segunda-feira, 5 de outubro de 2026

QUANDO A DIREITA VAI COMBATER A CORRUPÇÃO DA DIREITA?

Esta análise criticamente a seletividade do discurso anticorrupção na política contemporânea, relacionando a formação histórica do capitalismo, o colonialismo, a escravidão e diferentes formas de fundamentalismo político. A pesquisa toma como estudo de caso discursos políticos contemporâneos associados ao trumpismo e ao bolsonarismo, com atenção especial às declarações de Jeffrey Chiquini após sua eleição para a Câmara dos Deputados em 2026. Sustenta-se que o combate à corrupção, para preservar seu caráter republicano, deve ser aplicado de maneira universal, independentemente da orientação ideológica, partidária ou econômica dos agentes envolvidos. **Palavras-chave:** corrupção; capitalismo; fundamentalismo político; trumpismo; bolsonarismo; democracia; poder. # 1 INTRODUÇÃO A pergunta que orienta este artigo — **“Quando irão combater a corrupção da direita?”** — não pretende estabelecer que a corrupção seja característica exclusiva de determinado campo político. Ao contrário, procura problematizar a utilização seletiva do conceito de corrupção como instrumento de disputa política. Em sociedades democráticas, a corrupção deve ser investigada independentemente de quem sejam os agentes envolvidos, sejam eles vinculados à esquerda, à direita, ao centro, ao Estado, ao mercado ou a organizações privadas. A discussão exige, inicialmente, compreender que a corrupção política não surgiu com os partidos contemporâneos. Ela está relacionada a estruturas históricas de apropriação do poder, concentração econômica, colonialismo, patrimonialismo e utilização privada de recursos públicos. A formação do capitalismo moderno esteve profundamente vinculada à expansão marítima europeia, ao colonialismo, à exploração de territórios, ao tráfico de pessoas escravizadas e à acumulação de riquezas provenientes das colônias. A historiografia econômica demonstra que a expansão comercial europeia não pode ser compreendida separadamente das relações de poder estabelecidas entre metrópoles e territórios colonizados. Nesse processo, pirataria, corso, comércio colonial, monopólios comerciais e exploração de recursos participaram de diferentes mecanismos de acumulação. Não se deve, contudo, reduzir a origem do capitalismo simplesmente à ação de “piratas ingleses”; trata-se de um processo histórico mais amplo, envolvendo diferentes Estados europeus, instituições financeiras, comerciantes, companhias monopolistas e sistemas coloniais. Na América Latina, a discussão sobre dependência econômica também precisa considerar as relações entre comércio internacional, capitais estrangeiros e formação dos Estados nacionais. A Guerra do Paraguai constitui importante exemplo para essa discussão. Durante décadas, interpretações revisionistas enfatizaram o papel britânico e apresentaram o conflito como expressão de interesses econômicos externos. A historiografia contemporânea, entretanto, demonstra que o problema é mais complexo: tanto o Paraguai quanto os países da Tríplice Aliança estavam inseridos em diferentes projetos de acumulação capitalista, enquanto os interesses britânicos constituíam uma dimensão importante, mas não uma explicação única para a guerra. Assim, o objetivo deste artigo é deslocar a pergunta da simples identificação de “quem é corrupto” para outra questão: **por que determinados grupos políticos são permanentemente associados à corrupção enquanto práticas semelhantes, quando praticadas por grupos ideologicamente diferentes, recebem tratamento discursivo distinto?** --- # 2 A FORMAÇÃO HISTÓRICA DO CAPITALISMO E A ACUMULAÇÃO A compreensão crítica do capitalismo exige ultrapassar sua definição como simples sistema econômico baseado na propriedade privada e no mercado. A formação histórica do capitalismo europeu esteve associada à acumulação de capital, à expansão comercial, à colonização, à escravidão e à apropriação de recursos de territórios submetidos ao domínio europeu. Karl Marx, ao analisar a chamada acumulação primitiva, demonstrou que a formação do capital moderno não pode ser dissociada de processos históricos de expropriação. A acumulação não ocorreu exclusivamente pela inovação produtiva ou pela troca mercantil, mas também por mecanismos coercitivos de apropriação. A expansão colonial europeia produziu uma relação assimétrica entre centros metropolitanos e territórios colonizados. Recursos naturais, terras, força de trabalho e riquezas foram incorporados a circuitos internacionais de acumulação. Nesse sentido, uma análise histórica da corrupção precisa considerar não apenas o indivíduo que desvia determinado recurso público, mas também estruturas institucionais capazes de produzir formas legais ou ilegais de apropriação privada da riqueza social. O problema passa, portanto, da corrupção individual para a relação entre **poder econômico, poder político e instituições**. --- # 3 O CAPITALISMO COMERCIAL, O COLONIALISMO E A GUERRA DO PARAGUAI A expansão do capitalismo comercial europeu foi acompanhada pelo fortalecimento de Estados nacionais, empresas comerciais e redes financeiras. A Inglaterra ocupou posição central na economia mundial do século XIX, especialmente em razão de sua industrialização, capacidade financeira, comércio internacional e expansão imperial. No caso da América do Sul, a Guerra do Paraguai (1864–1870) tornou-se objeto de diferentes interpretações historiográficas. A interpretação revisionista associou o conflito aos interesses britânicos e à oposição entre um Paraguai relativamente protecionista e uma economia regional vinculada ao comércio internacional. Entretanto, pesquisas posteriores questionaram explicações excessivamente monocausais. A própria historiografia econômica identifica o conflito como resultado da interação entre disputas territoriais, interesses regionais, formação dos Estados nacionais, questões relacionadas à navegação dos rios, política uruguaia, Argentina, Brasil, Paraguai e interesses econômicos internacionais. Estudos sobre o Paraguai do período também demonstram a existência de iniciativas de industrialização conduzidas pelo Estado, embora a extensão e a natureza dessa industrialização sejam objeto de debate acadêmico. Portanto, a hipótese de que “a Inglaterra não deixava ninguém ter indústria” deve ser tratada como **hipótese historiográfica a ser demonstrada**, e não como conclusão previamente estabelecida. O ponto central deste artigo é outro: a história do capitalismo demonstra que relações entre poder econômico e poder político sempre foram fundamentais para compreender a distribuição desigual de riqueza e poder. --- # 4 FUNDAMENTALISMO CAPITALISTA O conceito de **fundamentalismo capitalista** é utilizado aqui como categoria analítica para designar discursos que apresentam o mercado como princípio praticamente absoluto de organização social. Nesse discurso, a propriedade privada, a liberdade econômica e a redução da intervenção estatal podem ser apresentadas como valores superiores às demais dimensões da vida social. O problema não está na existência do mercado, mas na transformação de uma determinada forma de organização econômica em princípio absoluto. Quando a lógica econômica passa a dominar integralmente as decisões políticas, direitos sociais podem ser convertidos em mercadorias e desigualdades estruturais podem ser interpretadas como simples resultados individuais. A crítica sociológica consiste em perguntar: * quem possui os recursos econômicos; * quem controla os meios de produção; * quem influencia as instituições; * quem financia campanhas; * quem possui acesso privilegiado ao Estado; * quem se beneficia de determinadas políticas públicas; * e quem é responsabilizado quando ocorre uma crise. Dessa maneira, a corrupção não deve ser investigada somente como desvio individual, mas também como problema relacionado às relações estruturais entre Estado, mercado e grupos de interesse. --- # 5 FUNDAMENTALISMO TRUMPISTA O trumpismo constitui uma formação política contemporânea que combina nacionalismo, populismo, conservadorismo cultural, crítica às instituições tradicionais e forte personalização da liderança política. A utilização do termo “fundamentalismo trumpista” neste artigo não significa afirmar que todos os eleitores ou apoiadores de Donald Trump compartilham as mesmas posições. A categoria refere-se especificamente a formas de discurso político que transformam a liderança em referência central para a interpretação da realidade política. Nesse modelo discursivo, conflitos complexos podem ser reorganizados em oposições simplificadas: **povo × elite; nacional × estrangeiro; conservador × progressista; ordem × ameaça; patriota × inimigo.** A consequência política desse tipo de estrutura discursiva é a possibilidade de transformar adversários políticos em inimigos morais. Nesse contexto, o discurso anticorrupção pode deixar de funcionar como instrumento universal de controle republicano e passar a ser utilizado seletivamente contra adversários. --- # 6 FUNDAMENTALISMO BOLSONARISTA O bolsonarismo também deve ser analisado como fenômeno político complexo, não sendo possível reduzir seus apoiadores a uma única característica. Entretanto, determinados discursos associados ao bolsonarismo apresentam forte oposição ao campo político identificado como esquerda, especialmente ao Partido dos Trabalhadores, ao mesmo tempo em que valorizam pautas conservadoras, segurança pública, liberalização econômica em determinados períodos e crítica às instituições consideradas integrantes do establishment. A questão central para este artigo é a **seletividade do discurso anticorrupção**. Quando a corrupção é apresentada como característica essencial de um único partido ou campo ideológico, produz-se uma redução do fenômeno. A corrupção pode ocorrer em governos de diferentes orientações ideológicas, em empresas privadas, em administrações municipais, estaduais e federais, em contratos públicos e em relações entre agentes públicos e privados. Portanto, a pergunta republicana não deveria ser: **“Qual partido é corrupto?”** Mas: **“Quais práticas produziram dano ao patrimônio público, quem participou delas, quais provas existem e quais instituições são responsáveis por investigá-las?”** Essa mudança desloca o debate da identidade política para a responsabilidade institucional. --- # 7 O CASO JEFFREY CHIQUINI: A CORRUPÇÃO COMO DISCURSO POLÍTICO O contexto eleitoral de 2026 oferece um caso contemporâneo para análise. Jeffrey Chiquini foi eleito deputado federal pelo Paraná nas eleições de 2026, obtendo 425.399 votos segundo a divulgação jornalística baseada na totalização eleitoral. O resultado também foi registrado pela cobertura da eleição como uma das maiores votações individuais para deputado federal no Estado. Após a eleição, Chiquini apresentou a reforma do sistema de Justiça como uma de suas principais pautas e utilizou expressões como “ditadura da toga” e “corrupção da esquerda” para caracterizar adversários e instituições, segundo a cobertura de suas declarações públicas. O discurso é particularmente relevante para esta pesquisa porque permite observar como a corrupção é enquadrada politicamente. A corrupção aparece associada principalmente à esquerda e ao Partido dos Trabalhadores, enquanto o campo político do próprio orador é apresentado como força de enfrentamento à corrupção. O problema científico não consiste em determinar, neste artigo, se essa representação é verdadeira ou falsa em termos absolutos. O problema consiste em analisar a **estrutura discursiva** que associa corrupção a um determinado adversário político e reserva para o próprio grupo a posição de agente moralmente responsável pela “libertação” do país. A pergunta crítica torna-se, portanto: **se a corrupção é realmente o problema central, por que o combate não deveria alcançar igualmente agentes de direita, centro, esquerda, setor empresarial e instituições estatais quando houver evidências de ilícitos?** A questão é fundamental para a democracia porque o princípio republicano exige que a investigação seja orientada por fatos, provas e normas jurídicas, e não pela identidade ideológica do investigado. --- # 8 METODOLOGIA A pesquisa caracteriza-se como **qualitativa, bibliográfica, documental, histórico-sociológica e analítico-crítica**. O procedimento metodológico foi organizado em quatro etapas. Primeiramente, realizou-se levantamento bibliográfico sobre capitalismo, acumulação primitiva, colonialismo, escravidão, dependência econômica e formação histórica das relações entre Estado e mercado. Em segundo lugar, foram examinadas interpretações historiográficas acerca da Guerra do Paraguai, especialmente aquelas relacionadas ao papel britânico, ao comércio internacional e aos diferentes projetos de desenvolvimento existentes na América do Sul. Em terceiro lugar, realizou-se análise conceitual das categorias “fundamentalismo capitalista”, “fundamentalismo trumpista” e “fundamentalismo bolsonarista”, utilizadas neste estudo como categorias interpretativas e não como classificações universais de todos os indivíduos vinculados a esses fenômenos. Por fim, realizou-se análise documental de declarações públicas de Jeffrey Chiquini divulgadas após as eleições de 2026, considerando o discurso sobre corrupção, esquerda, Poder Judiciário e reforma institucional. A análise segue princípios da análise crítica do discurso, buscando identificar categorias, oposições, atores políticos, mecanismos de legitimação e formas de construção do adversário. --- # 9 DEBATE E RESULTADOS Os resultados indicam que o discurso anticorrupção possui uma dimensão simultaneamente jurídica, moral e política. No plano jurídico, corrupção deve ser definida a partir de normas, condutas, provas e procedimentos institucionais. No plano político, entretanto, o termo frequentemente é utilizado como mecanismo de construção de identidade. A análise permite identificar três mecanismos recorrentes. ### 9.1 Personalização Problemas estruturais são frequentemente associados a indivíduos ou partidos específicos. ### 9.2 Polarização A sociedade é representada por meio da oposição entre um “povo honesto” e uma “elite corrupta”. ### 9.3 Seletividade Determinadas práticas são classificadas como corrupção quando praticadas por adversários, enquanto comportamentos semelhantes podem receber interpretações diferentes quando praticados por aliados. Essa última dimensão constitui o núcleo do problema apresentado no título. A pergunta “quando irão combater a corrupção da direita?” não significa afirmar que toda a direita seja corrupta. Da mesma forma, não seria cientificamente correto afirmar que toda a esquerda seja corrupta. O princípio analítico adequado é a **universalização do controle público**. Se uma prática é ilícita, deve ser investigada independentemente da ideologia de seu autor. Se determinada política pública beneficia grupos privados de maneira irregular, a investigação deve alcançar os responsáveis independentemente de sua orientação partidária. Se um governo de esquerda pratica corrupção, deve ser investigado. Se um governo de direita pratica corrupção, também deve ser investigado. Se uma empresa privada participa de um esquema de corrupção, igualmente deve ser investigada. É exatamente essa universalidade que transforma o combate à corrupção em princípio republicano, em vez de instrumento de guerra política. --- # 10 CONCLUSÃO A corrupção não possui ideologia partidária. Embora partidos e governos possam apresentar diferentes padrões de comportamento, a corrupção deve ser investigada com base em fatos, provas, legislação e instituições independentes. A história do capitalismo demonstra que as relações entre riqueza e poder são muito anteriores às disputas partidárias contemporâneas. Colonialismo, escravidão, concentração econômica, dependência, formação dos Estados e expansão do mercado constituem dimensões indispensáveis para compreender as estruturas históricas de poder. Do mesmo modo, a Guerra do Paraguai demonstra a necessidade de evitar explicações simplistas. A influência britânica constitui objeto legítimo de investigação histórica, mas a guerra resultou de uma combinação complexa de fatores regionais e internacionais. No século XXI, discursos trumpistas e bolsonaristas demonstram como a corrupção pode transformar-se em instrumento de polarização política. O estudo do discurso de Jeffrey Chiquini após sua eleição em 2026 permite observar essa dinâmica no contexto brasileiro contemporâneo. Suas declarações apresentam a reforma do Judiciário e o combate àquilo que identifica como “corrupção da esquerda” como elementos centrais de sua atuação política. Entretanto, uma democracia constitucional não pode depender de um combate seletivo à corrupção. A pergunta fundamental, portanto, não deveria ser apenas **“quando irão combater a corrupção da direita?”**, mas: **quando o combate à corrupção será efetivamente universal, alcançando esquerda, direita, centro, Estado, mercado e qualquer agente que utilize o poder público ou privado para obter vantagens ilícitas?** A resposta democrática exige instituições capazes de investigar aliados e adversários pelos mesmos critérios. Combater a corrupção não significa combater uma ideologia. Significa combater práticas ilícitas. --- # REFERÊNCIAS ALMEIDA, Ronaldo de. Bolsonaro presidente: conservadorismo, evangelismo e a crise brasileira. *Novos Estudos CEBRAP*, São Paulo, 2019. ANDERSON, Perry. *Balanço do neoliberalismo*. In: SADER, Emir; GENTILI, Pablo (org.). *Pós-neoliberalismo: as políticas sociais e o Estado democrático*. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995. BOURDIEU, Pierre. *O poder simbólico*. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001. 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Pluralismo político na democracia versus sistemas totalitários

A presente análise a relação entre pluralismo político, liberdade de expressão, identidade partidária e dissidência política a partir da utilização pública do gesto do “L”, associado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e de símbolos vinculados ao Partido dos Trabalhadores (PT) em território polonês. Parte-se da necessidade de distinguir a manifestação política democrática da propaganda de ideologias ou regimes totalitários proibidos pela legislação de determinados Estados. No ordenamento jurídico polonês, o art. 256 do Código Penal estabelece sanções para a propaganda pública de regimes ou ideologias nazistas, comunistas, fascistas ou de outros conteúdos expressamente abrangidos pela norma, bem como para determinadas formas de incitação ao ódio. No Brasil, em sentido diverso, a Constituição Federal de 1988 estabelece o pluralismo político como fundamento da República e assegura a liberdade de criação, fusão, incorporação e extinção de partidos políticos, desde que preservados o regime democrático e os direitos fundamentais. Nesse contexto, o artigo discute a experiência histórica do PT como espaço de convergência de diferentes correntes da esquerda brasileira e examina a posterior constituição de organizações políticas autônomas, entre elas PSTU, PCO, PSOL, Rede e UP. Sustenta-se que o pluralismo democrático pressupõe a possibilidade de dissidência, reorganização e criação de novos sujeitos coletivos, inclusive aqueles vinculados às pautas feministas, LGBTQIA+, indígenas, ambientais e populares. Palavras-chave: pluralismo político; liberdade de expressão; partidos políticos; Partido dos Trabalhadores; democracia; dissidência política. 1 INTRODUÇÃO A democracia não pode ser reduzida ao simples mecanismo eleitoral. Ela pressupõe a existência de condições institucionais e sociais que permitam a circulação de ideias, a organização coletiva, a manifestação pública de posições políticas e a formação de diferentes projetos de sociedade. Nesse sentido, o pluralismo político constitui elemento fundamental da experiência democrática contemporânea. No Brasil, a Constituição da República de 1988 estabelece expressamente o pluralismo político como um dos fundamentos da República Federativa do Brasil. O mesmo texto constitucional determina que todo poder emana do povo e reconhece a liberdade de organização partidária, estabelecendo que é livre a criação, fusão, incorporação e extinção de partidos políticos, desde que preservados a soberania nacional, o regime democrático, o pluripartidarismo e os direitos fundamentais da pessoa humana. Essa arquitetura constitucional permite compreender a democracia brasileira como um espaço de disputa permanente entre projetos políticos distintos. O partido político, nesse quadro, não constitui uma estrutura imutável. Ele é uma organização histórica, sujeita a disputas internas, divergências programáticas, reorganizações e processos de dissidência. A questão torna-se particularmente relevante quando se observa a circulação internacional de símbolos políticos. O gesto do “L”, associado à candidatura e à liderança política de Luiz Inácio Lula da Silva, ou a utilização de símbolos relacionados ao Partido dos Trabalhadores, podem ser interpretados de maneiras distintas conforme o ordenamento jurídico, a história política e o contexto social de cada país. A questão central deste artigo é, portanto: em que medida a manifestação pública de uma identidade política brasileira no exterior pode ser compreendida como exercício democrático de liberdade de expressão, e como essa questão se relaciona com a experiência brasileira de pluralismo partidário e dissidência política? 2 PLURALISMO POLÍTICO COMO FUNDAMENTO DEMOCRÁTICO O pluralismo político constitui uma das bases normativas da Constituição brasileira de 1988. Não se trata apenas da existência formal de diferentes partidos, mas da possibilidade de coexistência de diferentes concepções acerca da organização econômica, social, cultural e institucional da sociedade. A Constituição estabelece, no art. 1º, V, o pluralismo político como fundamento da República. O art. 17, por sua vez, assegura a liberdade de criação, fusão, incorporação e extinção de partidos políticos, submetendo essa liberdade à preservação do regime democrático e dos direitos fundamentais. Esse modelo pressupõe que a democracia não elimina o conflito político. Ao contrário, institucionaliza-o. O conflito entre diferentes projetos sociais deixa de ser necessariamente resolvido pela violência e passa a encontrar canais de expressão por meio das eleições, organizações partidárias, movimentos sociais, associações, sindicatos, universidades, meios de comunicação e demais espaços públicos. Dessa perspectiva, a democracia pluralista não exige uniformidade ideológica. Ela exige condições para que posições distintas possam existir e disputar legitimamente a esfera pública. 3 O PT E A EXPERIÊNCIA DA DIVERSIDADE INTERNA A história do Partido dos Trabalhadores está vinculada à formação de um amplo campo político e social durante o processo de redemocratização brasileira. O PT reuniu diferentes experiências provenientes do movimento sindical, das comunidades eclesiais de base, dos movimentos populares, de setores intelectuais, organizações de esquerda e movimentos sociais. A existência de diferentes tendências internas demonstra que um partido pode funcionar simultaneamente como espaço de convergência e de conflito político. A divergência interna, nesse sentido, não representa necessariamente fracasso democrático. Pode constituir mecanismo de elaboração política. Entretanto, a análise histórica exige cuidado para não transformar relações de origem, participação ou dissidência em uma genealogia institucional simplificada. Os partidos que posteriormente se constituíram fora do PT possuem histórias jurídicas e organizacionais próprias. O Tribunal Superior Eleitoral registra, por exemplo, o PSTU, fundado em 1995; o PCO, em 1997; o PSOL, em 2005; a REDE Sustentabilidade, em 2015; e a Unidade Popular (UP), em 2019. Assim, pode-se falar em processos de dissidência, circulação de militantes, disputas programáticas e reorganização do campo progressista, mas não simplesmente afirmar que todos esses partidos são “filhos do PT”. 4 DA DIVERGÊNCIA INTERNA À FORMAÇÃO DE NOVOS SUJEITOS POLÍTICOS A dissidência política é uma das manifestações concretas do pluralismo. Quando determinado grupo deixa uma organização para constituir outra, não necessariamente abandona os princípios democráticos compartilhados. Pode estar buscando outra forma de interpretá-los. A trajetória de organizações políticas brasileiras evidencia justamente a possibilidade de fragmentação e recomposição do campo político. O PSTU, por exemplo, constitui uma organização partidária própria; o PCO desenvolveu uma trajetória específica; o PSOL surgiu posteriormente como organização partidária autônoma; a REDE estruturou-se a partir de uma proposta política própria; e a UP também adquiriu registro partidário independente. O TSE reconhece formalmente essas organizações como partidos distintos. Essa dinâmica permite compreender o sistema partidário como um campo em permanente transformação. A democracia, portanto, não precisa produzir uma esquerda homogênea, uma direita homogênea ou um centro homogêneo. O pluralismo pode produzir múltiplas organizações, desde que estas respeitem as regras democráticas e os direitos fundamentais. 5 NOVAS IDENTIDADES POLÍTICAS: FEMINISMOS, MOVIMENTOS LGBTQIA+, POVOS INDÍGENAS E ECOLOGIA A expansão da democracia contemporânea também pode ser analisada a partir da emergência de sujeitos coletivos que reivindicam representação política específica. Nesse horizonte, é possível imaginar a formação de organizações partidárias ou movimentos políticos fortemente estruturados em torno de agendas feministas, LGBTQIA+, indígenas, ambientais, antirracistas, populares, trabalhistas ou territoriais. Isso não significa que tais grupos necessariamente devam transformar-se em partidos independentes. A representação pode ocorrer dentro de partidos existentes, por meio de tendências internas, movimentos sociais, frentes parlamentares ou novas organizações. Entretanto, a possibilidade de criação de novos partidos permanece teoricamente compatível com o princípio constitucional do pluralismo político, desde que respeitados os requisitos jurídicos aplicáveis. A própria Constituição brasileira afirma que é livre a criação, fusão, incorporação e extinção de partidos políticos, observadas as condições constitucionais. Assim, pode-se formular uma questão política fundamental: se novas identidades sociais adquirem consciência coletiva, organização e projeto político, por que a democracia não poderia produzir novas formas de representação? A resposta democrática não deve ser a proibição prévia da diferença, mas a criação de mecanismos institucionais capazes de organizar o conflito político sem convertê-lo em violência. 6 O GESTO DO “L” E OS LIMITES DA MANIFESTAÇÃO POLÍTICA NA POLÔNIA A comparação com a Polônia exige atenção ao contexto jurídico específico daquele país. O art. 256 do Código Penal polonês prevê punição para quem publicamente propaga regimes nazistas, comunistas, fascistas ou outros regimes totalitários, além de determinadas formas de propaganda ideológica e incitação ao ódio. Entretanto, a existência dessa norma não permite concluir automaticamente que qualquer manifestação política de esquerda, qualquer símbolo vermelho, qualquer estrela ou qualquer gesto associado a uma liderança estrangeira seja crime. A análise jurídica depende da interpretação da norma, do contexto, da finalidade da manifestação e da correspondência entre a conduta concreta e os elementos previstos no tipo penal. Desse modo, a utilização do gesto do “L” por brasileiros na Polônia não pode ser automaticamente equiparada à propaganda de um regime totalitário. O gesto, no contexto político brasileiro contemporâneo, possui significado associado à identificação com Lula e com determinado campo político. Da mesma forma, a presença de uma estrela associada ao PT não transforma automaticamente seu portador em propagandista de uma ideologia proibida pelo direito polonês. Essa distinção é fundamental para evitar uma conclusão juridicamente simplista: símbolo político não é sinônimo automático de ideologia juridicamente proibida. 7 DEMOCRACIA, SÍMBOLOS E DISPUTA PELO ESPAÇO PÚBLICO Os símbolos políticos cumprem função importante na construção da identidade coletiva. Bandeiras, cores, gestos, palavras de ordem, logotipos e imagens permitem que indivíduos expressem pertencimentos políticos sem necessariamente produzir discursos longos. O gesto do “L” constitui, nesse sentido, uma forma não verbal de comunicação política. Em sociedades democráticas, símbolos políticos podem provocar controvérsia, rejeição e disputa. O direito democrático, contudo, deve distinguir entre aquilo que é politicamente desagradável e aquilo que é juridicamente proibido. Essa distinção é essencial para preservar a liberdade de expressão. A democracia não protege somente manifestações consideradas consensuais. Sua função é também garantir espaço para manifestações controversas, minoritárias e dissidentes, dentro dos limites estabelecidos pela ordem constitucional. 8 PLURALISMO E DEMOCRACIA COMO PROCESSO ABERTO A experiência brasileira demonstra que partidos políticos não constituem estruturas eternas. Eles podem crescer, dividir-se, fundir-se, perder militantes, incorporar novos grupos ou produzir dissidências. O sistema partidário registrado pelo TSE atualmente reúne organizações com diferentes origens, programas e posições políticas, evidenciando a existência de um campo partidário plural. Essa característica permite pensar a democracia como um processo aberto, no qual novos sujeitos políticos podem emergir. Nesse sentido, não seria conceitualmente absurdo imaginar, no futuro, partidos ou organizações políticas fortemente identificados com movimentos feministas, indígenas, LGBTQIA+, ambientais ou outras formas de identidade coletiva. A questão central não é impedir que essas identidades ingressem na política, mas assegurar que sua participação ocorra dentro das regras democráticas, garantindo direitos iguais aos demais sujeitos políticos. 9 CONSIDERAÇÕES FINAIS A análise permite concluir que o pluralismo político constitui elemento estruturante da democracia brasileira. A Constituição Federal de 1988 não apenas reconhece o pluralismo como fundamento da República, mas estabelece expressamente a liberdade de criação, fusão, incorporação e extinção de partidos políticos. A experiência histórica do campo progressista brasileiro demonstra que divergências internas podem produzir reorganizações, dissidências e novas organizações políticas. PSTU, PCO, PSOL, REDE e UP possuem trajetórias partidárias próprias e estão formalmente registrados pelo Tribunal Superior Eleitoral. A partir dessa perspectiva, a utilização do gesto do “L” ou de símbolos relacionados ao PT por brasileiros no exterior deve ser analisada considerando-se o contexto concreto e o ordenamento jurídico do país em que ocorre. No caso polonês, o art. 256 do Código Penal estabelece limites específicos relacionados à propaganda de determinadas ideologias e regimes totalitários, mas sua existência não permite afirmar que qualquer manifestação política de esquerda ou qualquer símbolo partidário brasileiro seja automaticamente ilícito. Por fim, a própria lógica democrática permite formular uma hipótese para o futuro: novos sujeitos sociais podem transformar-se em sujeitos políticos organizados. Partidos feministas, indígenas, LGBTQIA+, ecologistas, antirracistas ou outras organizações de caráter progressista poderiam surgir caso seus integrantes construam identidade coletiva, programa político, organização nacional e cumpram os requisitos legais. A democracia, portanto, não deve ser compreendida como um sistema destinado a preservar eternamente as mesmas organizações políticas. Seu caráter democrático reside precisamente na possibilidade de transformação, dissidência, reorganização e emergência de novos sujeitos coletivos. O pluralismo político não significa apenas aceitar aqueles que já possuem voz. Significa também preservar as condições para que novas vozes possam conquistar espaço público, organizar-se politicamente e disputar democraticamente os rumos da sociedade. REFERÊNCIAS BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988. Disponível em: Planalto – Constituição Federal. Acesso em: 5 out. 2026. TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL (Brasil). Partidos políticos registrados no TSE. Brasília, DF: TSE, 2026. Disponível em: TSE – Partidos políticos registrados. Acesso em: 5 out. 2026. POLSKA. Kodeks karny – art. 256. Warszawa: Sejm Rzeczypospolitej Polskiej. Disponível em: Sejm – Código Penal polonês. Acesso em: 5 out. 2026. BOBBIO, Norberto. O futuro da democracia: uma defesa das regras do jogo. 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quinta-feira, 16 de julho de 2026

Perspectivas de Poder em Angola: Continuidade, Competição Política e Desafios Institucionais no Horizonte Eleitoral de 2027

A presente análise as perspectivas de poder em Angola diante do processo eleitoral previsto para 2027. A pesquisa fundamenta-se em revisão bibliográfica e análise histórico-institucional do sistema político angolano, considerando a trajetória do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), no poder desde a independência em 1975, e o fortalecimento da União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA) como principal força de oposição. O estudo discute os desafios relacionados à consolidação democrática, à alternância de poder, à governança, ao desenvolvimento econômico e à confiança nas instituições. Conclui-se que o futuro político angolano dependerá da capacidade das instituições garantirem um processo eleitoral competitivo, transparente e amplamente legitimado pela sociedade, independentemente do partido vencedor. � Le Monde.fr · 1 Palavras-chave: Angola; democracia; eleições; governança; instituições políticas; MPLA; UNITA. 1. Introdução Desde a independência, em 1975, Angola é governada pelo MPLA, configurando um dos mais longos períodos de permanência de um mesmo partido no poder no continente africano. Nas últimas eleições observou-se maior competitividade política, indicando mudanças graduais no comportamento do eleitorado, especialmente entre os jovens urbanos. Ao mesmo tempo, o partido governante mantém forte organização institucional e prepara sua estrutura para as eleições de 2027. Angola vive um momento decisivo em sua trajetória política, marcado pela aproximação das eleições gerais de 2027. Desde a independência, em 1975, o MPLA permanece no governo, constituindo um dos períodos mais longos de permanência de um mesmo partido no poder na África. Ao longo desse período, o país alcançou avanços na reconstrução nacional após a guerra civil, mas também enfrenta desafios relacionados à diversificação econômica, à redução das desigualdades sociais e ao fortalecimento das instituições democráticas. A UNITA consolidou-se como a principal força de oposição e ampliou sua representação nas eleições de 2022, tornando o ambiente político mais competitivo. As perspectivas para 2027 dependerão da confiança da população nas instituições, da transparência do processo eleitoral, da participação dos eleitores e da capacidade dos partidos em apresentar propostas para os problemas sociais e econômicos. Independentemente do resultado, a estabilidade política, o respeito ao Estado de Direito, a alternância democrática quando escolhida pelos eleitores e o fortalecimento das instituições públicas serão fatores essenciais para o desenvolvimento sustentável de Angola e para a consolidação de sua democracia. 2. MPLA ou UNITA? A permanência prolongada de um partido no governo produz simultaneamente estabilidade institucional e questionamentos sobre alternância democrática. O sistema político angolano enfrenta desafios relacionados à diversificação econômica, redução das desigualdades sociais, fortalecimento do Estado de Direito, combate à corrupção e ampliação da confiança pública nas instituições. � Le Monde.fr O MPLA destaca como prioridades para 2026 o fortalecimento da organização partidária e a preparação para as eleições gerais de 2027. Paralelamente, a UNITA busca ampliar sua base eleitoral e consolidar-se como alternativa de governo após o desempenho competitivo nas eleições de 2022. � MPLA · 1 Nesse contexto, podem ser considerados diferentes cenários analíticos: continuidade do governo do MPLA; vitória da oposição; formação de um cenário eleitoral altamente competitivo; necessidade de fortalecimento dos mecanismos de transparência e confiança institucional. Esses cenários dependem de fatores econômicos, sociais, institucionais e políticos, não sendo possível prever com segurança o resultado eleitoral. 3. Considerações Finais As perspectivas de poder em Angola revelam um momento de transição política relevante. A consolidação democrática não depende apenas da realização periódica de eleições, mas também da credibilidade das instituições, da participação cidadã, do respeito ao pluralismo político e da efetividade das políticas públicas. O fortalecimento institucional constitui elemento essencial para a estabilidade política, o desenvolvimento sustentável e a legitimidade do sistema democrático angolano. Referências DAHL, Robert A. Poliarquia: participação e oposição. São Paulo: EdUSP. HUNTINGTON, Samuel P. A terceira onda: democratização no final do século XX. São Paulo: Ática. NORTH, Douglass C. Instituições, mudança institucional e desempenho econômico. São Paulo: Três Estrelas. ACEMOGLU, Daron; ROBINSON, James A. Por que as nações fracassam. Rio de Janeiro: Elsevier.

quinta-feira, 9 de julho de 2026

A FORMAÇÃO TERRITORIAL DA AMÉRICA LATINA E OS DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS DA CIDADANIA: UMA ANÁLISE GEOPOLÍTICA À LUZ DO CURRÍCULO BASE DO TERRITÓRIO CATARINENSE


A presente análise os processos de formação política, econômica e territorial da América Latina, investigando as históricas heranças estruturais que condicionam os limites da democracia e da cidadania na contemporaneidade regional. Alinhado às diretrizes conceituais do Currículo Base do Território Catarinense (CBTC) para o componente curricular de Geografia no Ensino Fundamental, o estudo adota uma abordagem metodológica crítico-analítica de cunho bibliográfico e documental. Examina-se o nexo causal entre a economia espoliativa colonial — calcada no binômio mineração-latifúndio — e a crônica vulnerabilidade das instituições democráticas republicanas, submetidas a ciclos de rupturas civis-militares no século XX. Os resultados apontam que, conquanto persistam profundas fraturas socioespaciais e dependências econômicas atreladas à exportação de commodities, a emergência de movimentos camponeses e originários delineia novas territorialidades de resistência e possibilidades de emancipação cidadã, repercutindo inclusive nas dinâmicas migratórias que reconfiguram o espaço geográfico local de Santa Catarina.

Palavras-chave: Formação Territorial; América Latina; Cidadania; Currículo Base de Santa Catarina; Geografia Crítica.

1. INTRODUÇÃO

A compreensão do espaço geográfico latino-americano na contemporaneidade pressupõe um exercício de regressão histórica capaz de decifrar as marcas impressas na organização territorial pelo processo de colonização ibérica. No escopo do Currículo Base do Território Catarinense (CBTC), a abordagem da habilidade EF08GE05 exige do pesquisador e do educador uma superação da Geografia meramente descritiva, avançando rumo a uma leitura crítica das estruturas que perpetuam a desigualdade social e as assimetrias de poder na periferia do capitalismo global.

A hipótese central que norteia esta investigação reside no fato de que os desafios atuais para a consolidação de democracias plenas e o exercício efetivo da cidadania na América Latina não constituem disfunções conjunturais, mas sim desdobramentos lógicos de um território originalmente estruturado "para fora", isto é, voltado ao atendimento das demandas mercantis das metrópoles europeias. Nesse sentido, este artigo propõe analisar a gênese dessa formação político-econômica, debater as rupturas institucionais que fragilizaram o tecido democrático continental e apontar as janelas de possibilidades abertas pela atuação da sociedade civil organizada.

2. A HERANÇA COLONIAL: EXTRAÇÃO, LATIFÚNDIO E FRAGMENTAÇÃO

A inserção da América Latina no sistema-mundo colonial estabeleceu as bases da Divisão Internacional do Trabalho, delegando à região o papel de provedora de recursos naturais e bens primários. A arquitetura territorial baseou-se em enclaves exportadores controlados por elites agrárias e mineradoras locais subordinadas à Coroa espanhola e portuguesa. O modo de produção fundado no latifúndio monocultor e na exploração do trabalho compulsório e escravizado legou ao continente uma das maiores concentrações fundiárias do globo.

Um aspecto crucial na diferenciação geopolítica regional reside no contraste entre o processo de independência da América Espanhola e o da América Portuguesa. Enquanto o território luso-americano manteve sua unidade política sob a égide de um regime monárquico centralizado, o império espanhol fragmentou-se em uma multiplicidade de repúblicas soberanas, fenômeno amplamente catalisado pelos interesses das oligarquias regionais (*caudilhismos*) e pelas pressões das potências imperialistas em ascensão, como a Grã-Bretanha e os Estados Unidos.

3. O SÉCULO XX E AS RUPTURAS DEMOCRÁTICAS: DITADURAS CIVIS-MILITARES

A transição para o século XX não rompeu substancialmente com a dependência econômica agroexportadora, a qual foi posteriormente reconfigurada pelo modelo de substituição de importações e pela inserção das indústrias transnacionais. Contudo, a crônica desigualdade socioespacial gerou tensões latentes que culminaram, na segunda metade do século, em profundas crises políticas. No contexto da Guerra Fria, a América Latina tornou-se palco de uma série de golpes de Estado e regimes ditatoriais civis-militares.

Esses regimes autocráticos justificavam-se sob a doutrina da segurança nacional, promovendo o cerceamento de direitos políticos, a perseguição a movimentos sindicais e camponeses, e o aprofundamento do endividamento externo. A interrupção dos canais democráticos sufocou a cidadania e consolidou o uso do aparelho estatal para a preservação de privilégios econômicos oligárquicos, deixando sequelas institucionais que dificultam a governabilidade e a justiça social até os dias correntes.

4. DESAFIOS E POSSIBILIDADES PARA A CIDADANIA NA CONTEMPORANEIDADE

Na atualidade, os países latino-americanos enfrentam o desafio de conciliar a estabilidade macroeconômica com a garantia de direitos civis, políticos e sociais. A persistência da corrupção estrutural, a violência urbana e a criminalidade transnacional figuram como graves óbices ao pleno exercício da cidadania. Paralelamente, a reprimarização da economia — focada na exportação em larga escala de *commodities* agrícolas e minerais — renova a vulnerabilidade externa e os conflitos socioambientais nos territórios.

A cidadania na América Latina constitui um campo de forças permanentemente em disputa. Se por um lado as estruturas institucionais se mostram historicamente impermeáveis às demandas das classes subalternas, por outro, a densidade alcançada pelos movimentos sociais nas últimas décadas reposiciona os sujeitos periféricos como protagonistas da produção do espaço e da refundação democrática.

Abaixo, a Tabela 1 sintetiza as principais variáveis que operam no cenário geopolítico e social da região, conforme preconizado pelas diretrizes de análise do Currículo Catarinense:

Dimensão Analítica

Desafios Estruturais

Possibilidades Emergentes

 

Política e Institucional

Frágil governabilidade; corrupção sistêmica; heranças institucionais de regimes autoritários.

Mecanismos de participação direta; transparência governamental; fortalecimento do terceiro setor.

Econômica e Territorial

Concentração de terras (latifúndios); dependência crônica de commodities; exclusão socioespacial.

Modelos de agroecologia; cooperativismo agrário; integração econômica regional (Mercosul).

Social e Cultural

Marginalização de minorias; racismo estrutural; migrações forçadas por crises socioeconômicas.

Protagonismo de movimentos indígenas e camponeses; legislações de proteção às comunidades tradicionais.


É importante ressaltar que a instabilidade político-econômica vivenciada por diversas repúblicas latino-americanas reflete diretamente nas escalas locais. O estado de Santa Catarina, por exemplo, tem se consolidado como polo de atração de fluxos migratórios contemporâneos vindos do Haiti, da Venezuela e da Bolívia. Esse fenômeno demográfico impõe às redes municipais catarinenses a necessidade de formular políticas de acolhimento e inserção laboral, convertendo a escala local em um reflexo direto das contradições e laços da geopolítica continental.

5. CONCLUSÃO

A análise dos processos de formação da América Latina revela que o território é um reflexo dinâmico de lutas sociais e escolhas políticas acumuladas secularmente. Os desafios que obstaculizam a cidadania e ameaçam a estabilidade democrática na região demandam reformas estruturais profundas, com destaque para a democratização do acesso à terra, a superação da dependência primário-exportadora e o fortalecimento dos canais de participação popular.

Para o campo da educação geográfica, conforme balizado pelo Currículo Base do Território Catarinense, compreender essas dinâmicas confere aos estudantes as ferramentas intelectuais necessárias para exercer a leitura crítica do mundo. Ao conectar o passado colonial aos fenômenos migratórios que batem às portas das comunidades catarinenses, a Geografia cumpre sua função social de formar cidadãos conscientes, solidários e comprometidos com a defesa dos valores democráticos e dos direitos humanos no continente.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2018.

SANTA CATARINA. Secretaria de Estado da Educação. Currículo Base do Território Catarinense. Florianópolis: SED/UNDIME-SC, 2019.

SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço: Técnica e Tempo, Razão e Emoção. 4. ed. São Paulo: Edusp, 2006.

SOUZA, Maria Adélia de. O espaço da cidadania. São Paulo: Contexto, 2011.


DINÂMICAS TERRITORIAIS E DESIGUALDADE URBANA: UMA ANÁLISE COMPARATIVA ENTRE AS MACRORREGIÕES SUDESTE E SUL A PARTIR DA GEOGRAFIA ESCOLAR

A presente análise as dinâmicas geográficas das regiões brasileiras, estabelecendo um foco interpretativo e comparativo entre as macrorregiões Sudeste e Sul. O objetivo central consiste em correlacionar a compartimentação físico-natural dos domínios morfoclimáticos aos impactos socioeconômicos dos processos de industrialização, metropolização e fluxos migratórios. Utilizando a abordagem metodológica da geografia crítica e a análise multiescalar preconizada pelo Currículo Base do Território Catarinense (CBTC), discute-se como o adensamento demográfico acelerado e a macrocefalia urbana produzem profundas contradições socioespaciais nas grandes metrópoles. Os resultados demonstram que, enquanto o Sudeste se consolidou como o centro de comando financeiro e industrial do país sob o domínio dos mares de morros e clima tropical, o Sul apresenta uma organização ligada ao clima subtropical e à estrutura do Planalto Meridional. Conclui-se que o estudo comparativo dessas realidades, mediado pelo debate sobre cidadania e pela proposição de atitudes ecológicas no cotidiano escolar, constitui-se como ferramenta indispensável para o fortalecimento da participação democrática e para a construção de espaços urbanos mais justos e sustentáveis.

Palavras-chave: Região Sudeste. Região Sul. Metropolização. Cidadania. Geografia Escolar.

1. INTRODUÇÃO

A análise regional na ciência geográfica contemporânea supera a mera descrição de atributos físicos ou humanos para consolidar-se como o estudo das interações dialéticas entre a sociedade e a natureza na produção do espaço geográfico. No âmbito do Ensino Fundamental, especificamente no 7º Ano, a categorização das macrorregiões brasileiras oferece uma oportunidade metodológica ímpar para que o estudante interprete como as heranças naturais e as forças econômicas moldam as paisagens e as relações sociais no território nacional.

Historicamente, a Região Sudeste assumiu o papel de núcleo dinâmico do capitalismo brasileiro, concentrando a maior parcela da produção industrial, dos fluxos de capitais e dos serviços avançados do país. Esse processo de hipertrofia econômica atuou como um poderoso vetor de atração populacional, desencadeando fluxos migratórios inter-regionais massivos e um crescimento urbano acelerado que culminou no fenômeno da metropolização e da conurbação. Contudo, essa rápida transformação territorial ocorreu de forma excludente, gerando severas contradições socioespaciais, tais como a segregação residencial, deficits crônicos de saneamento básico e problemas de mobilidade urbana.

Diante desse cenário, o presente artigo propõe uma reflexão espacializada que contrasta as dinâmicas urbano-industriais e físico-naturais do Sudeste com a realidade da Região Sul. A partir desse exercício comparativo de escala regional, busca-se instrumentalizar o debate sobre o direito à cidade e a governança participativa, demonstrando que o conhecimento geográfico é indissociável do exercício da cidadania e do fortalecimento dos valores democráticos nos espaços urbanos e escolares.


2. COMPARTIMENTAÇÃO FISCO-NATURAL: O CONFRONTO MORFOCLIMÁTICO SUDESTE E SUL

A organização do espaço geográfico guarda estreita relação com os componentes biofísicos que dão suporte às atividades humanas. As macrorregiões Sudeste e Sul do Brasil apresentam quadros naturais distintos que influenciaram diretamente os padrões de ocupação e os modelos de desenvolvimento econômico adotados ao longo do tempo.

A Região Sudeste caracteriza-se pelo predomínio do domínio morfoclimático dos Mares de Morros, uma estrutura geológica predominantemente cristalina esculpida por processos de intemperismo químico que geraram formas de relevo mamelonares (colinas suavemente arredondadas). Essa compartimentação topográfica, associada às escarpas imponentes da Serra do Mar e da Mantiqueira, atua de forma decisiva na regulação do clima tropical e tropical de altitude, definindo regimes de chuvas orográficas concentradas que historicamente sustentaram a exuberância da biodiversidade da Mata Atlântica.

Em contraposição, a Região Sul exibe uma transição físico-natural marcada pela influência do Planalto Meridional e por relevos de planícies e coxilhas no extremo meridional. Sob a regência do clima subtropical, caracterizado pela alta amplitude térmica anual e por precipitações bem distribuídas, o Sul abriga formações fitogeográficas específicas, como a Mata de Araucárias e os Campos Sulinos. Compreender essas assimetrias na dinâmica de relevo, clima e vegetação é fundamental para diagnosticar a vulnerabilidade ambiental de cada território frente à pressão antrópica, evidenciando que a conservação do solo e a proteção das bacias hidrográficas exigem estratégias diferenciadas de planejamento e manejo em cada porção macroeconômica do país.


3. DINÂMICA POPULACIONAL, METROPOLIZAÇÃO E AS CONTRADIÇÕES SOCIOESPACIAIS

O processo de industrialização e a consequente modernização agrícola ocorridos com maior intensidade a partir de meados do século XX consolidaram o Sudeste como o polo de atração dos principais fluxos migratórios do Brasil. O êxodo rural e as migrações inter-regionais direcionadas a cidades como São Paulo e Rio de Janeiro reconfiguraram rapidamente o perfil demográfico nacional, transformando o Sudeste na região mais densamente povoada e urbanizada do território.

Essa rápida concentração populacional estimulou a formação de gigantescas regiões metropolitanas. No entanto, a velocidade da metropolização superou a capacidade de planejamento do Estado e a oferta de infraestrutura urbana básica, resultando em um processo de macrocefalia urbana e segregação socioespacial. A especulação imobiliária empurrou as populações de menor renda para as periferias distantes ou para áreas de risco geomorfológico, como as encostas íngremes de morros e as várzeas sujeitas a inundações, onde a ausência de saneamento básico, coleta de resíduos e moradia digna expõe os cidadãos a constantes riscos ambientais e de saúde pública.

Embora a Região Sul apresente índices de urbanização elevados e dinâmicas de metropolização expressivas em suas capitais, sua organização em rede urbana tendeu a uma distribuição ligeiramente mais equilibrada em polos regionais de médio porte. Contudo, ambas as regiões enfrentam o desafio comum de gerenciar seus passivos ambientais urbanos e reverter a lógica da exclusão espacial. A análise geográfica dessas contradições demonstra que os problemas da cidade — sejam de mobilidade, habitação ou poluição — afetam os indivíduos de forma profundamente desigual, exigindo uma leitura crítica que interligue as dinâmicas da economia à produção do espaço habitado.


4. DEMOCRACIA, CIDADANIA E A TRANSIÇÃO ECOLÓGICA NO ESPAÇO URBANO

A superação das crises ambientais e das desigualdades que se manifestam nas cidades brasileiras requer uma mudança estrutural nas formas de gerir o território, pautada na participação popular e no fortalecimento das instituições democráticas. Conhecer a geografia e a organização das regiões não deve se limitar a um exercício de memorização cartográfica, mas sim converter-se em um ato político de compreensão dos direitos e deveres associados ao espaço habitado.

No contexto do espaço urbano, a cidadania ambiental se exerce por meio do controle social e do engajamento coletivo nos canais de planejamento local, como os Planos Diretores Municipais, as audiências públicas e os conselhos de meio ambiente. É nesses espaços deliberativos que a sociedade civil pode e deve tensionar o poder público para que as políticas de mobilidade urbana, saneamento e habitação atendam ao interesse coletivo e promovam a justiça socioambiental.

Na escala da geografia escolar, essa prática democrática se materializa quando os estudantes são estimulados a diagnosticar os problemas reais de suas comunidades e a propor intervenções concretas. A introdução de atitudes ecológicas diárias no ambiente escolar e doméstico — como a economia e o reúso de recursos hídricos, a implantação de compostagem orgânica com sobras da cozinha, o cultivo de árvores frutíferas nativas da Mata Atlântica e a busca por soluções que desviem resíduos sólidos dos aterros sanitários — funciona como um laboratório prático de sustentabilidade. Ao agirem ativamente sobre o microespaço, os estudantes compreendem a complexidade da governança ambiental e se preparam para exercer o protagonismo cidadão, conectando os grandes conceitos da escala macrorregional às práticas cotidianas que fortalecem a democracia e transformam o meio ambiente.


5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O estudo comparado entre as regiões Sudeste e Sul revela que as paisagens geográficas são construções históricas contínuas, onde os elementos da natureza e as ações humanas se entrelaçam de maneira indissociável. A concentração econômico-industrial do Sudeste gerou um espaço de imenso dinamismo, mas também legou às suas metrópoles profundas fraturas sociais e ambientais que desafiam o planejamento urbano contemporâneo.

A contextualização dessas realidades no ensino de Geografia demonstra que a busca por cidades justas e sustentáveis depende da articulação entre o conhecimento técnico-científico e a ação política democrática. O papel da escola consolida-se, portanto, ao transformar debates conceituais sobre metropolização, clima ou relevo em ferramentas de leitura crítica do mundo e de mobilização social. Ao associar o aprendizado das macrorregiões ao desenvolvimento de atitudes ecológicas e solidárias, estimula-se a formação de cidadãos conscientes e ativos, capazes de propor soluções para o seu território e de atuar como sujeitos históricos na construção de uma sociedade democraticamente integrada e ambientalmente responsável.


REFERÊNCIAS

SANTA CATARINA. Gabinete de Planejamento e Coordenação Geral. Atlas de Santa Catarina. Florianópolis: GAPLAN, 1986. 3 v.

SÃO FRANCISCO DO SUL. Prefeitura Municipal. Plano Diretor de Desenvolvimento Territorial de São Francisco do Sul. São Francisco do Sul: Secretaria de Meio Ambiente, 2019.

SENE, Eustáquio de; MOREIRA, João Carlos. Geografia Sapiens: Ensino Fundamental – Anos Finais. 1. ed. São Paulo: Ática, 2022. v. 6 (Coleção Sapiens Jovem).

TOMAZZELLI, Luiz José. O Cenário Geológico do Litoral Norte de Santa Catarina: Geomorfologia e dinâmicas de vertentes. 2. ed. Florianópolis: Editora da UFSC, 2015.

OS DOMÍNIOS Morfoclimáticos Brasileiros. In: Geografia Irada. Florianópolis, 18 jun. 2020. 1 vídeo (13 min 54 s). Publicado pelo canal Geografia Irada com o Prof. Marcelo. Apresenta a síntese da integração entre relevo, clima e vegetação em escala nacional. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=gTInXitVntM . Acesso em: 9 jul. 2026.

A MATA Atlântica e os Mares de Morros. In: Nossa Ecologia. São Paulo, 10 mar. 2022. 1 vídeo (8 min 15 s). Publicado pelo canal Nossa Ecologia Oficial. Analisa as dinâmicas físicas da Serra do Mar e a vegetação florestal. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=FjR35T9AunU . Acesso em: 9 jul. 2026.

CAATINGA: o bioma exclusivamente brasileiro. In: Biomas do Brasil. Brasília: Canal Futura, 14 set. 2021. 1 vídeo (10 min 22 s). Publicado pelo canal Canal Futura. Explica a relação entre a escassez de precipitação, o relevo de depressões e as adaptações da vegetação xerófila. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=vVjXzH90qXQ . Acesso em: 9 jul. 2026.

AMAZÔNIA: Clima equatorial e a floresta de terra firme. In: Conexão Planeta. Manaus, 22 nov. 2023. 1 vídeo (11 min 40 s). Publicado pelo canal Conexão Planeta Docs. Mostra como os rios voadores e a planície amazônica sustentam a maior biodiversidade do planeta. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Y8k_9OqUUX4 . Acesso em: 9 jul. 2026.

CERRADO: a caixa d'água do Brasil e o relevo de chapadas. In: Mundo Geográfico. Goiânia, 5 jan. 2024. 1 vídeo (9 min 30 s). Publicado pelo canal Mundo Geográfico Audiovisual. Aborda o clima tropical sazonal, o solo ácido e o papel do relevo plano na expansão da fronteira agrícola. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=bXN4D3v5MvE . Acesso em: 9 jul. 2026.