A presente análise crítica das narrativas políticas anacrônicas
mobilizadas tanto pela extrema direita quanto pela extrema esquerda no contexto
contemporâneo, com ênfase no cenário político brasileiro. Parte-se do
pressuposto de que tais correntes recorrem a categorias históricas deslocadas de
seu tempo original para interpretar a realidade atual, simplificando fenômenos
complexos e instrumentalizando afetos como medo, ressentimento e nostalgia. A
extrema direita fundamenta-se em discursos moralistas, conspiratórios e
anticientíficos, amplificados por fake news e fisiologismo partidário, enquanto
a extrema esquerda mantém leituras revolucionárias clássicas que desconsideram
as transformações do capitalismo global, do Estado e da democracia. Em
contraste, a social-democracia e os campos progressistas buscam mediações
institucionais e respostas pragmáticas, embora enfrentem limites estruturais.
Conclui-se que o anacronismo narrativo constitui um obstáculo à interpretação
crítica da realidade e ao fortalecimento democrático.
Palavras-chave Anacronismo
político; extrema direita; extrema esquerda; fake news; democracia; ideologia.
Introdução
As disputas políticas contemporâneas são cada vez mais estruturadas
por narrativas simplificadoras que recorrem a categorias históricas deslocadas
de seus contextos originais.
Esses anacronismos políticos operam como
instrumentos ideológicos que reduzem a complexidade social, produzem identidades
rígidas e oferecem explicações fáceis para crises econômicas, culturais e
institucionais.
No Brasil, tais narrativas são particularmente visíveis nos
discursos da extrema direita e da extrema esquerda, que, apesar de antagonistas,
compartilham estratégias retóricas semelhantes: maniqueísmo, negação de
mediações institucionais e rejeição do conhecimento científico crítico.
Este estudo o tem como objetivo analisar como essas narrativas são construídas, quais
seus fundamentos ideológicos e quais impactos produzem na democracia e no debate
público.
A extrema direita vive no passado glorioso que nunca existiu. E a extrema esquerda vive no futuro revolucionário que nunca chega.
Uma idolatra a ditadura como se fosse solução mágica. A outra trata a revolução como se fosse receita de bolo.
Ambas odeiam a ciência quando ela atrapalha a ideologia. Ambas explicam o mundo com teorias simples para problemas complexos.
Uma grita “Deus, pátria e família”. E a outra grita “luta de classes ou nada”.
No meio, a realidade continua funcionando sem pedir autorização. E a democracia apanha dos dois lados ao mesmo tempo.
1. Extrema direita / ultra-direita fundamentalista: bolsonarismo,
fisiologismo e fake news
A extrema direita contemporânea brasileira articula
elementos do fundamentalismo religioso, do autoritarismo político, do
nacionalismo moral e do negacionismo científico.
No caso do bolsonarismo,
observa-se uma leitura anacrônica do passado, idealizando a ditadura militar
como sinônimo de ordem, moralidade e prosperidade, ignorando evidências
históricas de repressão, censura e violação de direitos humanos. Partidos como
PL, Republicanos, Novo, PSD, PP e PTB operam, em maior ou menor grau, dentro de
uma lógica fisiológica, na qual o discurso ideológico serve como instrumento
para a captura do Estado, distribuição de cargos e manutenção de poder.
As fake
news cumprem papel central nesse processo, criando realidades paralelas baseadas
em teorias conspiratórias (marxismo cultural, fraude eleitoral, ciência como
ideologia), que reforçam identidades políticas fechadas e hostis ao diálogo
democrático. Essas narrativas são anacrônicas porque utilizam categorias da
Guerra Fria e do anticomunismo clássico para interpretar uma sociedade marcada
por globalização financeira, revolução digital e novas formas de desigualdade.
1.1 Direita neoliberal e privatizações: o caso do Partido Novo
A direita
neoliberal, representada de forma mais explícita pelo Partido Novo, constrói sua
narrativa a partir da idealização do mercado como instância racional e
moralmente superior ao Estado.
O anacronismo reside na importação acrítica de
modelos econômicos dos anos 1980 e 1990, desconsiderando os efeitos sociais das
privatizações irrestritas, da financeirização da economia e do enfraquecimento
das políticas públicas.
Embora se apresente como técnica e moderna, essa
narrativa ignora evidências empíricas sobre o papel do Estado no
desenvolvimento, na redução das desigualdades e na regulação de crises,
reforçando uma visão simplista de eficiência econômica dissociada da realidade
social brasileira.
2. Extrema esquerda revolucionária: PCB, UP, PSTU, PCO
A
extrema esquerda, por sua vez, mantém uma leitura revolucionária clássica,
fortemente baseada em interpretações do marxismo do início do século XX.
Partidos como PCB, UP, PSTU e PCO operam com categorias como “ditadura do
proletariado”, “colapso inevitável do capitalismo” e “revolução iminente”,
frequentemente desconectadas das transformações contemporâneas do trabalho, da
tecnologia e da subjetividade social.
O anacronismo manifesta-se na recusa das
instituições democráticas como espaços legítimos de disputa e na subestimação
das conquistas sociais obtidas por meio de reformas graduais.
Ao reduzir a
política a uma lógica binária entre revolução e traição, essas narrativas acabam
se isolando socialmente e perdendo capacidade de diálogo com a classe
trabalhadora real, hoje fragmentada, precarizada e plural.
3. Social-democracia
e campos progressistas: PT, PCdoB, PSB, PV e Rede
Em contraste com os extremos,
a social-democracia e os campos progressistas, representados por PT, PCdoB, PSB,
PV e Rede, buscam articular justiça social, democracia representativa e
regulação do mercado.
Suas narrativas reconhecem os limites do capitalismo, mas
apostam em políticas públicas, direitos sociais e participação institucional
como caminhos possíveis de transformação.
Apesar disso, esses campos enfrentam
desafios estruturais, como a pressão do mercado financeiro, o avanço do
conservadorismo cultural e a fragmentação das bases sociais.
Ainda assim,
diferenciam-se por evitar anacronismos radicais, dialogando com evidências
científicas, dados empíricos e experiências históricas recentes.
4. Conclusão
As
narrativas anacrônicas da extrema direita e da extrema esquerda operam como
obstáculos à compreensão crítica da realidade contemporânea. Ao recorrerem a
categsorias deslocadas no tempo, ambas simplificam fenômenos complexos, negam
mediações institucionais e enfraquecem o debate democrático. Enquanto a extrema
direita instrumentaliza o medo e a desinformação para legitimar projetos
autoritários, a extrema esquerda permanece presa a modelos revolucionários que
ignoram as transformações sociais do século XXI. O fortalecimento da democracia
exige superar esses anacronismos, promovendo análises históricas rigorosas,
compromisso com a ciência e abertura ao pluralismo político.
5. Referências
bibliográficas
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significados de uma distinção política. São Paulo: UNESP, 1995.
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DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. A
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2016.
EAGLETON, Terry. Ideologia: uma introdução. São Paulo: Boitempo, 1997.
LEVITSKY, Steven; ZIBLATT, Daniel. Como as democracias morrem. Rio de Janeiro:
Zahar, 2018. MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. O manifesto do partido comunista.
São Paulo: Boitempo, 2010. SANTOS, Boaventura de Sousa. A difícil democracia:
reinventar as esquerdas. São Paulo: Boitempo, 2016.

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