domingo, 8 de março de 2026

Estratégia Eleitoral e Acumulação de Forças: o debate sobre candidaturas majoritárias e proporcionais na Unidade Popular segue uma estratégia Leninista, por isso não priorizam unidade em uma federação de esquerda?

A presente análise discute as estratégias eleitorais de partidos de esquerda emergentes no Brasil, com foco na Unidade Popular (UP). Analisa-se o papel das candidaturas majoritárias e proporcionais na construção de força política, bem como o debate interno sobre participação parlamentar, risco de reformismo e possibilidades de acumulação de forças sociais e institucionais. O estudo considera o sistema eleitoral brasileiro e a experiência histórica de partidos de esquerda que buscaram equilibrar atuação institucional e mobilização popular. A análise demonstra que a estratégia da Unidade Popular enfrenta o desafio de equilibrar participação eleitoral, fidelidade programática e construção de base social organizada. Candidaturas proporcionais podem ampliar a acumulação de forças institucionais, enquanto as majoritárias contribuem para a difusão do projeto político. Assim, a combinação entre mobilização social, disputa institucional e construção de hegemonia, conforme discutido por Antonio Gramsci, torna-se central para avanços políticos duradouros. Para Mark Fisher, parte do discurso revolucionário contemporâneo transformou a ideia de revolução em uma abstração retórica, muitas vezes desvinculada de estratégias políticas concretas. Em Realismo Capitalista: É Mais Fácil Imaginar o Fim do Mundo do que o Fim do Capitalismo, o autor sugere que certos setores da esquerda podem cair em posições dogmáticas quando tratam a transformação social como inevitável ou puramente ideológica. Nessa perspectiva crítica, discursos excessivamente rígidos podem dificultar a construção de estratégias políticas viáveis e a formação de maiorias sociais. Assim, Fisher propõe repensar as formas de organização política para além de posições meramente declarativas. O desafio, segundo o autor, é articular crítica ao capitalismo com propostas concretas de transformação social. Para a esquerda revolucionária, as análises de David Harvey reforçam a compreensão de que o capitalismo reorganiza continuamente o espaço para manter a acumulação de capital e ampliar desigualdades sociais. A partir de conceitos como acumulação por espoliação e direito à cidade, Harvey aponta que as transformações urbanas e econômicas refletem disputas estruturais entre capital e sociedade. Assim, suas interpretações são frequentemente utilizadas por movimentos críticos ao capitalismo para fundamentar propostas de mudança estrutural nas relações econômicas e territoriais. Parte do debate na esquerda contemporânea envolve a crítica de que algumas correntes se afastaram da centralidade da luta de classes formulada por Karl Marx e passaram a incorporar perspectivas pós-estruturalistas associadas a Michel Foucault. No Brasil, partidos como Partido Comunista Brasileiro, Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado e Partido da Causa Operária mantêm referências mais diretas ao marxismo clássico. Esse debate reflete divergências sobre a centralidade da luta de classes e o papel das pautas identitárias na estratégia política da esquerda. O sectarismo em setores da esquerda radical pode resultar de um purismo ideológico que dificulta a construção de alianças políticas e mobilização social ampla. Na tradição marxista, Karl Marx enfatiza a centralidade da práxis, isto é, a relação entre teoria e prática na transformação social. Assim, a efetividade política depende da capacidade de traduzir princípios ideológicos em ação coletiva concreta e organização popular.

Introdução

Nos últimos anos, a consolidação institucional da Unidade Popular abriu novas possibilidades de atuação eleitoral. Após obter registro legal junto ao Tribunal Superior Eleitoral, o partido passou a disputar eleições em diferentes níveis. Contudo, permanece o debate sobre qual estratégia eleitoral seria mais eficaz para ampliar sua influência política: investir prioritariamente em candidaturas majoritárias ou concentrar esforços nas eleições proporcionais para deputados federais e estaduais?


Candidaturas majoritárias da UP no Brasil

Nas eleições nacionais recentes, a UP lançou candidaturas majoritárias com o objetivo de ampliar visibilidade política e apresentar seu programa ao eleitorado. 

Em 2022, o partido apresentou a candidatura presidencial de Leonardo Péricles, tendo como vice a militante Samara Martins. Além disso, a UP lançou candidatos ao governo estadual em diferentes unidades da federação, buscando consolidar presença política nacional.

As candidaturas majoritárias possuem papel importante na divulgação programática e na construção de identidade política. Entretanto, apresentam baixa probabilidade eleitoral para partidos recém-legalizados ou com menor estrutura organizativa.


Estratégias proporcionais e acumulação de forças?

No sistema eleitoral brasileiro, as eleições para a Câmara dos Deputados do Brasil e para as assembleias legislativas estaduais seguem o modelo proporcional, baseado no quociente eleitoral e partidário. Esse sistema permite que partidos menores obtenham representação parlamentar mesmo sem alcançar grandes votações majoritárias.

Dessa forma, um argumento que pode ser feito é a concentração de recursos e militância em candidaturas a deputado federal e estadual poderia gerar maior acumulação de forças políticas?

 A eleição de parlamentares proporciona tribuna institucional, acesso a recursos partidários e maior visibilidade pública para o partido significaria perda de autonomia do UP?


Federações partidárias e alianças estratégicas

Outro elemento relevante no debate é a possibilidade de participação em federações partidárias. 

A união com outras legendas poderia ampliar a capacidade eleitoral da UP, permitindo maior competitividade em disputas majoritárias, incluindo candidaturas como a de Samara Martins em cenários futuros.

Entretanto, a formação de federações também levanta questões programáticas, uma vez que exige convivência política prolongada entre partidos com orientações ideológicas distintas, o risco de perda da identidade do IP?


Debate sobre parlamentarismo e reformismo

Dentro da tradição marxista e socialista, existe um debate histórico sobre a participação em parlamentos. 

Alguns setores consideram que a atuação institucional pode levar à moderação programática ou ao reformismo, fenômeno frequentemente discutido em relação ao Partido Socialismo e Liberdade e ao Partido dos Trabalhadores.

Por outro lado, a participação eleitoral também foi defendida por teóricos revolucionários como Vladimir Lenin, que via o parlamento como espaço de disputa política e instrumento de propaganda socialista.


Desafios contemporâneos

No contexto atual das democracias eleitorais, estratégias revolucionárias clássicas apresentam desafios significativos. 

Além disso, discursos de ruptura radical podem gerar reações conservadoras na sociedade, fortalecendo movimentos políticos de extrema direita, como aqueles associados a Jair Bolsonaro?

Assim, muitos movimentos progressistas têm buscado estratégias combinadas que incluem participação eleitoral, organização sindical e mobilização social.


Limites institucionais, correlação de forças e estratégias políticas no Estado contemporâneo

O debate sobre a possibilidade de transformação social profunda em regimes democráticos capitalistas constitui tema central da ciência política contemporânea. Parte da literatura identifica que os Estados modernos operam dentro de estruturas institucionais que refletem relações históricas de poder econômico e social. 

Nesse contexto, governos progressistas frequentemente enfrentam limites estruturais para implementar mudanças radicais, sendo levados a adotar estratégias reformistas ou gradativas. No Brasil, o programa político do governo liderado por Luiz Inácio Lula da Silva tem sido interpretado por diversos analistas como um exemplo de política social-democrata ou neodesenvolvimentista, orientada para a ampliação de direitos sociais dentro das instituições existentes.

Outro ponto relevante refere-se ao debate sobre estratégias revolucionárias em sociedades pluralistas. Experiências históricas demonstram que projetos políticos que buscam rupturas estruturais enfrentam o desafio da construção de maioria social e eleitoral. Em sistemas democráticos representativos, a legitimidade do governo depende do apoio de amplos setores da sociedade, que frequentemente apresentam orientações ideológicas diversas, incluindo correntes social-democratas, liberais ou conservadoras. 

Assim, a viabilidade de um governo composto exclusivamente por forças revolucionárias torna-se limitada sem a construção prévia de hegemonia social e política.

Nesse sentido, autores da tradição marxista destacam que a transformação estrutural exige não apenas conquista do poder estatal, mas também a construção de bases sociais organizadas capazes de sustentar mudanças profundas. O conceito de hegemonia desenvolvido por Antonio Gramsci enfatiza que a disputa política ocorre também no campo cultural e ideológico, sendo necessária a formação de consensos sociais capazes de legitimar novos projetos históricos.

Dessa forma, o debate contemporâneo na esquerda envolve a articulação entre diferentes estratégias: participação institucional, mobilização social e disputa ideológica. A combinação dessas dimensões pode permitir avanços graduais na ampliação de direitos sociais e na redução das desigualdades, ao mesmo tempo em que constrói condições políticas para transformações estruturais no longo prazo.




Considerações 

A experiência recente da Unidade Popular demonstra que partidos emergentes enfrentam dilemas estratégicos complexos. 

As candidaturas majoritárias contribuem para visibilidade programática, enquanto as eleições proporcionais podem possibilitar maior acumulação institucional de forças. 

O desafio consiste em equilibrar participação eleitoral, fidelidade programática e construção de base social organizada, garantindo que a atuação institucional contribua para a ampliação de direitos sociais e trabalhistas.


Referências bibliográficas

Vladimir Lenin. Esquerdismo: doença infantil do comunismo. Moscou: Internacional Comunista.

Maurice Duverger. Os partidos políticos. Rio de Janeiro: Zahar.

Norberto Bobbio. Direita e esquerda: razões e significados de uma distinção política. São Paulo: UNESP.

Tribunal Superior Eleitoral. Dados eleitorais e legislação eleitoral brasileira.

Unidade Popular. Documentos programáticos e registros eleitorais.




ANEXO A


Perspectivas e Propostas da Esquerda Revolucionária no Cenário Político Brasileiro Contemporâneo

​A emergência de novas lideranças no campo da esquerda socialista brasileira, como exemplificado pela trajetória de Samara Martins (Unidade Popular - UP), propõe uma ruptura com a lógica da conciliação de classes e o reformismo institucional. A plataforma política defendida pela Unidade Popular fundamenta-se na tese de que as contradições inerentes ao sistema capitalista não podem ser resolvidas dentro de seus próprios marcos, exigindo transformações estruturais profundas.

​No âmbito econômico, a crítica central recai sobre o "rentismo" e o sistema financeiro. Martins defende a suspensão imediata do pagamento da dívida pública, acompanhada de uma auditoria cidadã, sob o argumento de que o orçamento estatal prioriza o lucro bancário em detrimento de direitos sociais básicos como saúde e educação. Esta proposta visa redirecionar o Produto Interno Bruto (PIB) para frentes emergenciais de trabalho, visando a resolução de problemas históricos como o déficit habitacional e a insegurança alimentar.

​Ademais, o programa da esquerda revolucionária enfatiza a necessidade de reestatização de empresas estratégicas, como a Petrobras e a Vale, e a implementação de reformas de base, especificamente a agrária e a urbana. Tais medidas são indissociáveis de uma política de combate às opressões de raça, gênero e classe, partindo do princípio de que o patriarcado e o racismo são ferramentas sistêmicas de exploração econômica.

​Quanto à estratégia de mobilização, a proposta diferencia-se pela descrença no institucionalismo isolado. Defende-se que a ocupação de espaços parlamentares ou executivos deve servir como plataforma de denúncia e catalisador para a organização popular e conselhos de participação direta, inspirados em modelos de poder popular. No plano internacional, a diretriz é o internacionalismo proletário e a defesa da autodeterminação dos povos frente ao imperialismo, com foco no fortalecimento de laços com nações do Sul Global.


​Referência Bibliográfica


​Formato para vídeo de plataforma digital (YouTube):

MARTINS, Samara. Esquerda radical nas eleições de 2026 enfraquece Lula? Entrevistador: Breno Altman. São Paulo: Opera Mundi, 10 mar. 2026. 1 vídeo (85 min). Publicado pelo canal Opera Mundi. Disponível em: https://www.youtube.com/live/Fek01d__DpA. Acesso em: 11 mar. 2026.


ANEXO B

Perspectiva da Esquerda Revolucionária e ODS: lacunas e propostas de implementação

A plataforma política da Unidade Popular apresenta propostas estruturais que dialogam diretamente com diversos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), em especial:

  • ODS 1 – Erradicação da pobreza: enfrentamento do déficit habitacional e insegurança alimentar.

  • ODS 2 – Fome zero e agricultura sustentável: reforma agrária e incentivo à produção alimentar local.

  • ODS 5 – Igualdade de gênero: políticas de combate ao patriarcado.

  • ODS 10 – Redução das desigualdades: auditoria da dívida pública e redirecionamento do orçamento para políticas sociais.

  • ODS 8 – Trabalho decente e crescimento econômico: criação de empregos através de frentes emergenciais de trabalho.

  • ODS 9 – Indústria, inovação e infraestrutura: reestatização de empresas estratégicas para controle público e planejamento econômico.

  • ODS 16 – Paz, justiça e instituições eficazes: promoção de conselhos populares e participação direta na tomada de decisão.

Lacunas na implementação

Embora essas propostas apresentem potencial transformador, muitas não foram efetivamente colocadas em prática devido a:

  1. Resistência institucional: a atuação parlamentar da esquerda radical é limitada por sua reduzida bancada e dependência de partidos maiores para encaminhamento de projetos.

  2. Restrição orçamentária: a alocação de recursos ainda favorece o pagamento da dívida pública e lucros financeiros, em detrimento de políticas sociais estratégicas.

  3. Concentração de poder econômico: empresas estratégicas permanecem privadas ou parcialmente privatizadas, dificultando o controle público e planejamento sustentável.

  4. Dificuldades de mobilização popular em larga escala: ausência de conselhos de participação direta e mecanismos de democracia participativa consolidados.

Propostas para implementação dos ODS

Para efetivar os ODS citados, sugere-se:

  1. Auditoria cidadã da dívida pública (ODS 10 e 16) – garantir transparência e reorientar recursos para saúde, educação e segurança alimentar.

  2. Programas emergenciais de emprego e infraestrutura sustentável (ODS 8 e 9) – gerar trabalho decente enquanto fortalece setores estratégicos controlados pelo Estado.

  3. Reformas agrária e urbana integradas com políticas sociais (ODS 1, 2 e 11) – criação de assentamentos sustentáveis, habitação popular e agricultura familiar.

  4. Criação de conselhos populares e fóruns de participação direta (ODS 16) – articulação entre movimentos sociais, sindicatos e governos locais para acompanhamento de políticas públicas.

  5. Políticas de combate às opressões estruturais (ODS 5 e 10) – educação popular, programas de inclusão racial e de gênero no trabalho e na administração pública.

Considerações 

A esquerda revolucionária brasileira propõe uma abordagem integrada entre ruptura programática e estratégias institucionais seletivas, com foco em transformações estruturais, justiça social e sustentabilidade. A implementação dos ODS demanda não apenas proposição legislativa, mas mobilização social, controle democrático de recursos e planejamento estratégico que articule Estado, movimentos sociais e sociedade civil organizada.


Referências Bibliográficas (ABNT 2023)

MARTINS, Samara. Esquerda radical nas eleições de 2026 enfraquece Lula? Entrevistador: Breno Altman. São Paulo: Opera Mundi, 10 mar. 2026. 1 vídeo (85 min). Publicado pelo canal Opera Mundi. Disponível em: https://www.youtube.com/live/Fek01d__DpA. Acesso em: 11 mar. 2026.

ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Transformando nosso mundo: a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável. Nova York: ONU, 2015. Disponível em: https://sdgs.un.org/2030agenda. Acesso em: 11 mar. 2026.

Unidade Popular. Programa político e propostas estruturais. São Paulo: UP, 2023.


Conclusão

A análise das estratégias políticas da Unidade Popular no cenário político brasileiro contemporâneo evidencia a complexidade da relação entre projeto revolucionário, participação institucional e construção de base social organizada. As candidaturas majoritárias, como a de Samara Martins e a experiência eleitoral nacional liderada por Leonardo Péricles, cumprem papel relevante na difusão programática e na ampliação do debate público sobre alternativas ao modelo econômico vigente. Contudo, sua eficácia eleitoral tende a ser limitada diante da atual correlação de forças políticas e institucionais.

Nesse contexto, o fortalecimento de candidaturas proporcionais, especialmente para a Câmara dos Deputados do Brasil e para as assembleias legislativas estaduais, pode representar uma estratégia de acumulação gradual de forças políticas e institucionais. A presença parlamentar permite ampliar a visibilidade do projeto político, fortalecer a articulação com movimentos sociais e influenciar a formulação de políticas públicas alinhadas aos princípios de justiça social e redução das desigualdades.

Ao mesmo tempo, o debate teórico demonstra que a transformação estrutural em sociedades democráticas depende da construção de hegemonia social, conceito desenvolvido por Antonio Gramsci, que enfatiza a necessidade de articulação entre disputa institucional, mobilização popular e transformação cultural. Assim, a atuação política não pode restringir-se exclusivamente ao campo eleitoral ou parlamentar, devendo integrar processos amplos de organização social e participação cidadã.

Por fim, observa-se que os desafios enfrentados pela esquerda no Brasil envolvem equilibrar fidelidade programática, viabilidade institucional e ampliação da base social de apoio. A construção de estratégias políticas capazes de articular reformas imediatas com transformações estruturais de longo prazo permanece como elemento central para o avanço de projetos orientados à ampliação de direitos sociais, à democratização econômica e à implementação dos princípios de desenvolvimento sustentável propostos pela Agenda 2030.


O conceito de socialismo científico no marxismo-leninismo

O conceito de socialismo científico constitui um dos fundamentos teóricos do pensamento marxista. Desenvolvido por Karl Marx e Friedrich Engels no século XIX, o termo buscava diferenciar a análise materialista da sociedade das correntes do chamado socialismo utópico. Para esses autores, a transformação social deveria ser compreendida a partir da análise das condições históricas, das relações de produção e das contradições internas do capitalismo, utilizando o método do materialismo histórico e dialético. Nesse sentido, o socialismo científico não era apresentado como uma verdade absoluta ou dogma filosófico, mas como uma interpretação baseada na análise crítica das estruturas econômicas e sociais.

No início do século XX, Vladimir Lenin aprofundou essa tradição teórica ao adaptar os princípios do marxismo às condições políticas do Império Russo e às dinâmicas do capitalismo imperialista. Lenin argumentou que a organização política da classe trabalhadora deveria ocorrer por meio de um partido revolucionário capaz de conduzir a luta política e social. Dessa forma, o marxismo-leninismo consolidou-se como uma interpretação específica do socialismo científico aplicada à estratégia revolucionária e à construção do Estado socialista.

Entretanto, ao longo do século XX, a institucionalização do marxismo-leninismo em diversos Estados socialistas levou a interpretações divergentes sobre seu caráter científico. Enquanto parte da literatura acadêmica considera o marxismo como uma teoria crítica aberta à revisão histórica, outros contextos políticos transformaram essa tradição teórica em doutrina ideológica oficial, muitas vezes tratada como verdade política normativa. Esse debate permanece relevante na análise contemporânea das correntes socialistas e de suas estratégias políticas no interior das democracias modernas.


Referências (ABNT NBR 6023:2018 – atualizada 2023)

Karl Marx. O capital: crítica da economia política. São Paulo: Boitempo, 2013.

Friedrich Engels. Do socialismo utópico ao socialismo científico. São Paulo: Boitempo, 2012.

Vladimir Lenin. O Estado e a revolução. São Paulo: Boitempo, 2017.

Norberto Bobbio. Direita e esquerda: razões e significados de uma distinção política. São Paulo: UNESP, 1995.


Unidade política e maioria parlamentar como estratégia de transformação social

No debate contemporâneo sobre estratégias de transformação social, alguns setores da esquerda argumentam que mudanças estruturais profundas poderiam ocorrer por meio da conquista de maioria parlamentar. Essa perspectiva parte da ideia de que a obtenção de ampla representação política em instituições como a Câmara dos Deputados do Brasil permitiria implementar reformas estruturais por vias institucionais, alterando gradualmente a estrutura econômica e social do Estado.

Entretanto, a construção dessa maioria depende da formação de amplas alianças sociais e políticas, frequentemente descritas como processos de unidade popular. Nesse sentido, a articulação entre movimentos sociais, sindicatos, partidos políticos e organizações da sociedade civil torna-se fundamental para consolidar uma base eleitoral capaz de sustentar projetos de transformação. A ideia de unidade popular remete historicamente a experiências políticas que buscaram reunir diferentes setores da sociedade em torno de um programa comum de mudanças estruturais.

Além disso, autores da tradição marxista destacam que a conquista de maioria institucional não depende apenas da disputa eleitoral, mas também da construção de hegemonia social e cultural. Conforme argumenta Antonio Gramsci, a transformação política duradoura exige a formação de consensos sociais amplos e a organização das classes populares em diferentes esferas da vida social. Dessa forma, a obtenção de maioria parlamentar seria resultado de um processo histórico mais amplo de mobilização social, organização política e disputa ideológica.

Assim, a possibilidade de uma “virada histórica” no sistema político dependeria não apenas de estratégias eleitorais, mas também da consolidação de uma base social organizada e de projetos políticos capazes de dialogar com a diversidade ideológica presente nas sociedades democráticas contemporâneas.


Referências (ABNT NBR 6023:2018 – atualizada 2023)

Antonio Gramsci. Cadernos do cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.

Karl Marx. O capital: crítica da economia política. São Paulo: Boitempo, 2013.

Vladimir Lenin. O Estado e a revolução. São Paulo: Boitempo, 2017.

Câmara dos Deputados do Brasil. Dados institucionais e funcionamento do sistema legislativo brasileiro. Brasília, 2024.


Crítica contemporânea ao discurso revolucionário: contribuições de Mark Fisher

No debate teórico contemporâneo, alguns autores têm analisado criticamente a forma como a ideia de revolução é frequentemente apresentada no discurso político. O filósofo e crítico cultural Mark Fisher argumenta que, em muitos contextos, a noção de revolução passou a ser tratada de maneira abstrata ou simbólica, desvinculada de estratégias políticas concretas. Em sua obra Realismo Capitalista: É Mais Fácil Imaginar o Fim do Mundo do que o Fim do Capitalismo, o autor discute como o capitalismo contemporâneo construiu um ambiente cultural no qual alternativas sistêmicas parecem difíceis de imaginar ou organizar politicamente.

Segundo Fisher, parte dos discursos revolucionários nas sociedades atuais pode assumir um caráter retórico, especialmente quando não está acompanhado de projetos institucionais, estratégias organizativas ou construção de base social efetiva. Nesse sentido, o autor critica posições que tratam a revolução como um ideal abstrato ou inevitável, sem considerar as complexas dinâmicas políticas, culturais e econômicas que estruturam as sociedades contemporâneas.

Essa crítica também dialoga com análises sobre o risco de dogmatização ideológica dentro de determinados movimentos políticos. Quando determinadas interpretações do marxismo passam a ser defendidas de forma rígida ou descontextualizada, podem dificultar o desenvolvimento de estratégias políticas adaptadas às condições históricas atuais. Assim, Fisher propõe que a reflexão crítica sobre o capitalismo e suas alternativas deve articular análise cultural, organização social e propostas institucionais capazes de produzir mudanças concretas.

Dessa forma, a contribuição de Fisher para o debate político contemporâneo consiste em estimular uma reflexão sobre a necessidade de reconstruir projetos de transformação social que sejam simultaneamente críticos ao capitalismo e viáveis no plano político e institucional.


Referência (ABNT NBR 6023:2018 – atualizada 2023)

Mark Fisher. Realismo capitalista: é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. São Paulo: Autonomia Literária, 2020.


David Harvey: biografia e principais conceitos científicos

Biografia

David Harvey nasceu em 1935, em Gillingham, no Reino Unido, e é considerado um dos principais geógrafos e teóricos sociais contemporâneos. Sua formação inicial ocorreu na área de geografia histórica na University of Cambridge, onde concluiu seu doutorado em 1961. Ao longo de sua carreira acadêmica, Harvey atuou em instituições importantes, como a Johns Hopkins University e posteriormente na City University of New York.

A partir da década de 1970, Harvey passou a desenvolver uma abordagem crítica da geografia influenciada pelo pensamento de Karl Marx. Seus estudos se concentram na análise das transformações do capitalismo, especialmente na relação entre espaço geográfico, urbanização e acumulação de capital. Harvey tornou-se referência internacional nos estudos sobre geografia crítica, economia política do espaço e urbanização no capitalismo contemporâneo.

Principais conceitos científicos

1. Produção capitalista do espaço
Harvey argumenta que o espaço urbano e territorial não é neutro, mas produzido socialmente pelas relações econômicas do capitalismo. O espaço se torna um instrumento para a circulação de capital e reorganização da produção.

2. Acumulação por espoliação
O conceito descreve processos pelos quais o capitalismo amplia sua acumulação através da apropriação de recursos públicos ou comuns, como privatizações, especulação imobiliária e expropriação de territórios.

3. Compressão espaço-tempo
Harvey analisa como o avanço das tecnologias de transporte e comunicação reduz distâncias econômicas e acelera fluxos globais de capital, reorganizando o espaço mundial.

4. Direito à cidade
Inspirado no pensamento de Henri Lefebvre, Harvey defende que os cidadãos devem ter poder coletivo sobre as transformações urbanas e sobre o uso do espaço urbano.

5. Urbanização do capital
O autor demonstra que as cidades funcionam como mecanismos de absorção de excedentes de capital, sendo fundamentais para a dinâmica de expansão do capitalismo.

Contribuições científicas

As contribuições de Harvey influenciam áreas como geografia humana, sociologia urbana, economia política e planejamento urbano. Seus estudos são amplamente utilizados para compreender fenômenos contemporâneos como desigualdades territoriais, crises urbanas, gentrificação e financeirização das cidades.


Referências bibliográficas (ABNT NBR 6023:2018 – atualizada 2023)

David Harvey. A condição pós-moderna. São Paulo: Loyola, 1992.

David Harvey. O enigma do capital e as crises do capitalismo. São Paulo: Boitempo, 2011.

David Harvey. Cidades rebeldes: do direito à cidade à revolução urbana. São Paulo: Martins Fontes, 2014.

Karl Marx. O capital: crítica da economia política. São Paulo: Boitempo, 2013.

Henri Lefebvre. O direito à cidade. São Paulo: Centauro, 2001.



Sectarismo, fragmentação ideológica e debates estratégicos na esquerda brasileira

O debate interno entre organizações da esquerda brasileira revela tensões históricas relacionadas ao sectarismo político, à definição de estratégias revolucionárias e à participação nas instituições democráticas. Diferentes partidos e correntes socialistas apresentam interpretações distintas sobre o papel do parlamento, da mobilização popular e da construção de alianças políticas. Nesse contexto, organizações como o Partido da Causa Operária, o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado e o Partido Comunista Brasileiro são frequentemente citadas em debates sobre estratégias revolucionárias e críticas ao reformismo institucional.

Por outro lado, experiências políticas mais recentes, como a atuação da Unidade Popular, buscam combinar discurso socialista com participação eleitoral e organização popular. Essa estratégia procura ampliar a base social e disputar espaço institucional, ao mesmo tempo em que mantém uma crítica estrutural ao capitalismo. Entretanto, tais iniciativas também enfrentam questionamentos internos sobre o risco de adaptação ao sistema político vigente.

Na literatura acadêmica, esse fenômeno é frequentemente interpretado como resultado da fragmentação ideológica e organizativa da esquerda contemporânea. Segundo Antonio Gramsci, a construção de hegemonia política exige a articulação entre diferentes forças sociais e a formação de consensos amplos na sociedade. Dessa forma, o desafio estratégico consiste em superar o isolamento político e construir projetos coletivos capazes de mobilizar maiorias sociais em torno de programas de transformação estrutural.


Referências (ABNT NBR 6023:2018 – atualizada 2023)

Antonio Gramsci. Cadernos do cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.

Karl Marx. O capital: crítica da economia política. São Paulo: Boitempo, 2013.

Vladimir Lenin. O Estado e a revolução. São Paulo: Boitempo, 2017.

Mark Fisher. Realismo capitalista: é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. São Paulo: Autonomia Literária, 2020.

David Harvey. Cidades rebeldes: do direito à cidade à revolução urbana. São Paulo: Martins Fontes, 2014.


Seção analítica: marxismo, pós-estruturalismo e debates sobre identidade na esquerda

Parte do debate contemporâneo na esquerda envolve a crítica de que algumas correntes teriam se afastado do marxismo clássico e incorporado fortemente perspectivas pós-estruturalistas associadas ao pensamento de Michel Foucault. Nessas abordagens, a análise política passa a enfatizar relações de poder, identidade, gênero e cultura, enquanto setores marxistas mais tradicionais defendem a centralidade das relações de classe na interpretação das desigualdades sociais, conforme formulado por Karl Marx.

No cenário brasileiro, diferentes partidos expressam essas variações teóricas. Correntes mais vinculadas ao marxismo clássico ou revolucionário podem ser encontradas em organizações como o Partido Comunista Brasileiro, o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado, o Partido da Causa Operária e, em parte, a Unidade Popular. Já outras correntes da esquerda institucional tendem a combinar referências marxistas com perspectivas contemporâneas sobre gênero, raça e identidade, como ocorre em setores do Partido Socialismo e Liberdade e do Partido dos Trabalhadores.

Assim, o debate sobre “identitarismo”, marxismo e pós-estruturalismo reflete divergências teóricas e estratégicas dentro da própria esquerda, relacionadas à forma de interpretar as desigualdades sociais e às estratégias políticas consideradas mais eficazes para promover transformações estruturais.


Referências bibliográficas 

Karl Marx. O capital: crítica da economia política. São Paulo: Boitempo, 2013.

Michel Foucault. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979.

Antonio Gramsci. Cadernos do cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.

David Harvey. O enigma do capital e as crises do capitalismo. São Paulo: Boitempo, 2011.

Mark Fisher. Realismo capitalista: é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. São Paulo: Autonomia Literária, 2020.


Sectarismo, purismo ideológico e a centralidade da práxis na esquerda contemporânea

O fenômeno do sectarismo político em determinados setores da esquerda radical tem sido objeto de análise na literatura de ciência política e teoria social. Esse comportamento pode manifestar-se por meio de um purismo ideológico que prioriza a fidelidade a interpretações doutrinárias específicas em detrimento da construção de estratégias coletivas e alianças sociais amplas. Em alguns contextos, esse tipo de postura tende a reforçar dinâmicas de fragmentação organizativa e personalismo político, dificultando a formação de projetos políticos capazes de mobilizar amplos setores da sociedade.

A tradição marxista clássica enfatiza que a transformação social não se realiza apenas por meio de formulações teóricas ou identidades ideológicas, mas sobretudo pela práxis política, entendida como a unidade entre reflexão crítica e ação coletiva. Nesse sentido, Karl Marx argumentava que a teoria social deve estar vinculada à prática histórica das classes trabalhadoras, permitindo que a crítica ao capitalismo se traduza em processos concretos de organização social e transformação política.

No cenário político brasileiro contemporâneo, diferentes organizações da esquerda procuram responder a esse desafio estratégico. Algumas experiências recentes, como a atuação da Unidade Popular, buscam desenvolver formas de organização baseadas na mobilização popular, na militância coletiva e na participação em disputas eleitorais. No entanto, permanece em aberto o debate sobre a capacidade dessas organizações de evitar tendências sectárias e construir projetos políticos capazes de dialogar com a diversidade ideológica presente na sociedade.

Assim, a discussão sobre sectarismo e purismo ideológico evidencia a necessidade de articular teoria crítica, prática política e construção de base social. A efetividade da ação política depende, nesse sentido, da capacidade de transformar princípios teóricos em práticas organizativas concretas, capazes de ampliar a participação popular e fortalecer processos democráticos de transformação social.


Referências (ABNT NBR 6023:2018 – atualizada 2023)

Karl Marx. Teses sobre Feuerbach. São Paulo: Boitempo, 2007.

Antonio Gramsci. Cadernos do cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.

Mark Fisher. Realismo capitalista: é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. São Paulo: Autonomia Literária, 2020.

David Harvey. Cidades rebeldes: do direito à cidade à revolução urbana. São Paulo: Martins Fontes, 2014.



10 Teoria Crítica contemporânea e justiça social em Nancy Fraser


A filósofa Nancy Fraser é uma das principais representantes contemporâneas da tradição da Teoria Crítica. Seus trabalhos buscam atualizar o pensamento crítico originado na Escola de Frankfurt, incorporando debates contemporâneos sobre justiça social, democracia e desigualdades estruturais. Fraser desenvolve uma abordagem que procura articular diferentes dimensões da injustiça social, superando dicotomias entre análise econômica e reconhecimento cultural.


Um dos conceitos centrais em sua obra é a distinção entre redistribuição e reconhecimento. A autora argumenta que as desigualdades sociais não podem ser explicadas apenas pela exploração econômica, como enfatizado em tradições marxistas associadas a Karl Marx, nem exclusivamente por questões culturais ou identitárias. Para Fraser, a justiça social exige a combinação dessas duas dimensões: políticas de redistribuição de recursos econômicos e políticas de reconhecimento voltadas ao combate a formas de desvalorização cultural e social.


Posteriormente, Fraser ampliou essa análise ao incorporar uma terceira dimensão da justiça: a representação política. Segundo a autora, sistemas políticos podem produzir injustiças quando determinados grupos são excluídos ou sub-representados nos processos de decisão democrática. Assim, sua proposta teórica sugere um modelo tridimensional de justiça social que envolve redistribuição econômica, reconhecimento cultural e representação política.


As contribuições de Fraser têm grande impacto nos debates contemporâneos sobre capitalismo, democracia e movimentos sociais. Ao propor a integração entre diferentes formas de análise crítica, sua obra busca superar polarizações entre perspectivas exclusivamente economicistas e abordagens centradas apenas na identidade, oferecendo um quadro teórico mais abrangente para compreender as múltiplas dimensões das desigualdades sociais no mundo contemporâneo.


Referências (ABNT NBR 6023:2018 – atualizada 2023)


Nancy Fraser. Da redistribuição ao reconhecimento? Dilemas da justiça na era pós-socialista. Cadernos de Campo, São Paulo, 2002.


Nancy Fraser; Axel Honneth. Redistribuição ou reconhecimento? Um debate político-filosófico. São Paulo: Boitempo, 2003.


Nancy Fraser. Fortunas do feminismo: do capitalismo administrado à crise neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2019.


Karl Marx. O capital: crítica da economia política. São Paulo: Boitempo, 2013.

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