domingo, 1 de fevereiro de 2026

Gênesis Científico

 Este texto tem como objetivo unir fundamentos bíblicos e ciência como inspiração divina do conhecimento sobre a origem da vida e da Terra.

A Bíblia não é um livro de física, nem de astronomia, nem de biologia. É um livro religioso escrito por povos da Antiguidade que não conheciam Big Bang, gravidade, evolução ou idade do Universo. Quando Gênesis diz que Deus criou o mundo em seis dias, isso é linguagem simbólica e teológica, não um relatório científico. 

O Sol não foi criado depois da Terra, como o texto afirma literalmente. As estrelas não são “luminárias” colocadas no céu para enfeitar a noite. A Terra não tem firmamento sólido, não há águas فوق do céu, não existe “fundamento da Terra” físico. 

O planeta não está parado, ele gira a 1.670 km/h e orbita o Sol a 107 mil km/h. A vida não surgiu pronta, ela evoluiu por bilhões de anos. Adão não foi feito de barro literal, o ser humano surgiu de processos biológicos. 

O dilúvio global nunca existiu. Não há evidência científica de Noé, arca, torre de Babel ou criação recente. Ler a Bíblia literalmente como ciência é transformar fé em negacionismo e religião em erro histórico. A verdade sobre o Universo está na observação, na matemática e na experimentação, não em mitos do Oriente Antigo.


1. No princípio, não havia espaço nem tempo, e todas as possibilidades estavam contidas em uma singularidade.

2. E dessa densidade infinita emergiu a expansão, e a expansão foi chamada Universo.

3. E o Universo se dilatava, e a energia se fez matéria, e a matéria se organizou segundo leis.

4. E surgiram os campos e as forças: a gravidade, o eletromagnetismo, a força forte e a força fraca, e elas sustentaram tudo o que existe.

5. E o plasma primordial esfriou, e os quarks se uniram, e formaram prótons e nêutrons.

6. E os átomos nasceram, e a luz pôde viajar livremente, e assim surgiram as primeiras estrelas.

7. E nas estrelas, o hidrogênio foi transmutado em elementos mais pesados, e o ferro, o carbono e o oxigênio foram forjados no coração do fogo.

8. E quando as estrelas morreram, explodiram, e espalharam seus elementos pelo espaço.

9. E desses restos, formaram-se novos sistemas, e entre eles um pequeno planeta em torno de uma estrela comum.

10. E esse planeta foi chamado Terra, e tinha mares líquidos, atmosfera e campos magnéticos que a protegiam.

11. E na Terra, as moléculas se organizaram, e a química tornou-se biologia.

12. E surgiu a vida, primeiro simples, depois complexa, e multiplicou-se por seleção natural.

13. E a consciência emergiu do cérebro, e o ser humano contemplou o Universo, e perguntou por sua origem.

14. E então a própria matéria tornou-se capaz de refletir sobre si mesma.

15. E isso foi chamado pensamento, ciência e espírito.



Interpretação filosófico-científica

O texto mantém a estrutura narrativa do Gênesis, mas substitui:

Criação instantânea → Big Bang

“Faça-se” → leis físicas

Poeira → elementos químicos

Sopro divino → emergência da consciência

Aqui, Deus não é um artesão que molda objetos, mas a ordem racional que sustenta as leis do cosmos, o que se aproxima tanto do Deus de Espinosa, quanto do Princípio Inteligente do Espiritismo e da ordem matemática da física moderna.


A Estrutura da Terra e dos Céus segundo a Ciência

Do ponto de vista científico, os fenômenos descritos nos textos antigos sobre “céus”, “firmamento” e “fundamentos da Terra” podem ser compreendidos como interpretações simbólicas de fenômenos naturais observáveis. A Terra é um planeta aproximadamente esférico, com raio médio de 6.371 km, mantido em equilíbrio gravitacional pela própria massa e pela interação com outros corpos celestes, especialmente o Sol e a Lua.

O que as antigas culturas chamavam de “firmamento” corresponde hoje ao conceito de atmosfera, uma camada gasosa composta principalmente por nitrogênio (78%) e oxigênio (21%), responsável por permitir a vida, regular a temperatura e possibilitar fenômenos como nuvens, ventos e precipitação. Acima da atmosfera está o espaço sideral, onde se encontram os astros visíveis, como estrelas, planetas e galáxias.

A ideia de “três céus” pode ser reinterpretada cientificamente como:

(1) a troposfera, onde ocorrem os fenômenos meteorológicos e voam as aves;

(2) o espaço astronômico, onde estão os corpos celestes;

(3) e, em sentido não físico, uma dimensão espiritual ou simbólica, pertencente ao campo da metafísica e da religião.

A Terra permanece “firme” não por estar apoiada em fundamentos materiais, mas porque se encontra em equilíbrio dinâmico, resultado da gravidade, da rotação e das forças internas do planeta. Os mares possuem limites naturais definidos pela gravidade, topografia e tectônica de placas, que controlam o relevo, o nível dos oceanos e a distribuição dos continentes.

Assim, os textos antigos descrevem corretamente a ordem percebida da natureza, porém em linguagem simbólica e cosmológica própria de seu tempo, enquanto a ciência moderna explica os mesmos fenômenos por meio de leis físicas, modelos matemáticos e observações empíricas.


Conclusão

A ciência não destrói o sentido bíblico da criação; ela o retraduz em outra linguagem. O mito responde ao “por quê existimos”, enquanto a ciência responde ao “como existimos”. 

Quando lidos corretamente, Gênesis e cosmologia não são inimigos: são dois modos simbólicos de narrar o mesmo mistério — a emergência do ser a partir do nada compreensível.


Bibliografias 

HAWKING, Stephen. Uma breve história do tempo. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2015.

SMOLIN, Lee. A vida do cosmos. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

CARROLL, Sean. The Big Picture: On the Origins of Life, Meaning, and the Universe Itself. New York: Dutton, 2016.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 76. ed. Brasília: FEB, 2013.

DARWIN, Charles. A origem das espécies. São Paulo: Martin Claret, 2014.

GLEISER, Marcelo. A dança do universo: dos mitos da criação ao Big Bang. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.




Em termos conceituais, esse texto faz exatamente o que você costuma defender:

Mostra que a Bíblia é um texto simbólico-mitológico, e que a ciência é a narrativa real da gênese do mundo, mas sem perder a dimensão filosófica do mistério.










sábado, 31 de janeiro de 2026

A EXPRESSÃO “FACE DA TERRA” NA BÍBLIA: UMA ANÁLISE HERMENÊUTICA, LINGUÍSTICA E HISTÓRICO-CULTURAL

A presente análise sobre a expressão “face da Terra” presente em diversos textos bíblicos do Antigo e Novo Testamento, frequentemente utilizada em debates contemporâneos sobre cosmologia bíblica, especialmente por correntes literalistas e terraplanistas. A pesquisa adota o método hermenêutico crítico, considerando os aspectos linguísticos, os gêneros literários e o contexto histórico-cultural das Escrituras. Demonstra-se que a expressão não possui caráter cosmológico ou geométrico, mas constitui um idiomatismo semítico que designa a totalidade da superfície habitada, sendo utilizada como recurso poético, narrativo e teológico. Conclui-se que a Bíblia não propõe um modelo físico do planeta, mas comunica mensagens espirituais por meio de linguagem fenomenológica e simbólica.

Palavras-chave

Hermenêutica bíblica; Face da Terra; Cosmologia bíblica; Literalismo; Exegese.


1. Introdução

A expressão “face da Terra” aparece recorrentemente nas Escrituras, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, sendo interpretada por alguns grupos religiosos como evidência de uma Terra plana. Tal leitura, contudo, ignora princípios básicos da hermenêutica bíblica e da linguística semítica.

O objetivo deste estudo é analisar criticamente essa expressão a partir da exegese acadêmica, demonstrando que seu significado é idiomático, cultural e teológico, não cosmológico. 

Busca-se, assim, contribuir para uma compreensão mais adequada do texto bíblico, evitando anacronismos interpretativos.


2. Textos bíblicos e análise linguística

A expressão “face da Terra” deriva principalmente do hebraico:

פְּנֵי הָאָרֶץ (pᵉnê hā’ārets)

E, no Novo Testamento, do grego:

πρόσωπον τῆς γῆς (prósōpon tês gês)

Ambos os termos significam literalmente:

superfície

presença

extensão visível

região habitada

Exemplos:

Gênesis 7:4

“Destruirei da face da Terra todo ser vivente.”

Atos 17:26

“De um só fez toda a raça humana para habitar sobre a face da Terra.”

Em nenhum desses contextos a expressão indica formato geométrico, mas sim totalidade espacial.


3. Gêneros literários bíblicos

A Bíblia não é um livro único, mas uma biblioteca composta por diversos gêneros:

Narrativa histórica (Gênesis, Êxodo)

Poesia (Salmos, Jó)

Profecia (Isaías, Jeremias)

Apocalíptico (Daniel, Apocalipse)

Epistolar (cartas apostólicas)

A expressão “face da Terra” aparece majoritariamente em:

narrativas

poesia

discursos proféticos

Portanto, pertence a um registro linguístico simbólico e fenomenológico, não científico.


4. Contexto histórico-cultural

Os autores bíblicos escrevem a partir da cosmovisão do Antigo Oriente Próximo, na qual o mundo é descrito conforme a experiência sensorial humana:

sol “nasce” e “se põe”

céu “se estende”

terra “tem fundamentos”

Trata-se de linguagem fenomenológica, isto é, descrição do mundo como ele aparece aos sentidos, não como modelo físico-matemático.


5. Hermenêutica crítica e erro do literalismo

A hermenêutica bíblica crítica rejeita a leitura literalista absoluta, pois esta incorre em:

Anacronismo semântico

Impor conceitos científicos modernos a textos antigos.

Falácia categorial

Confundir linguagem teológica com linguagem científica.

Assim, interpretar “face da Terra” como prova de Terra plana é um erro metodológico grave, pois transforma metáfora teológica em engenharia cosmológica.


6. Significados teológicos da expressão

Na teologia bíblica, “face da Terra” comunica:

universalidade da criação

soberania divina

presença humana no mundo

abrangência da ação de Deus

É uma expressão existencial e espiritual, não geométrica.


7. Mensagens para o século XXI

A leitura correta desses textos ensina que:

fé e ciência pertencem a campos epistemológicos distintos;

a Bíblia não pretende explicar o universo fisicamente;

o conflito entre Escritura e ciência surge de má interpretação, não do texto em si.

Para o século XXI, a principal mensagem é:

A Bíblia comunica sentido, não estrutura física do cosmos.


Conclusão

A expressão “face da Terra”, analisada à luz da hermenêutica crítica, da linguística semítica e do contexto histórico-cultural, não sustenta qualquer modelo cosmológico específico. 

Trata-se de um idiomatismo poético que designa a totalidade do mundo habitado. A tentativa de utilizá-la como prova de Terra plana constitui erro exegético, anacronismo semântico e confusão entre teologia e ciência.

Portanto, a Bíblia não afirma nem nega a esfericidade da Terra; ela comunica verdades teológicas por meio de linguagem simbólica adequada à experiência humana.

A expressão “face da Terra” na Bíblia não descreve o formato físico do planeta, mas é uma forma de falar da superfície e do mundo habitado.

Esse modo de falar existe até hoje quando dizemos “da face da Terra” sem pensar em geometria.

Os autores bíblicos usavam linguagem comum, baseada na experiência humana, não linguagem científica.

A Bíblia foi escrita para ensinar verdades espirituais, não para explicar astronomia.

Ler tudo de forma literal gera erro, porque poesia e metáfora viram “prova física”.

“Face”, “fundamentos” e “quatro cantos” são figuras de linguagem.

Isso não diminui a Bíblia, apenas respeita seu gênero literário.

Confundir teologia com ciência é erro de interpretação.

A fé não depende do formato da Terra.

Depende do sentido da mensagem, não da geometria do planeta.


Referências 

BÍBLIA. Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2016.

BROWN, Francis; DRIVER, S. R.; BRIGGS, Charles. The Brown-Driver-Briggs Hebrew and English Lexicon. Peabody: Hendrickson, 2003.

CARSON, D. A.; MOO, Douglas. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2010.

FEE, Gordon; STUART, Douglas. Entendes o que lês? Um guia para interpretação da Bíblia. São Paulo: Vida Nova, 2011.

KÖSTENBERGER, Andreas; PATTERSON, Richard. Invitation to Biblical Interpretation. Grand Rapids: Kregel, 2011.

SILVA, Moisés. Biblical Words and Their Meaning. Grand Rapids: Zondervan, 1994.

WRIGHT, N. T. The New Testament and the People of God. Minneapolis: Fortress Press, 1992.















sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

RELIGIÃO, BÍBLIA E TERRAPLANISMO: UMA ANÁLISE EPISTEMOLÓGICA E TEOLÓGICA

O presente estudo analisa a relação entre religião, especialmente o cristianismo bíblico, e a crença contemporânea na Terra plana. Busca-se demonstrar que o terraplanismo não constitui doutrina de nenhuma religião histórica, mas emerge como uma interpretação literalista moderna de textos bíblicos poéticos e fenomenológicos. A pesquisa adota metodologia qualitativa, de natureza bibliográfica, com abordagem interdisciplinar entre teologia, epistemologia e história da ciência. Conclui-se que o conflito entre Bíblia e ciência, frequentemente alegado por defensores do terraplanismo religioso, é artificial e resulta de uma leitura descontextualizada dos textos sagrados e de uma rejeição dos critérios científicos de validação do conhecimento. O estudo demonstrou que o terraplanismo não possui fundamentação teológica consistente, resultando de interpretações literalistas e descontextualizadas da Bíblia. Verificou-se que os textos bíblicos utilizam linguagem simbólica e não visam descrever modelos científicos do universo. Os dados indicam que a crença na Terra plana é minoritária, porém socialmente relevante. Conclui-se que o conflito entre fé e ciência é artificial e epistemologicamente equivocado. Assim, o terraplanismo configura-se como um problema sociocultural contemporâneo e não como controvérsia científica legítima. Essa mentalidade fundamentalista parece que veio dos estadunidesnses cerca de 2%, nos brasileiros está estimado em cerca de 8% , 11 milhões de pessoas que negam metodologia científica e defendem ideologias misturadas com religião. 

Palavras-chave: Terraplanismo. Bíblia. Epistemologia. Teologia. Ciência.


1. Introdução

A difusão contemporânea do terraplanismo, impulsionada pelas redes sociais, reacendeu debates sobre a relação entre religião e ciência. Em especial, alguns grupos religiosos passaram a reivindicar fundamentação bíblica para a crença de que a Terra seria plana e coberta por um firmamento físico. Tal postura contrasta com o consenso científico e com a tradição histórica das grandes religiões monoteístas.

Nesse contexto, este artigo objetiva analisar criticamente se há, de fato, base teológica consistente para a defesa da Terra plana a partir da Bíblia, bem como investigar os fatores epistemológicos que explicam a emergência do terraplanismo religioso como fenômeno sociocultural moderno.


2. Desenvolvimento

2.1 A linguagem bíblica e seus limites interpretativos

A Bíblia é composta por múltiplos gêneros literários, como poesia, narrativa, profecia e literatura sapiencial. Grande parte das passagens utilizadas por terraplanistas possui caráter simbólico ou metafórico, como as expressões “quatro cantos da Terra” (Is 11:12) e “as colunas da Terra” (Jó 9:6). Tais expressões configuram linguagem fenomenológica, isto é, descrevem o mundo conforme a percepção humana imediata, não como tratado científico.

Segundo Barr (1993), a leitura literalista ignora a hermenêutica básica dos textos sagrados, confundindo linguagem teológica com descrição cosmológica.


2.2 A posição histórica das religiões cristãs

Contrariamente ao discurso popular, nenhuma tradição cristã dominante defendeu oficialmente a Terra plana. Desde a patrística, autores como Agostinho de Hipona e Tomás de Aquino reconheciam a esfericidade da Terra, com base na filosofia aristotélica e na observação empírica (AQUINO, 2005).

A ideia de que a Igreja medieval acreditava em uma Terra plana é um mito moderno, difundido principalmente no século XIX por autores como Draper e White, em uma narrativa de suposto conflito permanente entre ciência e religião (NUMBERS, 2009).


2.3 Terraplanismo como fenômeno epistemológico

O terraplanismo contemporâneo caracteriza-se menos como posição religiosa e mais como movimento ideológico anti-institucional. Ele se apoia em três pilares principais:

Desconfiança sistemática das instituições científicas;

Valorização da experiência individual como critério absoluto de verdade;

Interpretação conspiratória da realidade.

Do ponto de vista epistemológico, trata-se de uma forma de negação do método científico, substituído por uma lógica de confirmação subjetiva, conforme descrito por Pigliucci (2013) como pseudociência.


2.4 Religião, ciência e falsa oposição

A oposição entre fé e ciência promovida por grupos terraplanistas constitui uma falsa dicotomia. A teologia contemporânea reconhece que ciência e religião operam em campos distintos: a primeira investiga o funcionamento da natureza, enquanto a segunda busca sentido existencial e transcendental (BARBOUR, 2000).

Portanto, utilizar a Bíblia como manual de cosmologia não apenas distorce o texto religioso, como compromete sua própria função espiritual e simbólica.


2.5 Estimativas quantitativas do terraplanismo e sua relação com grupos religiosos

A mensuração do número de indivíduos que acreditam na Terra plana apresenta limitações metodológicas significativas, uma vez que não existem censos específicos ou registros institucionais que categorizem formalmente os adeptos dessa crença. O terraplanismo configura-se como um movimento difuso, predominantemente digital, sem filiação religiosa oficial ou estrutura organizacional centralizada.

No Brasil, dados do Instituto Datafolha indicam que aproximadamente 7% a 8% da população declara acreditar que a Terra é plana, o que corresponderia, em termos absolutos, a mais de 11 milhões de pessoas (DATAFOLHA, 2019). Esses números variam conforme o recorte etário e o nível de escolaridade, sendo mais elevados entre jovens adultos e indivíduos com menor escolarização formal.

Estudos internacionais apontam tendência semelhante. Nos Estados Unidos, pesquisas do YouGov revelaram que cerca de 2% a 5% da população adulta considera plausível a hipótese da Terra plana, o que representa milhões de indivíduos em números absolutos (YOUGOV, 2018). Entretanto, organizações formais como a Flat Earth Society possuem apenas alguns milhares de membros registrados, evidenciando a natureza descentralizada e informal do fenômeno (LIVESCIENCE, 2016).

No que se refere à dimensão religiosa, não há evidências empíricas de que denominações cristãs históricas sustentem oficialmente a cosmologia terraplanista. Todavia, pesquisas sociológicas indicam que a crença aparece com maior frequência entre indivíduos que se autodeclaram religiosos e adotam uma leitura literalista das Escrituras, especialmente em contextos evangélicos independentes e movimentos fundamentalistas digitais (NUMBERS, 2009; PIGLIUCCI, 2013).

Assim, os dados disponíveis permitem concluir que o terraplanismo contemporâneo constitui um fenômeno sociocultural transversal, presente em diferentes grupos religiosos e não religiosos, sem correspondência direta com qualquer tradição teológica institucionalizada.



3. Conclusão

Conclui-se que o terraplanismo não encontra respaldo nas doutrinas das religiões históricas, mas emerge como produto de um literalismo bíblico descontextualizado e de uma postura epistemológica negacionista. A Bíblia não propõe um modelo científico do universo, e sua leitura adequada requer instrumentos hermenêuticos, históricos e literários.

O terraplanismo religioso, assim, revela mais sobre crises contemporâneas de confiança na ciência e nas instituições do que sobre a teologia propriamente dita, configurando-se como fenômeno sociocultural moderno, e não como herança legítima da tradição bíblica.

O presente estudo demonstrou que o terraplanismo não possui fundamentação teológica consistente nas tradições religiosas históricas, mas resulta de interpretações literalistas e descontextualizadas dos textos bíblicos. Verificou-se que a Bíblia utiliza linguagem simbólica e fenomenológica, não tendo como objetivo descrever modelos científicos do universo.

 Os dados quantitativos indicam que a crença na Terra plana é minoritária, embora socialmente relevante em termos absolutos. Observou-se que o fenômeno está associado a padrões de negacionismo científico e desconfiança institucional. Conclui-se que o conflito entre fé e ciência é artificial e epistemologicamente equivocado. 

A religião, enquanto sistema simbólico, não se opõe ao conhecimento científico, mas ocupa campo distinto de explicação da realidade. O terraplanismo revela mais uma crise de racionalidade contemporânea do que um debate cosmológico legítimo. Portanto, sua análise deve ser compreendida como problema sociocultural e não como controvérsia científica real.


Referências 

AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. São Paulo: Loyola, 2005.

BARBOUR, Ian G. Quando ciência encontra religião. São Paulo: Cultrix, 2000.

BARR, James. Fundamentalism. London: SCM Press, 1993.

BÍBLIA. Bíblia Sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 2011.

NUMBERS, Ronald L. Galileo Goes to Jail and Other Myths about Science and Religion. Cambridge: Harvard University Press, 2009.

PIGLIUCCI, Massimo. Nonsense on Stilts: How to Tell Science from Bunk. Chicago: University of Chicago Press, 2013.

DATAFOLHA. 7% dos brasileiros acreditam que a Terra é plana. São Paulo: Instituto Datafolha, 2019.

LIVESCIENCE. Why do some people believe the Earth is flat? New York: Live Science, 2016.

NUMBERS, Ronald L. Galileo goes to jail and other myths about science and religion. Cambridge: Harvard University Press, 2009.

PIGLIUCCI, Massimo. Nonsense on stilts: how to tell science from bunk. Chicago: University of Chicago Press, 2013.

YOUGOV. One in six Americans believe the Earth is flat. London: YouGov Survey Results, 2018.


















WHITE, Andrew Dickson. A History of the Warfare of Science with Theology in Christendom. New York: Appleton, 1896.









A JUSTIÇA SOCIAL NA TRADIÇÃO BÍBLICA: TRABALHO, DIGNIDADE HUMANA E CRÍTICA À EXPLORAÇÃO

A analisa sobre a concepção de trabalho, justiça social e dignidade humana presente na tradição bíblica, relacionando-a com as discussões contemporâneas sobre exploração do trabalho e dominação ideológica. A partir de uma leitura crítico-hermenêutica das Escrituras, demonstra-se que a Bíblia apresenta uma posição ética clara contra a opressão econômica, a concentração de riqueza e a negação de direitos aos trabalhadores. O estudo evidencia que a mensagem bíblica, especialmente nos profetas e nos evangelhos, converge com princípios modernos de justiça social, igualdade e valorização do trabalho humano, opondo-se a estruturas sociais baseadas na exploração.

Palavras-chave: Justiça social. Trabalho. Bíblia. Exploração. Ideologia.


1. Introdução

A relação entre religião e justiça social é um tema recorrente nas ciências humanas e sociais. No contexto contemporâneo, marcado por profundas desigualdades econômicas e precarização do trabalho, torna-se relevante investigar como tradições religiosas clássicas, como o cristianismo, abordam questões relativas à dignidade humana, ao lucro e à exploração.

A Bíblia, frequentemente utilizada para legitimar discursos morais conservadores, apresenta, paradoxalmente, um forte conteúdo crítico em relação à acumulação de riqueza, à opressão dos pobres e à injustiça estrutural. Desde o Antigo Testamento até os ensinamentos de Jesus, observa-se uma ética social centrada na defesa dos vulneráveis e na condenação de práticas econômicas abusivas.

Este estudo tem como objetivo analisar, de forma sistemática, os fundamentos bíblicos da justiça social e suas implicações para a crítica das relações de exploração no capitalismo contemporâneo.


2. Trabalho e dignidade humana na tradição bíblica

Na tradição bíblica, o trabalho não é concebido apenas como atividade produtiva, mas como dimensão essencial da dignidade humana. Em Gênesis, o ser humano é apresentado como sujeito ativo na criação, responsável por cultivar e cuidar da terra (Gn 2:15). O trabalho, portanto, possui valor ontológico e social.

Entretanto, a Bíblia também reconhece a possibilidade de o trabalho se tornar instrumento de opressão. O livro do Êxodo descreve a escravidão no Egito como paradigma da exploração extrema, na qual o trabalhador é reduzido à condição de objeto. A libertação do povo hebreu constitui, assim, um marco simbólico da luta contra a dominação econômica.

Textos como Deuteronômio 24:14-15 e Jeremias 22:13 condenam explicitamente a retenção de salários e o uso injusto da força de trabalho, afirmando que a exploração do trabalhador constitui uma afronta direta a Deus.


3. Crítica à acumulação e à desigualdade

A crítica à concentração de riqueza é um dos eixos centrais da ética bíblica. Os profetas do Antigo Testamento denunciam as elites econômicas que acumulam bens enquanto a maioria vive na miséria (Amós 5; Isaías 5). A riqueza excessiva é associada à injustiça social e à corrupção moral.

Nos evangelhos, Jesus radicaliza essa crítica ao afirmar que “não se pode servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6:24) e que “é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus” (Mc 10:25). Tais afirmações revelam uma incompatibilidade ética entre acumulação ilimitada e justiça social.

O livro de Atos descreve a comunidade cristã primitiva como uma experiência de partilha, na qual “ninguém considerava exclusivamente seu o que possuía” (At 4:32), indicando um modelo social baseado na solidariedade e não na apropriação privada absoluta.



4. Ideologia, dominação e falsa consciência

Do ponto de vista sociológico, a ideologia funciona como um mecanismo de legitimação da ordem social. Autores como Marx (2013) e Bourdieu (1989) demonstram que as classes dominantes produzem discursos que naturalizam a desigualdade e ocultam as relações reais de exploração.

Nesse sentido, a Bíblia pode ser interpretada como um discurso contra-hegemônico, pois rompe com a lógica da dominação simbólica ao afirmar que a pobreza não é resultado de falha individual, mas consequência de estruturas injustas. A epístola de Tiago (5:4) explicita que o lucro obtido pela fraude e pela exploração é moralmente ilegítimo.

Assim, a tradição bíblica apresenta elementos que desconstroem a ideologia meritocrática contemporânea, segundo a qual o sucesso econômico é exclusivamente fruto do esforço individual.


5. Exploração do trabalho, lucro e dominação ideológica no século XXI

No século XXI, a exploração do trabalho continua sendo uma das bases centrais do sistema capitalista, mesmo com o avanço tecnológico e a automação. A lógica fundamental permanece a mesma: o trabalhador vende sua força de trabalho em troca de um salário, enquanto o capitalista se apropria do valor excedente produzido, chamado de lucro. Esse excedente é a diferença entre o que o trabalhador produz e o que ele recebe, o que Marx definiu como mais-valia.

Com a globalização e o neoliberalismo, a exploração se tornou mais sofisticada. Hoje ela aparece na forma de terceirização, trabalho por aplicativo, informalidade, “pejotização” e contratos flexíveis. O discurso é de liberdade e empreendedorismo, mas na prática muitos trabalhadores não têm direitos, estabilidade, férias, previdência ou proteção social. Trabalham mais, ganham menos e assumem todos os riscos.

Ao mesmo tempo, o lucro se concentra cada vez mais em poucas mãos. Grandes corporações, bancos e fundos de investimento controlam setores inteiros da economia mundial. Enquanto a produtividade aumenta com tecnologia e inteligência artificial, os salários não crescem no mesmo ritmo. Isso gera um cenário de alta desigualdade: poucos acumulam fortunas, enquanto a maioria vive endividada e com dificuldade de manter o básico.

Para manter esse sistema funcionando, entram em cena as chamadas ideologias dominantes. Elas servem para justificar a ordem existente e fazer com que pareça natural, inevitável ou até desejável. Ideias como “meritocracia”, “empreendedor de si mesmo”, “quem é pobre é porque não se esforçou” e “o mercado se autorregula” ajudam a esconder as relações reais de exploração.

No século XXI, essa dominação ideológica é reforçada pelos meios de comunicação, redes sociais, indústria cultural e plataformas digitais. Em vez de questionar as estruturas econômicas, muitas pessoas são levadas a culpar indivíduos, grupos sociais ou teorias conspiratórias. O debate político se desloca dos problemas materiais para guerras culturais, identidades e fake news.

Assim, a exploração do trabalho não depende apenas da força econômica, mas também do controle simbólico e ideológico. O sistema se mantém não só porque explora, mas porque consegue convencer os explorados de que essa exploração é normal, justa ou invisível.

No século XXI, a exploração do trabalho não acabou, apenas mudou de forma. Hoje ela aparece disfarçada de modernidade, tecnologia e liberdade. O trabalhador continua vendendo sua força de trabalho, mas agora muitas vezes sem direitos, sem carteira assinada, sem estabilidade e sem proteção social. Trabalha mais horas, ganha menos e ainda é chamado de “empreendedor”.

O lucro continua sendo o centro de tudo. Grandes empresas e bancos acumulam riqueza em escala global, enquanto a maioria da população vive com salário baixo, dívida, aluguel caro e custo de vida cada vez maior. A tecnologia aumentou a produtividade, mas esse aumento não se transformou em melhoria de vida para quem trabalha. Pelo contrário, serviu para concentrar ainda mais renda e poder.

Para esse sistema se manter, entra a ideologia. A ideologia dominante faz a exploração parecer normal, justa e inevitável. Diz que quem é pobre não se esforçou, que basta “querer vencer”, que o mercado é neutro e que o problema é sempre o indivíduo, nunca a estrutura.

No século XXI, essa dominação ideológica é reforçada pelas redes sociais, pela mídia e pelo discurso do sucesso pessoal. As pessoas passam a competir entre si, a se culpar, a se comparar, enquanto deixam de questionar quem controla a economia, quem define as regras e quem realmente lucra.

Enquanto isso, temas reais como jornada de trabalho, desigualdade, precarização, desemprego, automação e exploração ficam em segundo plano. O debate público se perde em polêmicas vazias, teorias conspiratórias e guerras culturais, que não mudam nada na vida material das pessoas.

No fim, a lógica é simples: quem trabalha produz a riqueza, mas quem manda fica com ela. E para que isso continue funcionando, não basta força econômica. É preciso também controle ideológico, para que os explorados aceitem a situação como se fosse natural e não como resultado de um sistema desigual.


Conclusão

A análise realizada demonstra que a Bíblia contém um forte núcleo ético voltado à defesa do trabalhador, à crítica da exploração e à promoção da justiça social. Longe de legitimar desigualdades estruturais, a tradição bíblica condena a concentração de riqueza, a opressão econômica e a dominação ideológica.

No contexto do século XXI, marcado por precarização do trabalho, financeirização da economia e intensificação das desigualdades, a mensagem bíblica mantém elevada relevância crítica. Seus princípios dialogam diretamente com as demandas contemporâneas por dignidade, igualdade e emancipação social, configurando-se como uma fonte teórica e ética para a crítica do capitalismo global.


Referências Bibliográficas 

ANTUNES, Ricardo. O privilégio da servidão: o novo proletariado de serviços na era digital. São Paulo: Boitempo, 2018.

BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989.

BÍBLIA. Bíblia Sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 2011.

CHOMSKY, Noam. Lucro ou pessoas? Neoliberalismo e ordem global. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002.

HARVEY, David. O neoliberalismo: história e implicações. São Paulo: Loyola, 2008.

MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro I. São Paulo: Boitempo, 2013.

BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2012.

OXFAM. Survival of the richest. Oxford: Oxfam International, 2023.

HERMAN, Edward S.; CHOMSKY, Noam. Manufacturing consent: the political economy of the mass media. New York: Pantheon Books, 1988.






















quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

As Três Peneiras de Sócrates como Fundamento Ético para a Educação Financeira

Analisando a educação financeira a partir das três peneiras de Sócrates: verdade, bondade e utilidade. A proposta relaciona esses princípios aos conceitos de desejo, utilidade e necessidade nas decisões econômicas. Discute-se como o consumo impulsivo compromete a estabilidade financeira. A reflexão filosófica contribui para escolhas mais racionais e conscientes. Conclui-se que a educação financeira deve integrar ética, comportamento e planejamento econômico. Para conseguir guardar uns trocos todo mês temos que aprender sobre o nosso desejo, o que é útil e o que realmente necessário colocar nossas energias, dinheiro na realidade é uma energia que gastamos nosso tempo para adquirir não é mesmo?




Palavras-chave

Educação financeira; Consumo consciente; Ética econômica; Sócrates; Tomada de decisão.


Introdução

A sociedade contemporânea é marcada por elevados níveis de consumo, endividamento e decisões financeiras impulsivas, frequentemente estimuladas por publicidade, crédito fácil e padrões sociais de status. Nesse contexto, torna-se fundamental o desenvolvimento da educação financeira como instrumento de autonomia individual e sustentabilidade econômica.

Uma abordagem filosófica que contribui para essa reflexão é a chamada “teoria das três peneiras de Sócrates”, que propõe que toda informação ou ação humana deveria ser filtrada por três critérios: verdade, bondade e utilidade. Segundo essa perspectiva, antes de dizer ou fazer algo, o indivíduo deveria questionar: isso é verdadeiro? Isso não causa mal? Isso é útil?

Ao transpor esse modelo ético para o campo da economia pessoal, é possível reinterpretar essas peneiras como filtros para decisões financeiras, associando-as aos conceitos de desejo, utilidade e necessidade, fundamentais para a formação de uma consciência econômica crítica.

Desenvolvimento: Educação Financeira e Tomada de Decisão

A educação financeira pode ser definida como o processo pelo qual indivíduos adquirem conhecimentos, habilidades e atitudes necessárias para tomar decisões conscientes sobre o uso do dinheiro, planejamento, consumo, poupança e investimento (OCDE, 2016).

Entretanto, mais do que cálculos ou técnicas, a educação financeira envolve uma dimensão ética e comportamental, pois as decisões econômicas são profundamente influenciadas por fatores psicológicos, sociais e culturais. Nesse sentido, a releitura das peneiras socráticas permite estruturar a educação financeira a partir de três eixos fundamentais.

Desejo

O desejo representa a dimensão subjetiva do consumo. Trata-se da vontade de possuir algo, muitas vezes estimulada por fatores externos, como publicidade, redes sociais e comparação social. Na economia comportamental, o desejo está associado ao consumo impulsivo e à chamada “economia do status”, em que as pessoas consomem para sinalizar pertencimento social.

Grande parte dos problemas financeiros individuais decorre da confusão entre desejo e necessidade. Ao não filtrar o desejo, o indivíduo tende a gastar mais do que pode, recorrendo a crédito e endividamento, comprometendo sua estabilidade econômica de longo prazo.

Utilidade

A utilidade refere-se ao valor funcional de um bem ou serviço. Na teoria econômica clássica, um produto é útil quando satisfaz uma necessidade ou gera benefício concreto ao consumidor. No contexto da educação financeira, questionar a utilidade significa perguntar: isso realmente melhora minha vida ou apenas satisfaz um impulso momentâneo?

A análise da utilidade permite substituir decisões emocionais por decisões racionais, promovendo alocação eficiente de recursos escassos, princípio central da ciência econômica.

Necessidade

A necessidade está relacionada às condições básicas de existência e bem-estar, como alimentação, moradia, saúde, educação e segurança. Diferentemente do desejo, a necessidade possui caráter objetivo e estrutural.

Ao priorizar necessidades sobre desejos, o indivíduo desenvolve uma lógica de consumo consciente, alinhada aos princípios da sustentabilidade econômica e social. Esse filtro também contribui para a formação de reservas financeiras, prevenção de crises pessoais e construção de autonomia.


Conclusão

A integração entre a filosofia socrática e a educação financeira revela que decisões econômicas não são apenas técnicas, mas essencialmente éticas e cognitivas. As três peneiras — verdade, bondade e utilidade — reinterpretadas como desejo, utilidade e necessidade, constituem um modelo simples e eficaz para orientar escolhas financeiras conscientes.

Ao aplicar esses filtros, o indivíduo deixa de ser mero consumidor passivo e torna-se sujeito ativo de sua própria economia, capaz de resistir a estímulos artificiais, reduzir o endividamento e promover estabilidade financeira. Assim, a educação financeira baseada em princípios filosóficos contribui não apenas para o equilíbrio econômico individual, mas também para uma sociedade mais racional, sustentável e justa.


Referências 

OCDE. OECD/INFE International Survey of Adult Financial Literacy Competencies. Paris: OECD Publishing, 2016.

BRASIL. Banco Central do Brasil. Cidadania Financeira: educação financeira no Brasil. Brasília: BCB, 2018.

MANKIW, N. Gregory. Introdução à economia. 8. ed. São Paulo: Cengage Learning, 2019.

KAHNEMAN, Daniel. Rápido e devagar: duas formas de pensar. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.

SENECA, Lúcio Aneu. Sobre a brevidade da vida. São Paulo: Martin Claret, 2010.

PLATÃO. Apologia de Sócrates. São Paulo: Edipro, 2017.



















sábado, 24 de janeiro de 2026

Relações Internacionais e Crescimento Econômico no Brasil (2023–2026): Uma Avaliação Científica

Este estudo investiga a relação entre a política externa brasileira no governo Luiz Inácio Lula da Silva (2023–2026) e o desempenho econômico do país, com foco no Produto Interno Bruto (PIB) e no comércio internacional. Embora não haja estimativas oficiais que quantifiquem diretamente o impacto em reais das relações internacionais no PIB, essa pesquisa compila dados macroeconômicos oficiais, projeções de organismos internacionais e análises acadêmicas que permitem identificar tendências e mecanismos econômicos plausíveis para a influência da diplomacia comercial e das parcerias estratégicas na economia brasileira. O Produto Interno Bruto brasileiro apresentou crescimento acumulado positivo entre 2023 e 2026, superando 2% ao ano, segundo dados do IBGE e projeções do IPEA. No mesmo período, os gastos federais com viagens oficiais representaram aproximadamente 0,05% do PIB, conforme informações do Portal da Transparência da CGU. Essa proporção evidencia que tais despesas possuem impacto econômico estatisticamente irrelevante em termos macroeconômicos. O crescimento do PIB esteve associado principalmente à expansão do consumo interno, exportações e investimentos estrangeiros. Portanto, as despesas com viagens governamentais não configuram variável determinante para a dinâmica do crescimento econômico nacional.


1. Introdução

Nas últimas décadas, numerosos estudos relacionaram a abertura comercial, integração econômica e inserção internacional ao crescimento econômico de países emergentes (por exemplo, estudos sobre G-20 e crescimento via comércio exterior) .

 No contexto brasileiro, o governo Lula (iniciado em janeiro de 2023) tem buscado reforçar a inserção internacional do país por meio de negociações comerciais, adesão a fóruns multilaterais e parcerias estratégicas (por exemplo, BRICS, Mercosul–UE, diálogos com EUA e China). Este artigo examina se e como essa política externa tem se refletido em indicadores macrodinâmicos como o PIB e as exportações.


2. Referencial Teórico

2.1 Comércio Internacional e Crescimento

A teoria do comércio internacional clássica e neoclássica — incluindo modelos de crescimento endógeno — sugere que a abertura comercial e a inserção em cadeias globais de valor podem aumentar o crescimento econômico ao expandir mercados, atrair investimentos e promover ganhos de eficiência produtiva. 

Estudos empíricos em economias do G-20 suportam a relação positiva entre abertura comercial e crescimento econômico.


2.2 Relações Internacionais e Diplomacia Econômica

A diplomacia econômica compreende negociações bilaterais e multilaterais, redução de barreiras comerciais e promoção de investimentos estrangeiros. Relações diplomáticas ativas podem facilitar acordos comerciais e atrair investimentos diretos estrangeiros (IED), que por sua vez potencializam crescimento econômico (OECD, 2025).


3. Metodologia

Este trabalho realiza uma revisão de literatura acadêmica e relatórios econômicos oficiais (IMF, OECD) combinada à análise de indicadores macroeconômicos (PIB, balança comercial, IED) para identificar conexões entre a política externa brasileira e o desempenho econômico no período 2023–2026.


4. Análise Empírica

4.1 Crescimento do PIB (2023–2026)

Dados do Fundo Monetário Internacional (IMF) e da OECD mostram que o crescimento real do PIB brasileiro foi robusto em 2023 (~2,9 %) e projetado em 2024–2026 para 2,1 % a 2,5 % ao ano, apesar de moderação em 2025 e 2026 devido a ciclos econômicos mais amplos. 

Esses números indicam que o Brasil manteve crescimento econômico estável, embora abaixo de economias de alto desempenho.


4.2 Comércio Exterior e Política Internacional

O desempenho da balança comercial, um componente importante do PIB, foi destacado pelo governo e por análises de comércio internacional:

O Brasil alcançou superávits comerciais recordes em 2023, impulsionados por commodities e forte demanda externa, especialmente da China — parceiro comercial chave — representando mais de 50 % do superávit naquele ano 

O superávit comercial continuou elevado em 2025, com exportações e importações robustas, gerando uma corrente de comércio de US$ 615,8 bi e IED de US$ 84,1 bi — o maior desde 2014 — o que sugere um ambiente externo favorável e integração econômica crescente.


4.3 Diplomacia Comercial e Acordos

Durante o período, o Brasil intensificou negociações comerciais e diplomáticas:

Avanços significativos no acordo Mercosul–UE, que pode reduzir tarifas e ampliar exportações a longo prazo.

Discussões com a União Europeia e os Estados Unidos sobre minerais estratégicos, o que pode impulsionar investimentos e diversificação de exportações brasileiras.

Reconstrução das relações com a China após tensões anteriores, reforçando um parceiro comercial vital para commodities e manufaturados.

Essas ações mostram que o Brasil está ampliando sua inserção internacional, o que tende a facilitar exportações, investimentos e maior integração ao comércio global.


5. Discussão

5.1 Impacto nas Exportações e IED

Mesmo que não haja uma mensuração direta do impacto em Reais das relações internacionais sobre o PIB, os dados sugerem mecanismos plausíveis de contribuição:

Exportações robustas e superávits comerciais fortalecem o PIB via maior demanda externa.

Atração de IED recorde sinaliza confiança internacional, vinculada à estabilidade macroeconômica e à política externa ativa.

Negociações comerciais e diplomáticas potencialmente expandem o acesso a mercados e reduzem barreiras tarifárias, que em análises empíricas correlacionam-se com maiores taxas de crescimento econômico.


5.2 Limitações Metodológicas

Nenhuma estimativa oficial isolou quantitativamente o “efeito Lula” ou das relações internacionais diretamente no PIB em Reais entre 2023–2026. 

Modelos causais complexos seriam necessários, mas podem ser tentados em estudos futuros com métodos econométricos e dados mais completos.


5.3 Comparação entre Gastos com Viagens Oficiais e Crescimento do PIB (2023–2026)

5.3.1 Contexto: Gastos com Viagens Oficiais

Dados oficiais e levantamentos de transparência mostram que o governo federal teve gastos substanciais com viagens oficiais e diárias em 2025, com despesas próximas de R$ 6 bilhões, considerando informações parciais disponíveis até outubro de 2025. 

Embora nem todos os dados anuais estejam consolidados, este número indica o peso relevante dessas despesas no orçamento federal, mesmo excluindo gastos diretos do presidente e da comitiva presidencial. 

Esses gastos incluem viagens nacionais (aproximadamente 86 % do total em 2025) e internacionais, mas não são comumente reportados como uma categoria agregada percentual do PIB nos relatórios públicos, o que torna necessária uma aproximação comparativa baseada no PIB total. 


5.3.2 Crescimento do PIB Brasileiro (Referência para Comparação)

O Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil teve trajetória de crescimento ao longo dos primeiros anos do governo Lula:

2023: crescimento real de aproximadamente 2,9 % e PIB em torno de R$ 10,9 trilhões (valor de 2023). 

2024: PIB totalizado em cerca de R$ 11,8 trilhões, com alta de 3,4 % em relação a 2023. 

2025: projeções oficiais e análises (por exemplo IBGE e IPEA) indicam crescimento ao redor de 2,2 % a 2,4 % para o ano. 

2026: projeções moderadas de crescimento (cerca de 2,0 % a 2,4 %) mantêm a expansão, embora mais lenta. 

Esses números demarcam um crescimento real e nominal contínuo do PIB ao longo do período.


5.3.3 Proporção de Gastos com Viagens em Relação ao PIB

Para estabelecer uma comparação percentual entre gastos com viagens e o tamanho da economia brasileira:

Supondo gastos com viagens federais de cerca de R$ 6 bi em 2025 e um PIB estimado em R$ 11,8 tri em 2024 (e valores próximos em 2025):

Gastos com viagens como % do PIB:

Comparação prática:

Um gasto de 0,05 % do PIB para viagens oficiais é muito pequeno em relação ao crescimento do PIB de vários pontos percentuais ao ano (por exemplo, 3,4 % em 2024).

Para contextualizar, despesas totais do governo geral em funções amplas (saúde, educação etc.) atingir mais de 45 % do PIB em 2024, conforme relatório COFOG, muito além do peso residual de despesas de viagens específicas. 


5.3.4 Interpretação e Significado Econômico

5.3.4.1 Discrepância entre Gastos Discricionários e Crescimento Econômico

Os gastos com viagens oficiais, apesar de politicamente visíveis, correspondem a uma fração muito pequena do PIB, indicando que eles não são um determinante macroeconômico significativo por si só no crescimento econômico.

O crescimento do PIB brasileiro em 2 % a 3 % ao ano durante o período (2023–2026) está mais diretamente relacionado a fatores estruturais amplos como consumo interno, exportações, investimentos, setorial agrícola, industrial e de serviços, não a despesas específicas com viagens governamentais. 


5.3.4.2 Política Fiscal e Alocação de Gastos

As despesas públicas totais atingiram aproximadamente 45,8 % do PIB em 2024, com grande parte destinada a saúde, educação e proteção social — ordens de magnitude centenas de vezes maiores que os gastos com viagens — o que ressalta prioridades fiscais amplas além de despesas de representação e deslocamento.


6. Custos e números de repatriações de brasileiros (2023–2026)


1. Números de brasileiros repatriados

O governo brasileiro, por meio do programa “Aqui é Brasil” do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), tem coordenado a recepção humanitária de cidadãos repatriados principalmente dos Estados Unidos:

Em 2025, foram realizadas pelo menos 24 operações de repatriação, com mais de 2 000 brasileiros retornando ao país sob esse programa. 

Em outubro de 2025, por exemplo, um voo trouxe 110 repatriados do exterior. 

Em outra operação de 2025, 63 brasileiros foram recebidos em Belo Horizonte. 

Ainda em 2025, uma operação trouxe 54 repatriados dos Estados Unidos. 

Em 2026, houve operações de repatriação com pelo menos 32 brasileiros retornando ao país em janeiro. 

Somados, os números confirmados demonstram que milhares de brasileiros foram repatriados no período 2023–2026, especialmente entre 2024 e 2025, quando as operações foram mais intensas.

Adicionalmente, dados dos Estados Unidos mostram que ao menos 1 240 brasileiros foram deportados pelos EUA em 2023 e cerca de 1 648 em 2024, segundo estatísticas compiladas pela mídia especializada (geral, sem detalhamento governamental brasileiro). 


2. Custos governamentais no Brasil

Medida Provisória de 2025

Em 2025, o governo federal editou a Medida Provisória 1302/25, que destinou R$ 15 milhões no Orçamento para o acolhimento de brasileiros deportados pelos Estados Unidos, incluindo transporte e serviços de acolhimento humanitário.

Essa cifra é a única referência oficial pública que quantifica uma dotação orçamentária específica para essa finalidade no período 2023–2026. Os R$ 15 milhões foram alocados para ações emergenciais de acolhimento, transporte e apoio logístico aos repatriados, conforme justificado pelo Executivo.

Limitações de dados sobre custos totais

Não há informação pública consolidada, nem relatórios oficiais que quantifiquem o gasto total do governo federal com todas as operações de repatriação (aeronaves, combustível, diárias, logística, apoio médico e logística terrestre) no período 2023–2026.

Ou seja, embora exista a destinação de R$ 15 milhões por meio de lei específica, não é possível determinar um valor agregado preciso em reais para todos os custos incorridos com todas as operações de repatriação no período, pois:

Despesas por operação (aeronaves da Força Aérea Brasileira, diárias, combustível, etc.) não são publicadas de forma consolidada em portais de transparência ou em relatórios orçamentários específicos.

As dotações orçamentárias por ministério constam em registros de execução, mas não são publicadas com a descrição “repatriação”, sendo classificadas em rubricas amplas dentro de ações administrativas ou de direitos humanos.




Conclusão

A política externa brasileira sob o governo Lula (2023–2026) fortaleceu a presença do país no cenário global, intensificou negociações comerciais e manteve relações estratégicas com grandes parceiros como China, UE e EUA. Embora não seja possível afirmar um número absoluto em Reais de quanto as relações internacionais aumentaram o PIB, há evidências que:

O Brasil continuou a crescer economicamente em 2023–2026 com taxas estáveis de crescimento do PIB real.

Exportações e superávits comerciais alcançaram níveis históricos, sugerindo que a diplomacia econômica contribuiu para um ambiente externo favorável.

A atração de IED e negociações comerciais representa um canal importante de influência externa no desempenho econômico.

Esses resultados apoiam a ideia de que uma densa agenda de relações internacionais pode estar positivamente correlacionada com o desempenho macroeconômico, mas mais estudos econométricos são necessários para identificar causalidade direta.

Os dados oficiais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro apresentou crescimento real de aproximadamente 2,9% em 2023 e de 3,4% em 2024, atingindo o montante de cerca de R$ 11,7 trilhões ao final de 2024. 

Para os anos de 2025 e 2026, as projeções do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) apontam para taxas de crescimento em torno de 2,4% e 2,0%, respectivamente, mantendo a trajetória de expansão moderada da economia nacional. 

Esses resultados demonstram que, no período analisado, o Brasil apresentou desempenho econômico positivo, ainda que condicionado por fatores estruturais internos e pelo cenário macroeconômico internacional.

No que se refere aos gastos públicos, dados da Controladoria-Geral da União (CGU), por meio do Portal da Transparência, revelam que as despesas federais com viagens e diárias alcançaram aproximadamente R$ 6 bilhões em 2025. 

Quando comparado ao valor total do PIB, esse montante representa cerca de 0,05% da produção nacional, o que evidencia que tais despesas possuem peso estatisticamente reduzido na estrutura macroeconômica do país. 

Dessa forma, ainda que os gastos com viagens oficiais sejam frequentemente objeto de debate político e midiático, sua relevância econômica é limitada quando observada sob a ótica agregada do PIB.

A comparação entre esses indicadores permite concluir que o crescimento do PIB brasileiro entre 2023 e 2026 esteve associado, sobretudo, a variáveis macroeconômicas amplas, como o aumento do consumo interno, a recuperação do setor de serviços, o desempenho do agronegócio, a expansão das exportações e a atração de investimentos estrangeiros diretos, conforme apontam relatórios do Fundo Monetário Internacional (IMF) e da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OECD). Nesse contexto, os gastos específicos com viagens oficiais não configuram fator determinante para o crescimento econômico, representando apenas uma fração residual do orçamento público e da renda nacional.

Assim, do ponto de vista da análise econômica, verifica-se que as despesas com deslocamentos governamentais, embora relevantes do ponto de vista administrativo e institucional, não exercem impacto significativo sobre a dinâmica do crescimento do PIB.

 O desempenho econômico observado no período está mais diretamente relacionado a políticas fiscais, monetárias e comerciais, bem como à inserção internacional do Brasil e à conjuntura global, do que a gastos discricionários de natureza operacional, como as despesas com viagens e diárias.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 

1. Produto Interno Bruto e crescimento econômico

IBGE – INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA.

Produto Interno Bruto – PIB do Brasil. Rio de Janeiro: IBGE, 2024. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/explica/pib.php. Acesso em: 24 jan. 2026.

IBGE – INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA.

PIB cresce 3,4% em 2024 e fecha o ano em R$ 11,7 trilhões. Agência IBGE Notícias, Rio de Janeiro, 2025. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br. Acesso em: 24 jan. 2026.

IPEA – INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA.

Ipea mantém projeção de crescimento do PIB de 2,4% para 2025 e projeta 2% para 2026. Brasília: IPEA, 2025. Disponível em: https://www.ipea.gov.br. Acesso em: 24 jan. 2026.

ASSOCIATED PRESS.

Brazil’s economy grows 2.9% in 2023, beating expectations. Nova York, 2024. Disponível em: https://apnews.com. Acesso em: 24 jan. 2026.

2. Organismos internacionais (IMF e OECD)

IMF – INTERNATIONAL MONETARY FUND.

IMF Executive Board Concludes 2024 Article IV Consultation with Brazil. Washington, DC: IMF, 2024. Disponível em: https://www.imf.org. Acesso em: 24 jan. 2026.

IMF – INTERNATIONAL MONETARY FUND.

IMF Executive Board Concludes 2025 Article IV Consultation with Brazil. Washington, DC: IMF, 2025. Disponível em: https://www.imf.org. Acesso em: 24 jan. 2026.

OECD – ORGANISATION FOR ECONOMIC CO-OPERATION AND DEVELOPMENT.

OECD Economic Outlook 2025 – Issue 1: Brazil. Paris: OECD Publishing, 2025. Disponível em: https://www.oecd.org. Acesso em: 24 jan. 2026.

3. Relações internacionais e diplomacia econômica

BRASIL. Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República.

Diplomacia ativa, resultados concretos: política exterior fortalece soberania e exportações do Brasil. Brasília: SECOM, 2025. Disponível em: https://www.gov.br/secom. Acesso em: 24 jan. 2026.

AGÊNCIA BRASIL.

Acordo União Europeia–Mercosul pode ampliar comércio do Brasil em R$ 94 bilhões. Brasília: EBC, 2024. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br. Acesso em: 24 jan. 2026.

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Legado Lula 3: economia cresce, atrai investimentos e eleva imagem do Brasil. São Paulo, 2025. Disponível em: https://institutolula.org. Acesso em: 24 jan. 2026.

SILVA, F. C.; MENEZES, R.

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Trade openness, tariffs and economic growth: an empirical study from G-20 countries. arXiv:2405.08052, 2024. Disponível em: https://arxiv.org/abs/2405.08052. Acesso em: 24 jan. 2026.

4. Gastos públicos e Portal da Transparência

BRASIL. Controladoria-Geral da União.

Portal da Transparência: despesas com viagens e diárias do Governo Federal. Brasília: CGU, 2025. Disponível em: https://www.portaltransparencia.gov.br. Acesso em: 24 jan. 2026.

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Gastos do governo com viagens e diárias ultrapassam R$ 6 bilhões em 2025. Plox Economia, 2025. Disponível em: https://www.plox.com.br. Acesso em: 24 jan. 2026.

BRASIL. Ministério da Fazenda.

Relatório COFOG: Brasil ampliou gastos em saúde, educação e habitação em 2024. Brasília: Tesouro Nacional, 2025. Disponível em: https://www.gov.br/fazenda. Acesso em: 24 jan. 2026.

BRASIL. Câmara dos Deputados. Medida provisória libera R$ 15 milhões para acolhimento de brasileiros deportados. Brasília: Câmara dos Deputados, 2025. Disponível em: https://www.camara.leg.br/noticias/1167985-medida-provisoria-libera-r-15-milhoes-para-acolhimento-de-brasileiros-deportados/. Acesso em: 24 jan. 2026.

BRASIL. Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. Governo do Brasil realiza primeira operação de acolhida humanitária de repatriados de 2026. Brasília: MDHC, 2026. Disponível em: https://www.gov.br/mdh/pt-br/assuntos/noticias/2026/janeiro/governo-do-brasil-realiza-primeira-operacao-de-acolhida-humanitaria-de-repatriados-de-2026. Acesso em: 24 jan. 2026.

BRASIL. Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. Governo do Brasil recebe 63 repatriados dos EUA em operação humanitária. Brasília: MDHC, 2025. Disponível em: https://www.gov.br/mdh/pt-br/assuntos/noticias/2025/setembro/governo-do-brasil-recebeu-63-repatriados-dos-eua-em-operacao-humanitaria-nessa-quarta-feira-17. Acesso em: 24 jan. 2026.

BRASIL. Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República. Federal government welcomes 127 repatriated citizens from the United States. Brasília: SECOM, 2025. Disponível em: https://www.gov.br/secom/en/latest-news/2025/03/federal-government-welcomes-127-repatriated-citizens-from-the-united-states. Acesso em: 24 jan. 2026.

BRASIL. Empresa Brasil de Comunicação. Nova operação humanitária recebeu 54 repatriados dos Estados Unidos. Brasília: Agência Brasil, 2025. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2025-09/nova-operacao-humanitaria-recebeu-54-repatriados-dos-estados-unidos. Acesso em: 24 jan. 2026.

BRASIL. Empresa Brasil de Comunicação. Governo federal repatria 110 brasileiros dos Estados Unidos em nova operação do programa “Aqui é Brasil”. Brasília: Agência Gov, 2025. Disponível em: https://agenciagov.ebc.com.br/noticias/202510/governo-federal-repatria-110-brasileiros-dos-estados-unidos-em-nova-operacao-do-programa-2018aqui-e-brasil2019. Acesso em: 24 jan. 2026.

LUPA, Agência. Como funcionam as deportações de brasileiros dos EUA: entenda em 6 pontos. São Paulo: Agência Lupa, 2025. Disponível em: https://www.agencialupa.org/jornalismo/2025/01/28/como-funcionam-as-deportacoes-de-brasileiros-dos-eua-entenda-em-6-pontos/. Acesso em: 24 jan. 2026.

PL ENGLISH. More than 3,000 Brazilians repatriated or deported in 2025. Havana: Prensa Latina, 2026. Disponível em: https://www.plenglish.com/news/2026/01/02/more-than-3000-brazilians-repatriated-or-deported-in-2025/. Acesso em: 24 jan. 2026.


Anexo





,  e habitação em 2024. Brasília: Ministério da Fazenda, 2025.










O Caso Banco Master: Linha do Tempo, Evidências, Donos e Conexões Político-Institucionais no Brasil (2024–2026)

A presente análise do escândalo financeiro envolvendo o Banco Master, instituição liquidada pelo Banco Central do Brasil em 2025, sob acusações de fraude financeira, manipulação contábil e emissão de ativos sem lastro. A pesquisa organiza uma linha do tempo detalhada dos acontecimentos, identifica os principais agentes econômicos e políticos envolvidos e discute as implicações institucionais no âmbito do sistema financeiro e do Judiciário brasileiro. O estudo demonstra que o caso ultrapassa a esfera econômica, assumindo dimensão político-institucional, ao envolver ministros do Supremo Tribunal Federal, fundos públicos, parlamentares e debates sobre conflitos de interesse e governança pública. O caso Banco Master revelou a exposição de fundos públicos de previdência, especialmente o Rioprevidência, sob gestão do governo Cláudio Castro (PL), que aplicou cerca de R$ 970 milhões em títulos do banco e passou a ser investigado pela Polícia Federal por possíveis irregularidades. No Amapá, o fundo Amprev, vinculado ao governo de Clécio Luís (Solidariedade), investiu aproximadamente R$ 400 milhões, sem que haja, até o momento, investigação criminal formal. Os episódios evidenciam fragilidades na governança dos RPPS e a responsabilidade política dos governadores pela supervisão dos recursos previdenciários.


Palavras-chave: Banco Master; sistema financeiro; corrupção; STF; Banco Central; governança institucional.


1 Introdução

A crise do Banco Master insere-se em um contexto mais amplo de fragilidade regulatória e conflitos estruturais entre interesses privados e instituições públicas no Brasil. Casos de fraudes bancárias historicamente revelam não apenas falhas de gestão financeira, mas também déficits institucionais na fiscalização, na responsabilização penal e na transparência do sistema financeiro nacional.

O caso Master destaca-se por envolver simultaneamente: (i) um banco de médio porte com crescimento acelerado; (ii) o Banco Central como órgão regulador; (iii) a Polícia Federal e o Ministério Público Federal; e (iv) ministros do Supremo Tribunal Federal e parlamentares, produzindo uma crise de legitimidade institucional.


2 Metodologia

A pesquisa adota abordagem qualitativa, de natureza documental, baseada em:

Reportagens de agências jornalísticas (Reuters, Agência Brasil, CNN Brasil, Veja);

Comunicados institucionais do Banco Central, STF e Senado Federal;

Documentos judiciais e relatos oficiais de investigações.

Os dados foram organizados cronologicamente, permitindo análise histórica e institucional do caso.


3 O Banco Master e seu Controlador

O Banco Master tinha como principal controlador o empresário Daniel Vorcaro, responsável direto pela expansão da instituição e pelas decisões estratégicas de investimento. A Polícia Federal identificou, nas investigações, indícios de:

emissão de ativos financeiros sem lastro real;

investimentos em empresas sem capacidade econômico-financeira;

manipulação de balanços contábeis;

possível lavagem de dinheiro e organização criminosa.

Vorcaro foi preso em novembro de 2025, no âmbito da Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal.


4 Linha do Tempo do Caso Banco Master

4.1 Indícios iniciais (2024–2025)

Relatórios preliminares da Comissão de Valores Mobiliários e do Banco Central apontaram inconsistências contábeis e investimentos fictícios, com valores superiores a R$ 2 bilhões.

4.2 Liquidação e prisão (novembro de 2025)

Em 18 de novembro de 2025:

O Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master.

A Polícia Federal prendeu Daniel Vorcaro e executivos do banco.

Foram realizadas buscas e apreensões em vários estados.


4.3 Judicialização e STF (dezembro de 2025)

O ministro Dias Toffoli (STF) determinou que o processo tramitasse no Supremo, em razão de foro privilegiado de parlamentares citados.

Nesse período, veio a público contrato de aproximadamente R$ 129 milhões entre o Banco Master e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, gerando acusações de conflito de interesses.


4.4 Ampliação das investigações (janeiro de 2026)

Em janeiro de 2026:

O STF autorizou o bloqueio de bens de empresários ligados ao banco, incluindo Nelson Tanure.

A Polícia Federal investigou o fundo de pensão Rioprevidência, por aplicações em títulos do Master.

Parlamentares protocolaram pedido de impeachment contra Dias Toffoli, alegando suspeição.


4.5 Suspeitas envolvendo autoridades do Supremo Tribunal Federal

Alexandre de Moraes (sem filiação partidária)

Reportagens revelaram a existência de contrato milionário entre o Banco Master e o escritório de advocacia da esposa do ministro Alexandre de Moraes (CORREIO BRAZILIENSE, 2025).

Do ponto de vista jurídico:

não há inquérito criminal contra o ministro;

não há denúncia formal do Ministério Público;

a relação é de natureza contratual privada.

A tipologia correta é de suspeita de conflito de interesses institucional, não de corrupção comprovada (CNN BRASIL, 2025).

Dias Toffoli (sem filiação partidária)

O ministro Dias Toffoli passou a ser alvo de pedidos políticos de impeachment após decisões que centralizaram o processo no STF e determinaram sigilo sobre documentos (SENADO FEDERAL, 2025).

Situação jurídica:

não há denúncia criminal;

não há investigação penal;

existem apenas questionamentos políticos e parlamentares.

Classificação: suspeita político-institucional, sem prova penal.


4.6 Parlamentares citados em autos sob sigilo

A investigação foi remetida ao STF devido à menção de parlamentares com foro privilegiado em depoimentos e documentos apreendidos pela Polícia Federal (AGÊNCIA BRASIL, 2025b).

Até o momento:

não há nomes oficialmente divulgados;

não há denúncias formais;

não há ações penais.

Classificação: indício judicial em apuração preliminar.


4.7 Empresários com medidas judiciais cautelares

Nelson Tanure

O empresário Nelson Tanure teve bens bloqueados por decisão do STF, sob suspeita de participação societária indireta no esquema financeiro do Banco Master (REUTERS, 2026b).

Situação jurídica:

investigado;

sem denúncia criminal aceita;

sem condenação.

Classificação: indício econômico-financeiro relevante, mas sem prova penal definitiva.


4.8 Relações com partidos políticos

Não há, até janeiro de 2026, qualquer prova judicial de corrupção partidária, financiamento ilegal de campanha ou caixa dois envolvendo diretamente o Banco Master.

O que existe são:

registros de doações legais no Tribunal Superior Eleitoral;

menções a vínculos indiretos com políticos filiados ao:

PL,

Republicanos,

PSD (CNN BRASIL, 2025).

Do ponto de vista jurídico:

nenhuma doação foi considerada irregular;

não há investigações criminais contra partidos.

Classificação: vínculo político-eleitoral legal, sem tipificação penal.


Os dados oficiais do Tribunal Superior Eleitoral indicam que agentes economicamente vinculados ao controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, realizaram doações relevantes a campanhas eleitorais nas eleições gerais de 2022, especialmente por meio do empresário Fabiano Campos Zettel, cunhado de Vorcaro. 

As prestações de contas registram repasses de aproximadamente R$ 3 milhões à campanha presidencial de Jair Bolsonaro, do Partido Liberal, e de cerca de R$ 2 milhões à campanha de Tarcísio de Freitas, do partido Republicanos, ambos declarados como doações legais de pessoa física. 

Embora tais transferências não configurem, até o momento, ilícitos eleitorais reconhecidos judicialmente, sua inserção no contexto das investigações criminais sobre o Banco Master levanta questionamentos institucionais sobre a permeabilidade do sistema político brasileiro ao poder econômico. 

O caso evidencia um padrão estrutural de financiamento político no qual a legalidade formal dos repasses não elimina o risco de captura indireta do Estado por interesses privados, reproduzindo dinâmicas históricas de assimetria entre capital financeiro e representação democrática.


5 Envolvimento Político e Institucional

O caso Banco Master assume relevância político-institucional por envolver:


5.1 Supremo Tribunal Federal

Ministros do STF tornaram-se personagens centrais, seja por decisões judiciais, seja por relações contratuais indiretas com o banco.


5.2 Banco Central e TCU

O Banco Central foi criticado pelo Tribunal de Contas da União quanto à demora na intervenção e à condução da liquidação.

5.3 Parlamento

Senadores e deputados apresentaram pedidos de CPI e impeachment, questionando a imparcialidade do Judiciário.


5.4 Fundos públicos

O envolvimento de fundos de pensão estatais revela risco sistêmico, com impacto direto sobre recursos de trabalhadores.


5.5 Governadores, Fundos de Pensão e Responsabilidade Política no Caso Banco Master

A crise financeira envolvendo o Banco Master revelou a exposição significativa de fundos públicos de previdência de entes federativos, especialmente de estados e municípios, evidenciando fragilidades estruturais na governança dos Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS). 

O caso de maior repercussão institucional refere-se ao Rioprevidência, fundo de pensão dos servidores do Estado do Rio de Janeiro, que, sob a gestão do governo de Cláudio Castro (Partido Liberal – PL), aplicou cerca de R$ 970 milhões em títulos do Banco Master, especialmente Letras Financeiras sem cobertura do Fundo Garantidor de Créditos. 

Em decorrência dessas operações, a Polícia Federal instaurou investigação para apurar possíveis irregularidades, incluindo gestão temerária e violação das normas de alocação de recursos previdenciários, culminando na exoneração do presidente do fundo por determinação do governador.

No Estado do Amapá, o fundo Amprev, vinculado ao governo de Clécio Luís (Solidariedade), também apresentou elevada exposição financeira, com aplicações estimadas em aproximadamente R$ 400 milhões em ativos do Banco Master. Diferentemente do caso fluminense, entretanto, não há, até o momento, investigações criminais formalmente instauradas contra a gestão estadual, prevalecendo medidas administrativas e judiciais voltadas à proteção patrimonial dos recursos previdenciários.

Do ponto de vista institucional, tais episódios revelam um padrão recorrente de captura técnica da política previdenciária por interesses do mercado financeiro, no qual governadores, ainda que não diretamente envolvidos em práticas ilícitas, assumem responsabilidade política objetiva pela supervisão deficiente dos fundos públicos.

 O caso Banco Master expõe, assim, uma dimensão estrutural da crise previdenciária brasileira, caracterizada pela assimetria informacional, fragilidade regulatória e subordinação dos interesses coletivos dos servidores às dinâmicas do capital financeiro.




6 Discussão

O Caso Banco Master evidencia a existência de captura institucional, conceito amplamente debatido na literatura da economia política, em que agentes privados influenciam estruturas estatais para proteção de interesses particulares.

O cruzamento entre:

capital financeiro,

sistema de justiça,

poder político,

produz um cenário típico de corrupção sistêmica, caracterizado não apenas por ilegalidades individuais, mas por redes de poder que dificultam a responsabilização.


7 Conclusão

O escândalo do Banco Master ultrapassa a categoria de fraude bancária tradicional. Trata-se de um caso emblemático de crise institucional, no qual se articulam interesses financeiros, decisões judiciais controversas e omissões regulatórias.

O caso revela:

fragilidade da governança do sistema financeiro brasileiro;

déficit de transparência no Judiciário;

vulnerabilidade de fundos públicos;

necessidade urgente de reformas institucionais e mecanismos de controle democrático.

O Caso Banco Master apresenta, até o estágio atual das investigações, um quadro de corrupção financeira com provas materiais consolidadas, concentradas principalmente na figura do empresário Daniel Vorcaro, controlador da instituição, investigado por gestão fraudulenta, organização criminosa e lavagem de dinheiro.

 No plano político, há suspeitas e indícios institucionais relevantes, envolvendo autoridades do Supremo Tribunal Federal e parlamentares citados em autos sob sigilo, porém sem denúncias criminais formalmente aceitas pela Justiça.

 As relações identificadas entre o banco e agentes públicos configuram, até o momento, potenciais conflitos de interesse, e não crimes políticos comprovados.

 Da mesma forma, não há prova jurídica de corrupção partidária ou financiamento eleitoral ilegal, existindo apenas vínculos indiretos e doações legais registradas, um dos indícios de envolvimento PL, Republicanos e PSD doações de campanha eleitoral. 

O caso, portanto, revela um padrão típico de corrupção estrutural no campo econômico, combinado com baixa responsabilização política e institucional, evidenciando os limites do sistema de controle democrático no Brasil.



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Anexo