Está análise as relações entre cristianismo colonial, estruturas de dominação sociopolítica e a formação de uma cultura de exploração ambiental no Brasil. Parte-se da hipótese de que determinadas interpretações teológicas, especialmente durante o período colonial, foram instrumentalizadas para legitimar hierarquias raciais, econômicas e territoriais. Utiliza-se referencial da história cultural, da teologia política e da ecologia política para examinar continuidades e rupturas entre colonialidade religiosa e práticas contemporâneas de negacionismo ambiental. Argumenta-se que o problema não reside na religião em si, mas em sua apropriação ideológica em contextos de poder. Defende-se, por fim, a centralidade da laicidade do Estado e do pensamento crítico para a consolidação de uma ética socioambiental sustentável.
Palavras-chave: Cristianismo colonial; colonialidade; negacionismo ambiental; laicidade; ecologia política.
1. Introdução
A colonização portuguesa no Brasil esteve profundamente articulada à expansão do catolicismo ibérico, sob o regime do Padroado. A evangelização não foi apenas prática religiosa, mas também instrumento político de organização territorial e legitimação da ordem colonial (HOLANDA, 1995). A catequese, conduzida sobretudo pela Companhia de Jesus, integrou o projeto civilizatório europeu, contribuindo para a subordinação cultural dos povos originários.
A modernidade colonial consolidou uma racionalidade hierárquica que articulava fé, poder e exploração econômica. Tal racionalidade, segundo Aníbal Quijano (2005), estruturou a “colonialidade do poder”, perpetuando desigualdades mesmo após a independência formal.
2. Cristianismo Colonial e Legitimação da Dominação
A teologia política colonial frequentemente interpretou o mandato bíblico de “dominar a terra” (Gn 1:28) como justificativa simbólica para exploração territorial. Conforme Leonardo Boff (1995), a leitura antropocêntrica dominante reforçou uma visão utilitarista da natureza.
Entretanto, é necessário distinguir entre tradição religiosa e sua instrumentalização. O cristianismo também produziu correntes críticas, como a Teologia da Libertação, que reinterpretou a fé a partir da justiça social e da defesa dos pobres.
A crítica de Enrique Dussel (1993) demonstra que o cristianismo colonial foi incorporado à lógica eurocêntrica de expansão imperial, funcionando como aparato simbólico de legitimação.
3. Colonialidade e Negacionismo Ambiental Contemporâneo
O negacionismo ambiental contemporâneo não decorre exclusivamente da religião, mas de uma matriz cultural que naturaliza a exploração ilimitada dos recursos. Arturo Escobar (2005) aponta que o modelo desenvolvimentista latino-americano mantém traços da colonialidade, priorizando crescimento econômico sobre equilíbrio ecológico.
No Brasil, conflitos socioambientais envolvendo povos indígenas e biomas estratégicos revelam permanências estruturais dessa racionalidade. A retórica de domínio territorial e progresso econômico frequentemente se articula com discursos religiosos conservadores, produzindo resistência à agenda climática.
4. Laicidade do Estado e Pensamento Crítico
A Constituição brasileira de 1988 estabelece a laicidade estatal como princípio fundamental. A separação entre religião e poder político é condição para políticas públicas baseadas em evidências científicas e direitos humanos.
Autores como Boaventura de Sousa Santos (2007) defendem a necessidade de uma ecologia de saberes, capaz de integrar ciência, culturas tradicionais e ética ambiental. Nesse contexto, o pensamento crítico emerge como ferramenta para desnaturalizar estruturas herdadas da colonialidade.
5. Considerações Finais
A análise histórica indica que determinadas interpretações do cristianismo colonial foram utilizadas como suporte ideológico à dominação sociopolítica e à exploração ambiental. Contudo, não se pode reduzir o fenômeno religioso a essa função histórica. O desafio contemporâneo consiste em superar leituras fundamentalistas e promover uma ética socioambiental que reconheça interdependência ecológica, justiça social e pluralismo religioso.
A superação do negacionismo ambiental demanda não apenas políticas públicas eficazes, mas também revisão crítica de paradigmas culturais enraizados na modernidade colonial.
Referências (ABNT)
BOFF, Leonardo. Ecologia: Grito da Terra, Grito dos Pobres. São Paulo: Ática, 1995.
DUSSEL, Enrique. 1492: O Encobrimento do Outro. Petrópolis: Vozes, 1993.
ESCOBAR, Arturo. Más allá del Tercer Mundo: Globalización y Diferencia. Bogotá: Instituto Colombiano de Antropología e Historia, 2005.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 26. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. In: LANDER, Edgardo (org.). A colonialidade do saber. Buenos Aires: CLACSO, 2005.
SANTOS, Boaventura de Sousa. A Gramática do Tempo. São Paulo: Cortez, 2007.
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