sábado, 21 de fevereiro de 2026

A LIBERTAÇÃO COMO AUTOSSUPERAÇÃO EM Friedrich Nietzsche: CRÍTICA À MORAL E AFIRMAÇÃO DA VIDA

A presente análise do conceito de libertação na filosofia de Friedrich Nietzsche, compreendendo-o como processo de autossuperação e afirmação da vida. A partir de obras centrais do autor, discute-se a crítica à moral tradicional, a noção de vontade de potência e o ideal do além-do-homem como horizonte de emancipação. Argumenta-se que, para Nietzsche, libertar-se não significa aderir a um ideal universal, mas romper com valores herdados e criar novos modos de existência. A pesquisa adota abordagem teórico-bibliográfica, fundamentada em textos do próprio autor e em comentadores contemporâneos. Inspirado em Friedrich Nietzsche, o primeiro passo é romper com a moral seletiva que julga conforme interesses. O “golpe de martelo” questiona o culto cego à razão e a religião usada como instrumento político. Em diálogo com Karl Marx, revela-se que a dominação também é estrutural. Libertar-se exige crítica da ideologia e consciência das relações de poder.


Palavras-chave: libertação; autossuperação; moral; vontade de potência; emancipação.



1. Introdução

A temática da libertação ocupa lugar central na tradição filosófica ocidental. Em Nietzsche, contudo, ela assume um caráter singular: não se trata de emancipação política nos moldes modernos, nem de salvação metafísica, mas de libertação do indivíduo frente às estruturas morais, religiosas e culturais que limitam sua potência criadora. Sua crítica à moral cristã e à metafísica ocidental inaugura uma perspectiva genealógica que busca desnaturalizar valores considerados universais.

Assim, este estudo investiga como a libertação, em Nietzsche, está vinculada à superação da moral do ressentimento e à afirmação trágica da existência.

Para Friedrich Nietzsche, a libertação consiste na ruptura com valores impostos historicamente e na criação de novos sentidos para a existência.
Ela se realiza como autossuperação, expressão da vontade de potência e afirmação da vida.
Libertar-se é tornar-se autor de si mesmo, superando o ressentimento e afirmando a própria força criadora.

Para Friedrich Nietzsche, libertação não é seguir regras prontas, mas romper com valores impostos e criar novos sentidos para a própria vida. É autossuperação, coragem de pensar diferente e afirmar a existência sem culpa ou medo. Libertar-se é tornar-se quem se é, assumindo a responsabilidade de transformar a própria trajetória em obra de criação e potência.

A hermenêutica crítica de Friedrich Nietzsche foca no indivíduo e na origem dos valores morais, propondo a autossuperação e a criação de si mesmo. Já Karl Marx analisa a moralidade a partir das relações de produção e da luta de classes, enfatizando a transformação social coletiva. Nietzsche vê a libertação como expressão da vontade de poder; Marx, como mudança das estruturas sociais que geram desigualdade. Ambos criticam a moral tradicional, mas por perspectivas distintas. A comparação evidencia a tensão entre liberdade individual e emancipação coletiva.


2. Crítica à Moral e Genealogia dos Valores

Em Genealogia da Moral, Nietzsche propõe investigar a origem histórica dos valores morais. Ele distingue entre moral dos senhores e moral dos escravos, indicando que esta última, marcada pelo ressentimento, transformou fraqueza em virtude e força em pecado. A libertação, nesse contexto, implica romper com valores impostos historicamente e reconhecer sua origem contingente.

A genealogia nietzschiana não destrói valores apenas para negá-los, mas para abrir espaço à criação de novos critérios afirmativos. Libertar-se, portanto, é desfazer-se da culpa e do ideal ascético que negam a vida.


3. Vontade de Potência e Autossuperação

A noção de vontade de potência constitui eixo interpretativo fundamental. Para Nietzsche, a vida é essencialmente expansão, crescimento e intensificação de forças. A libertação é o processo pelo qual o indivíduo assume sua potência criadora, superando limites impostos por convenções morais e sociais.

A célebre máxima “Torna-te quem tu és” expressa esse movimento de autoconstrução. Não há essência pré-determinada, mas um projeto contínuo de criação de si. O ideal do além-do-homem (Übermensch), apresentado em Assim Falou Zaratustra, simboliza esse horizonte de superação.


4. Libertação e Afirmação Trágica da Vida

Diferentemente de concepções que vinculam libertação à negação do mundo, Nietzsche propõe uma afirmação trágica da existência. O conceito de eterno retorno representa a prova máxima da liberdade: afirmar a vida tal como ela é, inclusive em sua dor e contingência.

Libertar-se, nesse sentido, é abandonar ilusões metafísicas e assumir responsabilidade pela criação de valores. A emancipação nietzschiana é estética e ética, pois transforma a vida em obra de arte.


5. Hermenêutica Crítica: Nietzsche e Marx

A hermenêutica crítica de Friedrich Nietzsche e Karl Marx evidencia diferentes abordagens sobre moralidade, poder e libertação. Nietzsche desenvolve uma crítica genealógica, examinando a origem dos valores morais e revelando como estes reprimem a força vital e a criatividade individual. Sua análise enfatiza a vontade de poder e a construção de si mesmo, questionando a universalidade dos valores e defendendo a autossuperação como forma de emancipação (NIETZSCHE, 2009; NIETZSCHE, 2011).

Marx, por sua vez, propõe uma hermenêutica materialista-dialética, na qual a moral e a consciência são determinadas pelas condições materiais e econômicas da sociedade. A moralidade reflete as relações de produção e os interesses de classe, sendo a emancipação alcançada por meio da transformação coletiva da sociedade e da superação das desigualdades estruturais (MARX, 1983; MARX; ENGELS, 2010).

A comparação evidencia que, enquanto Nietzsche centra-se no indivíduo e na criação de valores próprios, Marx focaliza nas estruturas sociais e econômicas que condicionam a vida humana. Assim, a libertação, para Nietzsche, é autossuperação; para Marx, é luta coletiva e transformação social.





Considerações Finais

A libertação em Nietzsche não se confunde com projetos universalistas ou utopias sociais. Trata-se de processo individual de autossuperação, no qual o sujeito rompe com a moral do ressentimento e afirma sua potência criadora. Ao propor a transvaloração dos valores, Nietzsche inaugura uma concepção radical de emancipação baseada na criação, na responsabilidade e na afirmação da vida.

Sua filosofia permanece atual ao questionar estruturas normativas que limitam a autonomia humana, oferecendo horizonte crítico para pensar liberdade além dos paradigmas tradicionais.

É possível estruturar esse argumento em três movimentos críticos, inspirados na noção de “filosofar a marteladas” de Friedrich Nietzsche.

Primeiro passo: libertar-se da moralidade hipócrita. A crítica genealógica revela que muitos discursos morais não expressam valores universais, mas interesses travestidos de virtude. A acusação seletiva de corrupção ou pureza política pode funcionar como mecanismo de poder simbólico.

Segundo passo: aplicar o “golpe de martelo” ao culto abstrato da razão e à religião instrumentalizada. Quando a religião se afasta de seus fundamentos éticos e passa a legitimar projetos de poder, ela deixa de ser prática espiritual e torna-se ideologia.

Terceiro passo: evidenciar onde estão a dominação e a exploração. Em diálogo com Karl Marx, a crítica amplia-se para as estruturas materiais que sustentam desigualdades e moldam consciências.

Conclui-se que a libertação exige superar tanto a moral seletiva quanto a alienação ideológica, articulando crítica cultural e análise das relações de poder, a fim de promover uma consciência mais autônoma e socialmente responsável.

Com a contribuição de Marlon em anexo, o texto ganha densidade teórica. Friedrich Nietzsche não buscava debates ideológicos partidários, mas uma crítica radical aos fundamentos da moral e da verdade. 

Michel Foucault retoma essa inspiração para analisar a sociedade disciplinar e os mecanismos de poder que moldam corpos e condutas.

Já Byung-Chul Han, coreano radicado na Alemanha, amplia a crítica ao descrever a sociedade do desempenho, marcada pela autoexploração e pelo esgotamento.


Referências Bibliográficas

NIETZSCHE, Friedrich. Assim falou Zaratustra. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da moral. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

NIETZSCHE, Friedrich. Além do bem e do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

DELEUZE, Gilles. Nietzsche e a filosofia. Rio de Janeiro: Rio, 1976.

HEIDEGGER, Martin. Nietzsche. São Paulo: Forense Universitária, 2007.

MARX, Karl. Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. São Paulo: Abril Cultural, 1983.

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. São Paulo: Abril Cultural, 2010.

NIETZSCHE, Friedrich. Além do Bem e do Mal. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da Moral. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

NIETZSCHE, Friedrich. Assim Falou Zaratustra. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

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Anexo Contribuição de Marlon 

Nietzsche reduz a moralidade à vontade de poder e ao individualismo extremo. Sob uma lente marxista, isso ignora as estruturas de classe e a exploração econômica que moldam a sociedade.

O conceito de vontade de poder de Nietzsche parece desconsiderar que as condições materiais de vida, como a propriedade e o controle dos meios de produção, determinam as relações sociais e a consciência do indivíduo. Não é apenas uma questão de indivíduos fortes ou fracos, mas de classes em conflito. 

Além disso, a crítica de Nietzsche à moralidade pode ser vista como uma forma de legitimar a ideologia burguesa, que mascara as desigualdades sociais dizendo que são formas de seleção natural, meritocracia ou sobrevivência do mais forte.

 Em vez de enfatizar o individualismo, uma leitura com base materialista-dialética, diria que a verdadeira transformação vem da luta coletiva das classes oprimidas. A moralidade deve ser entendida no contexto das relações de produção e da luta de classes, não como uma questão de vontade individual.





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