quinta-feira, 5 de novembro de 2026

DEMOCRACIA INTERNA, PERSONALISMO E OLIGARQUIZAÇÃO PARTIDÁRIA: uma análise crítica dos desafios organizacionais do Partido dos Trabalhadores em Santa Catarina

A presente análise sobre os desafios da democracia interna nas organizações partidárias, tomando como referência o Partido dos Trabalhadores (PT) em Santa Catarina. A investigação aborda a concentração de poder nas estruturas dirigentes, o personalismo político, a possível formação de grupos de influência e os limites impostos à participação crítica da militância. Parte-se da compreensão de que os partidos políticos devem constituir espaços permanentes de participação democrática, formação política, representação coletiva e pluralidade ideológica. O referencial teórico fundamenta-se nas contribuições de Robert Michels, Angelo Panebianco, Max Weber, Pierre Bourdieu e Victor Nunes Leal. Metodologicamente, desenvolve-se uma pesquisa qualitativa, exploratória e bibliográfica, complementada por uma proposta de análise documental dos estatutos, resoluções, atas e processos de composição das direções partidárias. Considera-se que a concentração decisória, quando não acompanhada de mecanismos efetivos de participação e alternância, pode produzir distanciamento entre a militância e as instâncias dirigentes, enfraquecendo a capacidade democrática da organização. Conclui-se pela necessidade de ampliar os mecanismos de transparência, participação, debate interno e autonomia das bases partidárias.

Palavras-chave: Democracia interna. Partido dos Trabalhadores. Personalismo político. Oligarquização partidária. Militância política.

1 INTRODUÇÃO

Os partidos políticos constituem instituições fundamentais para o funcionamento da democracia representativa. Sua função não deve estar limitada à apresentação de candidaturas, à disputa eleitoral e à ocupação de cargos públicos. São também espaços de organização social, elaboração de projetos coletivos, formação de lideranças, participação popular e construção de alternativas políticas.

Historicamente, o Partido dos Trabalhadores surgiu associado à mobilização de trabalhadores, movimentos sociais, organizações populares, setores intelectuais e diferentes correntes da esquerda brasileira. Sua identidade política foi construída em torno da participação de diferentes segmentos sociais e da organização coletiva de sua militância.

Entretanto, a institucionalização de uma organização partidária pode produzir transformações em suas relações internas de poder. A profissionalização das estruturas dirigentes, a centralização das decisões e a consolidação de lideranças políticas podem alterar a relação entre as bases e os órgãos de direção.

Nesse contexto, apresenta-se uma questão relevante para a Ciência Política: em que medida um partido historicamente constituído pela participação popular consegue preservar sua democracia interna diante dos processos de institucionalização, personalização e concentração do poder?

A discussão ganha relevância quando direcionada à realidade organizacional do PT em Santa Catarina, considerando questionamentos sobre a autonomia da militância, a participação das tendências internas, a renovação das direções e a possibilidade de crítica às lideranças.

A expressão política de que o PT catarinense estaria se transformando em uma organização dominada por determinados grupos de influência, inclusive familiares, constitui uma percepção crítica que precisa ser confrontada com evidências documentais e institucionais.

Não se pretende antecipar conclusões sobre pessoas ou famílias, mas investigar os mecanismos pelos quais o poder partidário é constituído, reproduzido e legitimado.

O personalismo político e a concentração familiar de poder representam riscos à democracia interna do PT em Santa Catarina.

Essa dinâmica pode enfraquecer a participação da militância, limitar o pluralismo e dificultar a renovação das lideranças.

Também pode comprometer a construção de uma unidade democrática entre PT, PCdoB, PV, PSOL, Rede, PDT, PSB, PSTU, UP, PCB e PCO.

A unidade do campo progressista exige diálogo, respeito às diferenças, transparência e decisões coletivas.

Menos personalismo, mais democracia interna e participação popular para fortalecer um projeto progressista em Santa Catarina.


2 PROBLEMA DE PESQUISA

Em que medida a concentração de poder, o personalismo político e a possível formação de grupos de influência nas estruturas dirigentes do Partido dos Trabalhadores em Santa Catarina podem comprometer a democracia interna, a autonomia da militância e a pluralidade ideológica da organização partidária?

3 HIPÓTESE

Parte-se da hipótese de que a concentração prolongada das decisões em determinados grupos dirigentes pode reduzir a participação efetiva da militância, enfraquecer a autonomia das tendências internas e transformar a organização partidária em uma estrutura predominantemente orientada pela manutenção de espaços institucionais e eleitorais.

Considera-se, ainda, que a ausência de mecanismos efetivos de contestação, transparência e alternância pode favorecer práticas personalistas, dificultando a renovação política e a construção coletiva das decisões.

Essa hipótese deverá ser examinada por meio de pesquisa documental e empírica, não sendo apresentada como resultado já comprovado sobre o PT catarinense.

4 OBJETIVOS

4.1 Objetivo geral

Analisar criticamente os desafios da democracia interna do Partido dos Trabalhadores em Santa Catarina, investigando possíveis processos de personalismo, concentração de poder, oligarquização partidária e enfraquecimento da participação da militância.

4.2 Objetivos específicos

a) Examinar os fundamentos históricos e organizacionais da democracia interna nos partidos políticos;

b) Investigar a relação entre as estruturas dirigentes e a participação das bases partidárias;

c) Analisar os efeitos do personalismo político sobre a autonomia da militância;

d) Compreender as contribuições da teoria da oligarquização para o estudo das organizações partidárias;

e) Investigar possíveis relações entre concentração de poder, grupos familiares e estruturas de influência política;

f) Identificar mecanismos institucionais capazes de ampliar a transparência, a participação e a alternância nas direções partidárias.

5 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

5.1 A lei de ferro da oligarquia e a concentração do poder

Robert Michels (1982), em sua análise sociológica das organizações partidárias, apresenta a chamada lei de ferro da oligarquia. O autor investiga como organizações inicialmente constituídas por princípios democráticos podem desenvolver estruturas internas nas quais o poder passa a ser concentrado em grupos dirigentes.

A complexidade administrativa, o controle das informações, a especialização das funções e a profissionalização das lideranças podem produzir distanciamento entre dirigentes e militantes.

Essa contribuição permite compreender que a existência de eleições internas e estatutos democráticos não garante, isoladamente, a participação efetiva dos filiados.

A questão central consiste em verificar se os militantes possuem condições reais de influenciar as decisões, apresentar divergências, disputar espaços de direção e participar da definição dos projetos políticos.

No caso do PT em Santa Catarina, essa perspectiva permite formular uma investigação sobre a relação entre a estrutura formal do partido e o funcionamento efetivo de suas instâncias.

5.2 Personalismo político e dominação

Max Weber (1999) contribui para compreender as formas de dominação e legitimidade presentes nas organizações sociais e políticas.

A dominação carismática, baseada no reconhecimento de determinadas qualidades atribuídas a uma liderança, pode desempenhar papel importante na organização partidária.

Entretanto, quando a legitimidade de uma organização passa a depender excessivamente de determinadas figuras políticas, existe o risco de enfraquecimento dos procedimentos coletivos e das estruturas institucionais.

O personalismo político deve ser analisado, portanto, a partir das relações entre lideranças, instituições, militância e mecanismos de decisão.

Uma organização partidária democrática precisa reconhecer a importância das lideranças sem transformar sua autoridade em poder incontestável.

5.3 O poder organizacional e a burocratização partidária

Panebianco (2005) analisa os partidos políticos como organizações dotadas de estruturas de poder, recursos institucionais, relações de dependência e disputas internas.

Sua contribuição permite compreender que o controle de recursos organizacionais, informações, estruturas administrativas e espaços de representação pode influenciar a distribuição do poder dentro dos partidos.

A burocratização não representa necessariamente uma negação da democracia. Entretanto, quando os mecanismos organizacionais passam a dificultar a participação das bases, a estrutura institucional pode favorecer a reprodução de determinados grupos dirigentes.

A investigação sobre o PT catarinense pode utilizar essa perspectiva para examinar como são constituídas as direções municipais e estaduais, quais são os mecanismos de renovação e de que maneira as tendências participam das decisões.

5.4 Coronelismo, clientelismo e relações de dependência política

Victor Nunes Leal (2012), em Coronelismo, enxada e voto, apresenta uma interpretação histórica das relações entre poder local, estrutura política e dependência eleitoral no Brasil.

O coronelismo constitui um fenômeno histórico específico, relacionado à articulação entre poder privado local e estruturas políticas institucionais.

Por essa razão, sua aplicação ao estudo dos partidos contemporâneos exige rigor conceitual. Não é adequado afirmar que toda concentração de liderança ou influência familiar caracteriza automaticamente o coronelismo.

Entretanto, as categorias de mandonismo, dependência política e controle de recursos podem auxiliar na investigação de práticas clientelistas e de relações assimétricas de poder.

Assim, a eventual existência de grupos familiares com influência sobre estruturas partidárias deve ser investigada mediante dados sobre ocupação de cargos, processos decisórios, alianças, recursos e mecanismos de indicação política.

5.5 Capital político e reprodução das estruturas de poder

Pierre Bourdieu (1989) oferece instrumentos teóricos para compreender o capital político como recurso de reconhecimento, representação e influência dentro do campo político.

A distribuição desigual do capital político pode produzir relações assimétricas entre dirigentes, militantes históricos, novos filiados e movimentos sociais.

Quando determinados grupos acumulam reconhecimento, acesso institucional e capacidade de representação, podem adquirir vantagens nas disputas internas.

A questão sociológica consiste em compreender se esses recursos estão disponíveis à competição democrática ou se funcionam como mecanismos de reprodução de posições privilegiadas.

6 METODOLOGIA

A pesquisa caracteriza-se como qualitativa, exploratória, bibliográfica e documental.

O estudo bibliográfico utiliza autores clássicos e contemporâneos da Ciência Política e da Sociologia Política, especialmente Michels, Weber, Panebianco, Bourdieu e Leal.

A pesquisa documental deverá contemplar:

  • Estatuto nacional do Partido dos Trabalhadores;
  • Estatuto e resoluções do PT em Santa Catarina;
  • Atas de reuniões e congressos estaduais;
  • Composição das direções municipais e estadual;
  • Resultados dos processos de eleições internas;
  • Histórico de intervenções e formação de comissões provisórias;
  • Critérios de distribuição de recursos e representação partidária;
  • Registros de participação das tendências e dos movimentos sociais.

O recorte territorial concentra-se em Santa Catarina, com possibilidade de comparação entre diferentes municípios e períodos de gestão partidária.

Propõe-se analisar, especialmente, os processos de renovação das direções e a participação dos filiados nas decisões políticas.

A pesquisa não considera a existência de personalismo, coronelismo ou controle familiar como fatos previamente demonstrados. Essas categorias constituem dimensões analíticas que deverão ser verificadas mediante evidências documentais e entrevistas, caso a investigação empírica seja realizada.

7 DEMOCRACIA INTERNA E O DESAFIO DA PARTICIPAÇÃO DA MILITÂNCIA

A democracia partidária não pode ser compreendida exclusivamente pela realização periódica de eleições internas.

É necessário observar a qualidade da participação, a capacidade de intervenção dos filiados, a liberdade de manifestação e a possibilidade de contestação das decisões das direções.

Ribeiro (2013), ao estudar a organização e o poder nos partidos brasileiros, compara as estruturas decisórias do PMDB, PSDB, PT e PFL/DEM, considerando dois aspectos fundamentais: a inclusividade das estruturas decisórias e o grau de centralização organizacional.

O estudo demonstra a importância de examinar empiricamente as regras e os mecanismos de funcionamento das organizações partidárias, em vez de pressupor que a existência de estruturas formais assegura participação efetiva.

Essa perspectiva é particularmente relevante para investigar as relações entre a militância e as direções partidárias estaduais.

Uma questão fundamental consiste em distinguir a militância política autônoma da mobilização predominantemente eleitoral.

A militância exerce uma função política que ultrapassa a participação em campanhas. Ela deve contribuir para a elaboração programática, a fiscalização das direções, a formação política e a construção de decisões coletivas.

Quando a participação se restringe à divulgação de candidaturas, à mobilização eleitoral e à reprodução de orientações estabelecidas pelas direções, pode ocorrer um esvaziamento de sua dimensão deliberativa.

A crítica interna, nesse contexto, não deve ser interpretada automaticamente como indisciplina ou oposição à organização. Ela também pode constituir instrumento legítimo de aperfeiçoamento democrático.

8 O PERSONALISMO E A POSSÍVEL FORMAÇÃO DE GRUPOS DE INFLUÊNCIA EM SANTA CATARINA

A crítica à possível concentração do poder no PT catarinense exige uma investigação sobre os processos de constituição das direções, a circulação das lideranças e a distribuição dos espaços de representação.

A hipótese de influência de determinados grupos familiares, mencionada no debate político, deve ser submetida a critérios objetivos.

Entre os indicadores possíveis estão:

  1. Permanência prolongada de determinados grupos nas estruturas dirigentes;
  2. Repetição de relações familiares em cargos de direção e representação;
  3. Concentração de decisões em pequenos grupos;
  4. Redução da autonomia dos diretórios municipais;
  5. Dificuldades de participação de correntes minoritárias;
  6. Ausência de transparência na distribuição de responsabilidades e recursos;
  7. Limitações à manifestação de divergências políticas.

A presença de relações familiares, isoladamente, não comprova nepotismo, clientelismo ou coronelismo. A análise precisa demonstrar a existência de mecanismos de favorecimento, dependência ou controle político.

A expressão crítica de que o partido estaria se transformando em uma organização de lideranças personalizadas representa, portanto, um problema de pesquisa que exige comprovação.

O objetivo é compreender se a estrutura partidária preserva sua capacidade de incorporar diferentes experiências políticas ou se apresenta obstáculos à participação de setores de sua própria militância.

9 A CRISE DA MILITÂNCIA E A TRANSFORMAÇÃO DA PARTICIPAÇÃO POLÍTICA

A vitalidade de um partido político depende de sua capacidade de manter espaços permanentes de formação, organização e participação.

A militância não deve ser reduzida à condição de instrumento eleitoral. Sua função envolve também a elaboração de propostas, o acompanhamento das políticas públicas, a organização comunitária e o controle democrático das lideranças.

A transformação dos filiados em agentes de reprodução de decisões previamente estabelecidas pode representar uma limitação à pluralidade partidária.

Nesse sentido, a crítica à existência de comportamentos de obediência política deve ser compreendida como uma reflexão sobre a autonomia dos sujeitos coletivos.

Um partido democrático precisa permitir que seus integrantes questionem estratégias, contestem decisões e apresentem alternativas sem que essas manifestações sejam automaticamente interpretadas como ataques pessoais às lideranças.

A pluralidade interna não significa ausência de unidade política. Significa a possibilidade de construir unidade por meio do debate, da negociação e de decisões coletivas legitimadas.

10 A LEGISLAÇÃO PARTIDÁRIA E A GARANTIA DA DEMOCRACIA INTERNA

A Constituição Federal de 1988, em seu artigo 17, estabelece os fundamentos constitucionais da organização partidária e assegura autonomia aos partidos políticos para definir sua estrutura interna.

A Lei nº 9.096/1995, especialmente em seus artigos 1º, 3º, 4º, 14 e 15, estabelece parâmetros importantes para a organização e o funcionamento das agremiações.

O artigo 1º determina que os partidos políticos se destinam a assegurar, no interesse do regime democrático, a autenticidade do sistema representativo e a defesa dos direitos fundamentais.

O artigo 4º estabelece que os filiados possuem iguais direitos e deveres.

O artigo 15 determina que os estatutos estabeleçam regras relativas à organização administrativa, aos direitos dos filiados, à composição dos órgãos partidários e aos processos de escolha de seus dirigentes.

Esses dispositivos permitem sustentar que a autonomia organizacional não deve ser confundida com ausência de procedimentos democráticos.

O Tribunal Superior Eleitoral também registra entendimento sobre a necessidade de preservação da alternância de poder e dos princípios democráticos na organização partidária.

Portanto, a democracia interna precisa ser examinada não apenas pela legalidade formal dos estatutos, mas também pela efetividade dos mecanismos de participação e representação.

11 PROPOSTAS PARA O FORTALECIMENTO DA DEMOCRACIA INTERNA DO PT

A partir do referencial teórico apresentado, propõem-se medidas institucionais que podem contribuir para o fortalecimento da democracia interna:

11.1 Congresso estadual de reconstrução democrática

Realização de um congresso estadual com participação das diferentes tendências, núcleos de base, movimentos sociais e militantes independentes.

11.2 Renovação das direções partidárias

Fortalecimento dos mecanismos de alternância, renovação de lideranças e participação das bases municipais.

11.3 Transparência institucional

Publicação regular das atas, resoluções, critérios de distribuição de recursos e decisões administrativas das instâncias partidárias.

11.4 Liberdade de crítica e pluralidade

Garantia de espaços institucionais para divergências, debates e apresentação de propostas alternativas.

11.5 Formação política permanente

Criação de programas de formação que recuperem a história do partido, o pensamento socialista, a organização popular e a participação democrática.

11.6 Participação da juventude e dos movimentos sociais

Ampliação dos espaços de representação para jovens, trabalhadores, mulheres, movimentos populares e diferentes segmentos sociais.

11.7 Avaliação periódica das direções

Criação de mecanismos de prestação de contas política e organizacional, permitindo que os filiados acompanhem e avaliem o desempenho das instâncias dirigentes.

12 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A democracia interna constitui uma dimensão fundamental da identidade e da legitimidade dos partidos políticos.

O estudo das organizações partidárias demonstra que a institucionalização, a profissionalização das direções e a concentração de recursos podem produzir transformações nas relações entre dirigentes e militantes.

As contribuições de Michels, Weber, Panebianco, Bourdieu e Victor Nunes Leal oferecem instrumentos importantes para compreender os processos de concentração de poder, personalismo e reprodução de estruturas de influência.

No caso do Partido dos Trabalhadores em Santa Catarina, as críticas sobre a possível concentração das decisões, a influência de grupos políticos e o enfraquecimento da participação da militância precisam ser transformadas em questões verificáveis por meio de investigação documental e empírica.

O debate não deve ser reduzido a disputas pessoais ou divergências entre lideranças. Trata-se de investigar a qualidade da democracia organizacional e a capacidade de um partido político de preservar seus mecanismos de participação coletiva.

A militância não pode ser compreendida apenas como força de mobilização eleitoral. Ela constitui sujeito político da organização, com direito à participação, à crítica, à formação e à construção de alternativas.

A unidade partidária não pode significar uniformidade de pensamento, assim como a disciplina organizacional não deve representar a supressão do debate democrático.

Conclui-se que o fortalecimento da democracia interna depende da transparência, da alternância, da pluralidade ideológica, da autonomia dos diretórios e da participação efetiva dos filiados.

A questão central permanece: um partido que nasceu da organização coletiva dos trabalhadores consegue preservar sua identidade histórica quando a militância deixa de participar efetivamente das decisões e passa a ocupar predominantemente o espaço da mobilização eleitoral?

Essa pergunta deve orientar uma reflexão coletiva sobre o futuro das organizações partidárias e a qualidade da democracia brasileira.

REFERÊNCIAS

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BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989.

BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988.

BRASIL. Lei nº 9.096, de 19 de setembro de 1995. Dispõe sobre partidos políticos. Brasília, DF: Presidência da República, 1995.

DAHL, Robert A. Poliarquia: participação e oposição. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1997.

DUVERGER, Maurice. Os partidos políticos. Rio de Janeiro: Guanabara, 1987.

LEAL, Victor Nunes. Coronelismo, enxada e voto: o município e o regime representativo no Brasil. 7. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

MICHELS, Robert. Sociologia dos partidos políticos. Brasília, DF: Editora Universidade de Brasília, 1982.

PANEBIANCO, Angelo. Modelos de partidos: organização e poder nos partidos políticos. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

RIBEIRO, Pedro Floriano. Organização e poder nos partidos brasileiros: uma análise dos estatutos. Revista Brasileira de Ciência Política, Brasília, n. 10, p. 225-265, jan./abr. 2013. DOI: https://doi.org/10.1590/S0103-33522013000100007.

WEBER, Max. Economia e sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva. Brasília, DF: Editora Universidade de Brasília, 1999.

DOCUMENTOS INSTITUCIONAIS PARA A PESQUISA DOCUMENTAL

PARTIDO DOS TRABALHADORES. Estatuto do Partido dos Trabalhadores. Aprovado em 1º jun. 2023. Brasília, DF: PT, 2023.

TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL. Lei dos Partidos Políticos: Lei nº 9.096, de 19 de setembro de 1995. Brasília, DF: TSE.



13 O RISCO DO PERSONALISMO POLÍTICO E DA CONCENTRAÇÃO FAMILIAR DE PODER NA CONSTRUÇÃO DA UNIDADE DO CAMPO PROGRESSISTA EM SANTA CATARINA

13.1 Personalismo político e os limites da construção de uma frente progressista

A construção de uma unidade política entre as organizações progressistas de Santa Catarina representa um desafio que ultrapassa os calendários eleitorais e as negociações de candidaturas. Trata-se de estabelecer condições políticas e institucionais para a cooperação entre diferentes tradições da esquerda, movimentos sociais, organizações populares e setores comprometidos com a democracia e os direitos sociais.

Nesse contexto, torna-se necessário examinar criticamente os riscos associados ao personalismo político, à concentração das decisões e à possível formação de estruturas de influência familiar nas organizações partidárias.

A discussão sobre a influência política da família Lima no cenário catarinense deve ser tratada como objeto de investigação sociológica e política, e não como comprovação antecipada de controle familiar sobre o PT estadual. O problema científico consiste em verificar se a concentração de capital político, de espaços de representação e de capacidade decisória em determinados grupos pode comprometer a construção de relações horizontais entre as organizações partidárias.

A teoria de Robert Michels (1982) oferece uma contribuição importante para essa análise. Sua interpretação sobre a tendência à oligarquização das organizações demonstra como estruturas dirigentes podem adquirir autonomia em relação às bases que originalmente lhes conferiram legitimidade.

Aplicada ao contexto catarinense, essa perspectiva permite questionar se a construção de alianças progressistas ocorre mediante deliberação coletiva ou se depende excessivamente de decisões concentradas em determinadas lideranças.

13.2 A unidade entre PT, PCdoB, PV, Rede Sustentabilidade, PSOL, PDT, PSB, PSTU, UP, PCB e PCO

A pluralidade histórica da esquerda brasileira constitui uma realidade política que precisa ser reconhecida. PT, PCdoB, PV, Rede Sustentabilidade, PSOL, PDT, PSB, PSTU, UP, PCB e PCO possuem trajetórias, concepções ideológicas, estratégias de organização e interpretações distintas sobre a sociedade brasileira.

Essa diversidade não deve ser compreendida automaticamente como obstáculo à unidade. Ao contrário, pode constituir uma base para a construção de um projeto político plural, desde que existam mecanismos democráticos de diálogo, negociação e respeito às diferenças.

Entretanto, uma frente progressista não se consolida apenas pela soma de siglas partidárias, fotografias de dirigentes ou acordos eleitorais estabelecidos entre executivas.

É necessário construir confiança política, assegurar participação efetiva e reconhecer que nenhuma liderança individual ou organização partidária deve se considerar proprietária do campo democrático e popular.

A investigação sobre o PT catarinense precisa considerar especialmente a relação entre sua capacidade de articulação estadual e a autonomia das demais organizações políticas.

A eventual percepção de que determinadas lideranças ou grupos familiares possuem influência desproporcional sobre as decisões pode produzir desconfiança entre partidos que reivindicam autonomia programática e participação nas decisões coletivas.

Nesse sentido, o personalismo pode constituir um fator de fragmentação quando substitui a negociação institucional por relações de dependência política.

13.3 A diferença entre unidade eleitoral e unidade política

É importante distinguir duas dimensões da articulação partidária.

A primeira corresponde à unidade eleitoral, caracterizada pela formação de alianças, definição de candidaturas, distribuição de responsabilidades e organização de campanhas.

A segunda corresponde à unidade política e programática, que envolve a construção de propostas comuns sobre desenvolvimento econômico, trabalho, educação, saúde, habitação, meio ambiente, direitos humanos, reforma agrária, democracia e justiça social.

A formação de uma frente eleitoral sem mecanismos permanentes de diálogo pode produzir uma aliança circunstancial, vulnerável às divergências entre lideranças.

Por outro lado, a construção de uma unidade programática exige participação das bases, reconhecimento das diferenças ideológicas e mecanismos de deliberação compartilhada.

Limongi e Vasselai (2016), ao estudarem a coordenação de candidaturas e a formação de coligações no Brasil, demonstram a importância dos fatores institucionais e estratégicos na articulação eleitoral dos partidos.

Entretanto, a coordenação eleitoral não deve ser confundida com a construção de uma identidade política coletiva.

Para o campo progressista catarinense, a questão fundamental é estabelecer se as organizações participantes possuem condições efetivas de contribuir para a definição do programa, das estratégias e das prioridades políticas.

13.4 O risco de transformar o campo progressista em estrutura de dependência de lideranças

A concentração de capital político em determinadas lideranças pode produzir uma relação assimétrica entre os partidos que integram uma frente.

Quando a capacidade de negociação, a definição de candidaturas e a distribuição dos espaços institucionais ficam excessivamente dependentes de determinados grupos, a autonomia das organizações menores pode ser comprometida.

Essa possibilidade precisa ser examinada à luz das contribuições de Pierre Bourdieu (1989), especialmente quanto à distribuição desigual do capital político e aos mecanismos de reprodução das posições de influência.

O problema não está na existência de lideranças reconhecidas ou de famílias com participação histórica na política. O problema investigativo está na eventual transformação da influência política em mecanismo de concentração de decisões e limitação da participação coletiva.

A democracia pressupõe que as lideranças estejam submetidas a regras transparentes, mecanismos de controle e processos legítimos de renovação.

Uma frente progressista que pretende representar diferentes segmentos da sociedade precisa demonstrar capacidade de diálogo com organizações que possuem histórias, experiências e projetos próprios.

13.5 Uma proposta de reconstrução democrática da unidade progressista em Santa Catarina

Propõe-se a realização de um Congresso Estadual de Unidade Democrática e Popular, com participação do PT, PCdoB, PV, Rede Sustentabilidade, PSOL, PDT, PSB, PSTU, UP, PCB e PCO, respeitando a autonomia organizacional e as diferenças programáticas de cada partido.

O congresso poderia estabelecer cinco eixos de discussão:

  1. Democracia interna: transparência das decisões, participação das bases e renovação das direções partidárias.

  2. Unidade programática: construção coletiva de uma agenda estadual para desenvolvimento regional, trabalho, educação pública, saúde, habitação e justiça socioambiental.

  3. Autonomia partidária: garantia de que nenhuma organização ou liderança individual detenha poder unilateral sobre as decisões da frente.

  4. Participação popular: inclusão de sindicatos, movimentos sociais, organizações comunitárias, juventudes, movimentos de mulheres e entidades populares.

  5. Planejamento político de longo prazo: construção de espaços permanentes de diálogo, com agendas que ultrapassem as eleições municipais de 2028 e contribuam para o debate político de 2030.

A proposta não pressupõe a formação imediata de uma única organização ou a obrigação de todas as siglas integrarem uma mesma coligação. Seu objetivo é criar condições para o diálogo democrático, a cooperação programática e a coordenação política, respeitando as regras eleitorais vigentes.

13.6 Considerações analíticas

O fortalecimento do campo progressista em Santa Catarina depende não apenas de acordos entre dirigentes, mas da capacidade de construir relações políticas baseadas na confiança, na transparência e na participação.

O personalismo, quando associado à concentração decisória e à ausência de mecanismos de controle, pode comprometer a legitimidade das articulações políticas.

A eventual existência de estruturas de influência familiar deve ser investigada com critérios objetivos, sem transformar relações de parentesco em prova automática de favorecimento ou controle político.

A contribuição de Michels, Panebianco, Bourdieu e dos estudos contemporâneos sobre democracia intrapartidária permite compreender que a concentração de poder pode produzir tensões entre as estruturas dirigentes e os interesses coletivos das organizações.

Portanto, a unidade progressista não deve ser construída em torno da propriedade política de uma liderança, de uma família ou de uma sigla. Deve resultar de um processo coletivo, plural e democrático.

A questão central para Santa Catarina é: como construir uma frente progressista capaz de reunir diferentes tradições da esquerda quando a confiança entre as organizações depende da garantia de que nenhuma liderança individual ou grupo político possa substituir a vontade coletiva?

A resposta exige mais democracia interna, mais participação popular, mais transparência e menos personalismo nas relações políticas.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS COMPLEMENTARES

AMES, Barry. Os entraves da democracia no Brasil. Rio de Janeiro: FGV, 2003.

BOBBIO, Norberto. O futuro da democracia: uma defesa das regras do jogo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986.

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LIMONGI, Fernando; VASSELAI, Fabricio. Coordenando candidaturas: coligações e fragmentação partidária nas eleições gerais brasileiras. In: ENCONTRO DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE CIÊNCIA POLÍTICA, 10., 2016, Belo Horizonte. Anais [...]. Belo Horizonte: ABCP, 2016.

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VEQUI, Matheus; DEMARCHI, Clovis; OROZCO OSPINA, Juan Felipe. A democracia nos partidos políticos brasileiros: um diagnóstico. Revista Eletrônica Direito e Política, Itajaí, v. 18, n. 2, p. 372-403, 2023. DOI: https://doi.org/10.14210/rdp.v18n2.p372-403.

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