terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

A construção discursiva da valorização salarial: uma análise crítica do piso estadual do Paraná frente aos pisos profissionais nacionais

Está análise criticamente a política de divulgação do piso salarial estadual do Paraná em 2026, problematizando a estratégia discursiva do governo estadual ao comparar o piso regional exclusivamente com o salário mínimo nacional. A partir de uma abordagem da economia política do trabalho e da sociologia do discurso, demonstra-se que tal comparação produz uma valorização simbólica artificial, uma vez que ignora os pisos profissionais nacionais já existentes para diversas categorias, especialmente as de nível médio, como os técnicos em enfermagem. O estudo evidencia que, embora o piso estadual do Paraná figure entre os maiores do país, ele não representa, necessariamente, ganho material real para trabalhadores que já possuem pisos nacionais superiores, revelando um processo de fetichização estatística e gestão simbólica da política pública. A malandragem é simples: compara-se o piso estadual com o salário mínimo, mas nunca com o piso real das categorias — quando se faz a comparação correta, como no caso dos técnicos em enfermagem, o “maior piso do Brasil” vira salário menor que o piso nacional da profissão. A malandragem é simples: compara-se o piso estadual com o salário mínimo, mas nunca com o piso real das categorias — quando se faz a comparação correta, como no caso dos técnicos em enfermagem, o “maior piso do Brasil” vira salário menor que o piso nacional da profissão.


Palavras-chave

Salário mínimo estadual; Piso salarial; Economia política do trabalho; Discurso político; Valorização simbólica; Técnicos em enfermagem.


Introdução

A política salarial constitui um dos principais instrumentos de mediação entre Estado, mercado de trabalho e reprodução social da força de trabalho. No Brasil, a existência de diferentes níveis de regulação — salário mínimo nacional, pisos estaduais e pisos profissionais — produz um campo complexo de disputas simbólicas e materiais em torno da noção de “valorização salarial”.

Em 2026, o estado do Paraná passou a ser amplamente divulgado como detentor do maior piso salarial regional do país, atingindo o valor de R$ 2.407,90. O governo estadual, sob a gestão de Carlos Massa Ratinho Junior, passou a construir uma narrativa pública de valorização histórica do trabalhador paranaense, fundamentada na comparação direta entre o piso estadual e o salário mínimo nacional, fixado em R$ 1.621,00.

Entretanto, essa forma de comparação desconsidera a existência de pisos profissionais nacionais, instituídos por legislação federal ou por convenções coletivas, que já superam amplamente tanto o salário mínimo nacional quanto os pisos estaduais. Assim, o problema central deste artigo consiste em analisar de que maneira a comparação seletiva entre indicadores produz uma valorização simbólica que não corresponde, necessariamente, à valorização material efetiva do trabalho.





A estratégia discursiva de comparação do piso estadual com o salário mínimo nacional

A análise do discurso governamental em torno da política de pisos salariais estaduais revela uma operação simbólica recorrente: a comparação sistemática entre o piso regional e o salário mínimo nacional, em detrimento da comparação com os pisos profissionais nacionais das categorias específicas. No caso do Paraná, sob o governo de Carlos Massa Ratinho Junior, essa estratégia se evidencia de forma clara na divulgação do maior piso estadual do país, fixado em R$ 2.407,90 em 2026.

Do ponto de vista estritamente técnico, a comparação com o salário mínimo nacional (R$ 1.621,00) produz um efeito comunicacional de grande impacto, sugerindo uma valorização salarial de aproximadamente 48%. No entanto, essa comparação é metodologicamente frágil e politicamente enviesada, pois ignora que diversas categorias profissionais — especialmente as de nível médio — possuem pisos salariais nacionais próprios, definidos por legislação federal ou por convenções coletivas.

O caso dos técnicos em enfermagem é emblemático. Desde a promulgação da Lei nº 14.434/2022, essa categoria possui piso salarial nacional de R$ 3.325,00, valor que supera em mais de 900 reais o teto do piso estadual do Paraná. Portanto, ao comparar o piso regional apenas com o salário mínimo nacional, o discurso oficial oculta o fato de que, para categorias estratégicas, o piso estadual não representa ganho real algum, pois já é inferior ao piso profissional nacional obrigatório.

Essa operação discursiva pode ser interpretada como uma forma de fetichização estatística, na qual um dado verdadeiro (o piso estadual é maior que o salário mínimo) é utilizado fora de seu contexto estrutural, produzindo uma percepção social distorcida. Trata-se de um mecanismo típico do que a literatura da economia política denomina de gestão simbólica da política pública, isto é, quando indicadores são mobilizados mais como instrumentos de legitimação política do que como parâmetros analíticos rigorosos.

Do ponto de vista sociológico, essa estratégia reforça uma assimetria informacional entre Estado e trabalhadores, pois desloca o eixo do debate: em vez de discutir se o piso estadual é suficiente frente ao custo de vida e frente aos pisos profissionais reais, o governo constrói a narrativa da “valorização” a partir de uma base comparativa artificialmente rebaixada, o salário mínimo nacional.

Assim, a chamada “valorização histórica” do piso estadual do Paraná opera, em grande medida, como uma valorização simbólica, eficaz no plano da comunicação política, mas limitada no plano material para categorias que já conquistaram pisos nacionais mais elevados por meio de lutas sindicais e legislação federal, como ocorre no setor da saúde.


Conclusão

A análise evidencia que a política de comunicação do piso estadual do Paraná opera fundamentalmente por meio de uma estratégia de deslocamento comparativo: ao tomar o salário mínimo nacional como único parâmetro, o governo produz um efeito discursivo de valorização que não se sustenta quando confrontado com os pisos profissionais reais das categorias.

No caso dos técnicos em enfermagem, por exemplo, o piso salarial nacional já ultrapassa significativamente o teto do piso estadual paranaense, o que demonstra que a política estadual não gera qualquer ganho material adicional para essa categoria. A chamada “valorização” revela-se, portanto, predominantemente simbólica, funcionando como instrumento de legitimação política e não como mecanismo efetivo de redistribuição de renda.

Conclui-se que a comparação entre pisos salariais deve ser metodologicamente situada no interior da estrutura real do mercado de trabalho. Comparações abstratas, baseadas em indicadores artificialmente rebaixados, contribuem para a produção de uma percepção social distorcida e reforçam assimetrias informacionais entre Estado e trabalhadores.

Quando o governo compara piso estadual com salário mínimo, mas ignora o piso real das categorias, não está valorizando o trabalhador — está apenas produzindo valorização simbólica para consumo político.



Referências bibliográficas 

BRASIL. Lei nº 14.434, de 4 de agosto de 2022. Institui o piso salarial nacional do enfermeiro, do técnico de enfermagem, do auxiliar de enfermagem e da parteira. Diário Oficial da União: Brasília, 2022.

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