A meliponicultura tem se expandido no Sul do Brasil, especialmente em áreas urbanas e periurbanas. O sucesso na captura de enxames naturais depende de fatores como altura de instalação, orientação solar, proteção contra vento e umidade, volume interno da caixa e atrativos olfativos. Este trabalho apresenta recomendações técnicas para instalação de caixas-isca em ambiente urbano no município de São Francisco do Sul, considerando clima subtropical úmido e influência marítima. São discutidas variáveis ambientais, dimensões recomendadas e fundamentos ecológicos baseados na biologia de espécies como Tetragonisca angustula, Melipona quadrifasciata e Scaptotrigona xanthotricha.
Palavras-chave: Meliponicultura; Abelhas sem ferrão; Caixas-isca; Orientação solar; Santa Catarina.
1 Introdução
As abelhas sem ferrão (tribo Meliponini) desempenham papel essencial na polinização de espécies nativas e cultivadas. No Sul do Brasil, sua criação racional representa alternativa sustentável de produção de mel e conservação ambiental. A captura de enxames naturais por meio de caixas-isca é prática comum, porém sua eficiência depende de critérios técnicos relacionados à ecologia de nidificação, microclima e estrutura física do abrigo artificial.
Regiões litorâneas do Norte de Santa Catarina apresentam elevada umidade relativa do ar, ventos sazonais e variação térmica moderada, exigindo adaptações no posicionamento das colmeias.
2 Fundamentação Ecológica da Nidificação
Espécies como Tetragonisca angustula e Melipona quadrifasciata nidificam naturalmente em ocos de árvores, preferencialmente entre 1 e 5 metros de altura, com entradas protegidas da chuva direta e voltadas para áreas com insolação matinal. A orientação da entrada influencia a termorregulação da colônia e a redução de umidade interna, fator crítico em regiões costeiras.
A literatura indica que o aquecimento gradual pelo sol da manhã estimula atividade de forrageamento, enquanto exposição prolongada ao sol da tarde pode causar estresse térmico.
3 Materiais e Métodos Recomendados
3.1 Modelo de Caixa-Isca
Recomenda-se utilização de madeira de pinus não tratada, com espessura mínima de 2 cm, garantindo isolamento térmico adequado. O volume interno deve ser compatível com a espécie alvo:
-
Espécies pequenas (Plebeia, Jataí): 10 × 10 cm
-
Espécies médias (Scaptotrigona): 12 × 12 cm
-
Espécies Melipona: 16 × 16 cm
A entrada deve apresentar diâmetro compatível com o porte corporal:
-
6–8 mm (espécies pequenas)
-
10–12 mm (médias)
-
12–15 mm (Melipona)
Aplicação interna de própolis diluída e cera de abelha aumenta a atratividade.
3.2 Altura de Instalação
Com base em registros ecológicos e prática meliponicultora, recomenda-se instalação entre 1,5 m e 2,5 m do solo, sendo 1,8 m a 2,0 m a faixa considerada ideal. Alturas inferiores aumentam risco de formigas e umidade; alturas excessivas dificultam manejo.
3.3 Orientação Solar
Para o Norte de Santa Catarina, recomenda-se:
-
Entrada voltada para Norte ou Nordeste
-
Exposição ao sol da manhã
-
Sombra parcial no período da tarde
Essa configuração otimiza aquecimento inicial e reduz superaquecimento.
3.4 Proteção Estrutural
Em regiões litorâneas com influência de ventos do quadrante Sul, recomenda-se:
-
Fixação com parafusos na tampa
-
Peso adicional ou amarração
-
Distância mínima de 30–50 cm da parede
-
Instalação sob árvores que ofereçam sombra leve
4 Discussão
A combinação de orientação Norte/Nordeste, altura média de 1,8 m e proteção arbórea cria microclima semelhante ao ambiente natural de nidificação. Em São Francisco do Sul, onde a umidade é elevada, a insolação matinal desempenha papel relevante na redução de fungos e manutenção da estabilidade térmica.
A escolha do material (pinus não tratado) é viável economicamente e apresenta bom desempenho quando protegido externamente com óleo vegetal ou selante natural.
5 Distância de Forrageamento de Abelhas Sem Ferrão (Meliponini)
5.1 Fundamentação Ecológica
A distância de forrageamento das abelhas sem ferrão (tribo Meliponini) é variável e depende de fatores como:
Tamanho corporal da espécie
Disponibilidade de recursos florais
Estrutura da paisagem (mata contínua ou fragmentada)
Competição intra e interespecífica
Condições climáticas
De modo geral, espécies menores apresentam raio de voo mais curto, enquanto espécies maiores do gênero Melipona possuem maior capacidade de deslocamento.
5.2 Distâncias Médias por Grupo
🐝 Espécies Pequenas
Ex.: Tetragonisca angustula, Plebeia remota
Raio médio: 300 a 800 metros
Máximo registrado: até 1.000 m
Preferência por recursos próximos ao ninho
Estudos indicam que a maioria das operárias concentra coleta dentro de 500 m.
🐝 Espécies Médias
Ex.: Scaptotrigona bipunctata
Raio médio: 800 m a 1,5 km
Boa adaptação a áreas agrícolas e fragmentadas
🐝 Espécies Grandes
Ex.: Melipona quadrifasciata, Melipona obscurior
Raio médio: 1 a 2 km
Registros máximos: até 2,5 km
Capacidade de explorar paisagens amplas
4.3 Implicações para Produção de Mel
A produção de mel está diretamente relacionada à:
Diversidade floral dentro do raio de voo
Presença de espécies nativas da Mata Atlântica
Continuidade de floradas ao longo do ano
Em ambientes urbanos ou rurais fragmentados, recomenda-se garantir:
Área verde mínima dentro de 1 km para espécies pequenas
Área verde dentro de 2 km para espécies do gênero Melipona
A fragmentação reduz disponibilidade de pólen e néctar, impactando o volume anual produzido.
5.4 Comparação com Apis mellifera
A espécie exótica Apis mellifera apresenta raio de voo superior:
Média: 3 a 5 km
Registros extremos: até 10 km
Isso confere maior competitividade em ambientes abertos, podendo influenciar dinâmica de recursos.
5.5 Considerações para Instalação de Caixas
Para maximizar produção:
Instalar caixas próximas a fragmentos de Mata Atlântica
Manter diversidade de espécies florais nativas
Evitar isolamento total em áreas exclusivamente urbanizadas
Planejar paisagismo com espécies melíferas
6 Competição entre abelhas com ferrão e abelhas sem ferrão na meliponicultura
Conclusão
A instalação de caixas-isca para captura de abelhas sem ferrão em ambiente urbano no Norte de Santa Catarina deve considerar:
-
Altura entre 1,5 e 2,5 m (ideal 1,8 m);
-
Entrada voltada para Norte ou Nordeste;
-
Sombra parcial sob árvores;
-
Proteção contra vento Sul;
-
Madeira natural com espessura mínima de 2 cm;
-
Uso de atrativo à base de própolis e cera.
A adoção desses critérios aumenta a probabilidade de ocupação e promove manejo sustentável das espécies nativas.
Abelhas sem ferrão apresentam raio de forrageamento proporcional ao porte corporal. Espécies pequenas operam majoritariamente em até 800 m, enquanto espécies grandes podem alcançar até 2 km. Para sustentabilidade produtiva, recomenda-se planejamento ambiental considerando o raio ecológico da espécie criada.
Referências
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SILVEIRA, Fernando A.; MELO, Gabriel A. R.; ALMEIDA, Eduardo A. B. Abelhas brasileiras: sistemática e identificação. Belo Horizonte: Fundação Araucária, 2002.
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Anexo A
É tecnicamente possível utilizar esse modelo de base para captura inicial (caixa-isca) e, após a consolidação da colônia, realizar a expansão vertical com sobreninho e melgueiras, desde que o volume final respeite a biologia da espécie.
Abaixo segue o comparativo técnico aplicado ao sistema modular.
1. Princípio Biológico
Espécies da tribo Meliponini organizam o ninho em:
Ninho (discos de cria) – parte inferior
Sobreninho – expansão da área de cria
Melgueira – armazenamento de mel e pólen (superior)
O crescimento natural ocorre de forma vertical, principalmente em espécies do gênero Melipona.
2. Comparativo Técnico Adaptado ao Sistema Modular
Espécie
Base interna
Altura inicial (isca)
Sistema recomendado
Mirim (Plebeia)
10 × 10 cm
5–6 cm
Base + 1 sobreninho opcional
Mandaguari (Scaptotrigona)
18 × 18 cm
7–8 cm
Base + sobreninho + 1 melgueira
Uruçu (Melipona grande)
20 × 20 cm
8 cm
Base + sobreninho + 1–2 melgueiras
3. Viabilidade por Espécie
🔹 Mirim (Plebeia)
Espécies pequenas como Plebeia remota possuem discos compactos.
Pode-se capturar em caixa 10×10 cm e, após 3–4 meses, adicionar:
Sobreninho de 5 cm
Raramente necessita melgueira grande
Volume excessivo prejudica termorregulação.
🔹 Mandaguari
Espécies como Scaptotrigona postica são mais expansivas.
Modelo 18×18 cm funciona bem para captura.
Após estabilização:
Acrescentar sobreninho (7 cm)
Inserir melgueira superior ventilada
Boa adaptação ao sistema modular.
🔹 Uruçu (Melipona grande)
Exemplo: Melipona quadrifasciata ou Melipona scutellaris.
Necessitam maior volume térmico.
Modelo 20×20 cm é adequado para captura, porém:
Após 4–6 meses adicionar sobreninho
Depois incluir 1 ou 2 melgueiras
Espécies Melipona respondem melhor a caixas modulares padrão INPA ou vertical racional.
4. Requisitos Técnicos Essenciais
Para funcionar corretamente como sistema evolutivo:
Espessura mínima da madeira: 2 cm
Vedação perfeita (sem frestas)
Encaixe macho-fêmea ou sobreposição
Entrada proporcional (6–15 mm conforme espécie)
Tampa com fixação contra vento
Fundo elevado 1 cm para drenagem
5. Vantagens do Sistema Modular
✔ Permite captura com volume reduzido (maior chance de ocupação)
✔ Expansão controlada conforme crescimento
✔ Facilita manejo sanitário
✔ Mantém estabilidade térmica inicial
6. Conclusão Técnica
Sim, o modelo apresentado pode ser utilizado como caixa de captura inicial, desde que:
O volume seja compatível com a espécie.
A ampliação seja gradual.
A expansão ocorra apenas após consolidação da postura e população.
Para Melipona grandes (Uruçu), o sistema modular é altamente recomendado.
Para Mirim, expansão deve ser mínima e criteriosa.
Anexo B
Iscas colocadas di 08/03/2026
Anexo C
ANEXO E
🐝🌳 Calendário de Floração (12 meses)
Espécies Nativas da Mata Atlântica para Abelhas Sem Ferrão
🌼 Janeiro
-
Pitangueira
-
Grumixama
-
Guabiroba
-
Cambuí
🌼 Fevereiro
-
Araçá
-
Uvaia
-
Cereja-do-rio-grande
-
Cambucá
🌼 Março
-
Jabuticabeira
-
Cambuci
-
Capororoca
-
Cafezinho-do-mato
🌼 Abril
-
Ingá
-
Ingá-feijão
-
Jerivá
-
Tarumã
🌼 Maio
-
Cambará
-
Erva-baleeira
-
Guaricica
-
Capororoca
🌼 Junho
-
Aroeira-vermelha
-
Butiá
-
Guaco
-
Assa-peixe
🌼 Julho
-
Ipê-amarelo
-
Ipê-roxo
-
Angico-vermelho
-
Angico-branco
🌼 Agosto
-
Ipê-rosa
-
Embaúba
-
Guapuruvu
-
Canafístula
🌼 Setembro
-
Paineira
-
Cedro
-
Jequitibá-rosa
-
Peroba-rosa
🌼 Outubro
-
Cássia-amarela
-
Fedegoso
-
Guatambu
-
Cocão
🌼 Novembro
-
Palmito-juçara
-
Juçara
-
Guatambu-branco
-
Timbó
🌼 Dezembro
-
Pitangueira
-
Araçá
-
Guabiroba
-
Grumixama





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