A presente análise das inter-relações entre saúde mental, exploração ambiental e estruturas de poder na contemporaneidade, a partir dos aportes teóricos de Byung-Chul Han, Ailton Krenak, Achille Mbembe e Jean Baudrillard. Discute-se como a lógica neoliberal intensifica processos de adoecimento psíquico, como depressão, ansiedade e burnout, ao mesmo tempo em que legitima práticas de exploração ambiental e gestão da vida e da morte. A pesquisa articula tais reflexões com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), evidenciando tensões entre desenvolvimento econômico, sustentabilidade e dignidade humana. Conclui-se que a crise contemporânea é simultaneamente subjetiva, política e ecológica.
Palavras-chave: saúde mental; necropolítica; sustentabilidade; ODS; sociedade contemporânea.
1. Introdução
A contemporaneidade é marcada por múltiplas crises interligadas: psicológicas, ambientais e políticas. O aumento de transtornos como depressão e burnout reflete transformações profundas na organização do trabalho e da vida social. Paralelamente, a intensificação da exploração ambiental e a desigualdade global revelam dinâmicas de poder que determinam quem pode viver e quem pode morrer.
Nesse contexto, os ODS propõem um modelo de desenvolvimento sustentável, porém tensionado pelas contradições do capitalismo contemporâneo.
2. Sociedade do cansaço e adoecimento psíquico
Segundo Byung-Chul Han, vivemos em uma “sociedade do desempenho”, na qual o sujeito se autoexplora em nome da produtividade e do sucesso. Essa lógica substitui a coerção externa por uma pressão interna contínua.
O resultado é o aumento de doenças como depressão, ansiedade e burnout, entendidas como manifestações de uma “violência neuronal” causada pelo excesso de positividade e cobrança por desempenho .
Diferentemente das sociedades disciplinares, o indivíduo contemporâneo é simultaneamente explorador e explorado, o que intensifica o sofrimento psíquico.
3. Crítica à exploração ambiental
Ailton Krenak critica o paradigma ocidental de progresso, denunciando a separação entre humanidade e natureza. Para o autor, a crise ambiental resulta de uma visão que transforma a Terra em recurso.
Krenak propõe uma reconfiguração ontológica: reconhecer a interdependência entre seres humanos e natureza. Essa perspectiva dialoga diretamente com os ODS, especialmente:
- ODS 13 (Ação contra a mudança global do clima)
- ODS 15 (Vida terrestre)
Entretanto, o modelo econômico vigente dificulta a implementação efetiva dessas metas.
4. Necropolítica e a gestão da morte
O conceito de necropolítica, desenvolvido por Achille Mbembe, refere-se ao poder de decidir quem deve viver e quem pode morrer.
Na contemporaneidade, esse poder se manifesta:
- na desigualdade de acesso à saúde
- na violência estrutural
- na marginalização de populações vulneráveis
A necropolítica evidencia que o desenvolvimento não é neutro: ele seleciona vidas descartáveis dentro do sistema global .
Esse conceito dialoga com:
- ODS 3 (Saúde e bem-estar)
- ODS 10 (Redução das desigualdades)
5. Simulacro e a “morte do real”
Para Jean Baudrillard, vivemos em uma era de simulacros, na qual a realidade é substituída por representações e imagens.
A “morte do real” implica:
- hiper-realidade mediada por tecnologia
- perda de referenciais concretos
- alienação social
Esse fenômeno intensifica:
- o adoecimento psíquico (desconexão com o real)
- a apatia política
- a dificuldade de enfrentar crises ambientais reais
6. Articulação com os ODS
A análise integrada dos autores revela contradições estruturais nos ODS:
| Dimensão | Problema identificado | ODS relacionados |
|---|---|---|
| Saúde mental | Sociedade do desempenho e burnout | ODS 3 |
| Meio ambiente | Exploração da natureza | ODS 13, 15 |
| Política | Necropolítica e desigualdade | ODS 10 |
| Cultura | Simulação da realidade | ODS 4 (educação crítica) |
Embora os ODS proponham soluções globais, sua efetividade depende da transformação das estruturas econômicas e culturais.
7. Conclusão
A contemporaneidade configura uma crise multidimensional: psíquica, ambiental e política. A sociedade do desempenho adoece indivíduos, a exploração ambiental ameaça a vida no planeta, e a necropolítica revela a seletividade da vida no capitalismo global.
A contribuição dos autores analisados evidencia que os ODS, embora necessários, são insuficientes sem uma mudança estrutural profunda. É preciso repensar o próprio conceito de desenvolvimento, incorporando dimensões éticas, ecológicas e existenciais.
Referências
BAUDRILLARD, Jean. Simulacros e simulação. Lisboa: Relógio D’Água, 1991.
HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2017.
KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
MBEMBE, Achille. Necropolítica. São Paulo: n-1 edições, 2018.
PRADO, Kelvin Oliveira do. Biopolítica, necropolítica e psicopolítica: uma interlocução entre conceitos. Faces de Clio, 2023.
SOUZA NETO, José Marreiros de. Entre o excesso e o esgotamento: uma leitura crítica de Byung-Chul Han. Revista IEMA, 2023.
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