas do magistério.
6 Considerações finais
A mobilização da categoria docente em Santa Catarina não pode ser compreendida apenas a partir do debate salarial. As dificuldades de organização coletiva estão profundamente relacionadas às transformações estruturais do trabalho docente e às mudanças na formação profissional.
A heterogeneidade formativa produzida pelo atual modelo educacional contribui para fragmentar identidades profissionais e enfraquecer processos de mobilização coletiva.
Nesse contexto, o desafio do sindicalismo docente consiste em reconhecer essa diversidade e desenvolver novas estratégias de organização política.
Portanto, a construção de um projeto renovado para o sindicato da categoria exige articular demandas salariais, valorização profissional e reconhecimento das múltiplas trajetórias formativas que compõem o magistério contemporâneo.
Quais destas ações estão sendo feitas pelo SINTE e quais podem ser realizadas para fortalecer a mobilização e organização coletiva da categoria dos professores, considerando os desafios atuais dos profissionais da educação?
Assembleias escolares descentralizadas
Realizar assembleias em cada escola para ouvir a base da categoria, ampliar participação e identificar demandas locais.
Formação política e sindical contínua
Promover cursos e debates sobre carreira docente, legislação educacional e direitos trabalhistas para fortalecer a consciência coletiva.
Pesquisas internas com a categoria
Aplicar questionários sobre salário, condições de trabalho, saúde mental e carreira para construir pautas baseadas em dados reais.
Fóruns regionais de professores
Criar espaços regionais de debate entre professores de diferentes escolas para discutir problemas comuns e construir propostas coletivas.
Campanhas de valorização docente
Organizar campanhas públicas que mostrem à sociedade a importância do trabalho dos professores e os desafios da profissão.
Grupos de estudo sobre políticas educacionais
Criar grupos de estudo sobre financiamento da educação, carreira do magistério e reformas educacionais.
Mobilização digital e redes sociais
Utilizar redes sociais para informar a categoria, divulgar pautas e mobilizar professores que muitas vezes não participam presencialmente.
Diálogo com estudantes e comunidade
Promover encontros com pais e estudantes para explicar as demandas da categoria e fortalecer o apoio social às lutas da educação.
Observatório da carreira docente
Criar um espaço de monitoramento das políticas educacionais, salários, concursos públicos e condições de trabalho.
Planejamento estratégico sindical participativo
Construir coletivamente um plano de ação do sindicato com metas de curto, médio e longo prazo para fortalecer a organização da categoria.
Referências
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GATTI, Bernadete A. Formação de professores no Brasil: características e problemas. Educação & Sociedade, Campinas, v. 31, n. 113, 2010.
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CUT-SC
PEPERI. Sinte entrega pauta ao governo e cobra reajuste de 23% para professores. 2025. �Peperi
4OITO. Professores da rede estadual cobram reajuste de 23%. 2025. � 4oito
SCC10. Greve da educação: governo de SC criará grupo para avaliar descompactação da tabela salarial. 2024. �
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