quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Como funcionam as narrativas dos anacronismos da extrema esquerda e da extrema direita? Resumo

A presente análise crítica das narrativas políticas anacrônicas mobilizadas tanto pela extrema direita quanto pela extrema esquerda no contexto contemporâneo, com ênfase no cenário político brasileiro. Parte-se do pressuposto de que tais correntes recorrem a categorias históricas deslocadas de seu tempo original para interpretar a realidade atual, simplificando fenômenos complexos e instrumentalizando afetos como medo, ressentimento e nostalgia. A extrema direita fundamenta-se em discursos moralistas, conspiratórios e anticientíficos, amplificados por fake news e fisiologismo partidário, enquanto a extrema esquerda mantém leituras revolucionárias clássicas que desconsideram as transformações do capitalismo global, do Estado e da democracia. Em contraste, a social-democracia e os campos progressistas buscam mediações institucionais e respostas pragmáticas, embora enfrentem limites estruturais. Conclui-se que o anacronismo narrativo constitui um obstáculo à interpretação crítica da realidade e ao fortalecimento democrático. 

  Palavras-chave Anacronismo político; extrema direita; extrema esquerda; fake news; democracia; ideologia. 

 Introdução
 As disputas políticas contemporâneas são cada vez mais estruturadas por narrativas simplificadoras que recorrem a categorias históricas deslocadas de seus contextos originais. 
Esses anacronismos políticos operam como instrumentos ideológicos que reduzem a complexidade social, produzem identidades rígidas e oferecem explicações fáceis para crises econômicas, culturais e institucionais. 
No Brasil, tais narrativas são particularmente visíveis nos discursos da extrema direita e da extrema esquerda, que, apesar de antagonistas, compartilham estratégias retóricas semelhantes: maniqueísmo, negação de mediações institucionais e rejeição do conhecimento científico crítico. 
Este estudo o tem como objetivo analisar como essas narrativas são construídas, quais seus fundamentos ideológicos e quais impactos produzem na democracia e no debate público.
A extrema direita vive no passado glorioso que nunca existiu. E a extrema esquerda vive no futuro revolucionário que nunca chega.
Uma idolatra a ditadura como se fosse solução mágica. A outra trata a revolução como se fosse receita de bolo.
Ambas odeiam a ciência quando ela atrapalha a ideologia. Ambas explicam o mundo com teorias simples para problemas complexos.
Uma grita “Deus, pátria e família”. E a outra grita “luta de classes ou nada”.
No meio, a realidade continua funcionando sem pedir autorização. E a democracia apanha dos dois lados ao mesmo tempo.



 1. Extrema direita / ultra-direita fundamentalista: bolsonarismo, fisiologismo e fake news 
A extrema direita contemporânea brasileira articula elementos do fundamentalismo religioso, do autoritarismo político, do nacionalismo moral e do negacionismo científico. 
No caso do bolsonarismo, observa-se uma leitura anacrônica do passado, idealizando a ditadura militar como sinônimo de ordem, moralidade e prosperidade, ignorando evidências históricas de repressão, censura e violação de direitos humanos. Partidos como PL, Republicanos, Novo, PSD, PP e PTB operam, em maior ou menor grau, dentro de uma lógica fisiológica, na qual o discurso ideológico serve como instrumento para a captura do Estado, distribuição de cargos e manutenção de poder. 
As fake news cumprem papel central nesse processo, criando realidades paralelas baseadas em teorias conspiratórias (marxismo cultural, fraude eleitoral, ciência como ideologia), que reforçam identidades políticas fechadas e hostis ao diálogo democrático. Essas narrativas são anacrônicas porque utilizam categorias da Guerra Fria e do anticomunismo clássico para interpretar uma sociedade marcada por globalização financeira, revolução digital e novas formas de desigualdade. 



1.1 Direita neoliberal e privatizações: o caso do Partido Novo 
A direita neoliberal, representada de forma mais explícita pelo Partido Novo, constrói sua narrativa a partir da idealização do mercado como instância racional e moralmente superior ao Estado.
 O anacronismo reside na importação acrítica de modelos econômicos dos anos 1980 e 1990, desconsiderando os efeitos sociais das privatizações irrestritas, da financeirização da economia e do enfraquecimento das políticas públicas. 
Embora se apresente como técnica e moderna, essa narrativa ignora evidências empíricas sobre o papel do Estado no desenvolvimento, na redução das desigualdades e na regulação de crises, reforçando uma visão simplista de eficiência econômica dissociada da realidade social brasileira. 


2. Extrema esquerda revolucionária: PCB, UP, PSTU, PCO 
A extrema esquerda, por sua vez, mantém uma leitura revolucionária clássica, fortemente baseada em interpretações do marxismo do início do século XX. Partidos como PCB, UP, PSTU e PCO operam com categorias como “ditadura do proletariado”, “colapso inevitável do capitalismo” e “revolução iminente”, frequentemente desconectadas das transformações contemporâneas do trabalho, da tecnologia e da subjetividade social. 
O anacronismo manifesta-se na recusa das instituições democráticas como espaços legítimos de disputa e na subestimação das conquistas sociais obtidas por meio de reformas graduais. 
Ao reduzir a política a uma lógica binária entre revolução e traição, essas narrativas acabam se isolando socialmente e perdendo capacidade de diálogo com a classe trabalhadora real, hoje fragmentada, precarizada e plural.


 3. Social-democracia e campos progressistas: PT, PCdoB, PSB, PV e Rede 
Em contraste com os extremos, a social-democracia e os campos progressistas, representados por PT, PCdoB, PSB, PV e Rede, buscam articular justiça social, democracia representativa e regulação do mercado.
 Suas narrativas reconhecem os limites do capitalismo, mas apostam em políticas públicas, direitos sociais e participação institucional como caminhos possíveis de transformação. 
Apesar disso, esses campos enfrentam desafios estruturais, como a pressão do mercado financeiro, o avanço do conservadorismo cultural e a fragmentação das bases sociais. 
Ainda assim, diferenciam-se por evitar anacronismos radicais, dialogando com evidências científicas, dados empíricos e experiências históricas recentes.


 4. Conclusão 
As narrativas anacrônicas da extrema direita e da extrema esquerda operam como obstáculos à compreensão crítica da realidade contemporânea. Ao recorrerem a categsorias deslocadas no tempo, ambas simplificam fenômenos complexos, negam mediações institucionais e enfraquecem o debate democrático. Enquanto a extrema direita instrumentaliza o medo e a desinformação para legitimar projetos autoritários, a extrema esquerda permanece presa a modelos revolucionários que ignoram as transformações sociais do século XXI. O fortalecimento da democracia exige superar esses anacronismos, promovendo análises históricas rigorosas, compromisso com a ciência e abertura ao pluralismo político. 


5. Referências bibliográficas 
 BOBBIO, Norberto. Direita e esquerda: razões e significados de uma distinção política. São Paulo: UNESP, 1995.
 CHAUÍ, Marilena. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 2000. 
DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2016. 
EAGLETON, Terry. Ideologia: uma introdução. São Paulo: Boitempo, 1997. 
LEVITSKY, Steven; ZIBLATT, Daniel. Como as democracias morrem. Rio de Janeiro: Zahar, 2018. MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. O manifesto do partido comunista. São Paulo: Boitempo, 2010. SANTOS, Boaventura de Sousa. A difícil democracia: reinventar as esquerdas. São Paulo: Boitempo, 2016.















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