Este estudo realiza uma análise crítica da crença contemporânea na Terra plana a partir de obras de divulgação independente, confrontando-as com o conhecimento científico consolidado da astronomia, da física e da história da ciência. São examinados os principais argumentos apresentados por autores terraplanistas, bem como as evidências empíricas, históricas e teóricas que sustentam a esfericidade da Terra. O objetivo não é desqualificar crenças individuais, mas evidenciar, à luz do método científico, as diferenças epistemológicas entre discurso pseudocientífico e conhecimento validado institucionalmente.
Palavras-chave: Terra plana; método científico; astronomia; pseudociência; epistemologia.
1. Introdução
Nas últimas décadas, o movimento terraplanista ganhou visibilidade por meio das redes sociais, plataformas digitais e publicações independentes. Autores como Jota Martins e Alfred Kimmicher defendem que a ciência moderna ocultaria deliberadamente o “verdadeiro formato” da Terra, questionando instituições científicas, universidades e agências espaciais. Em contrapartida, o consenso científico sobre a esfericidade da Terra baseia-se em evidências acumuladas ao longo de mais de dois milênios, anteriores inclusive à era espacial (KENNEDY, 2018).
Esta análise propõe uma comparação dessas perspectivas, situando-as no campo da epistemologia científica e distinguindo opinião pessoal de conhecimento validado.
2. Argumentos em Defesa da Terra Plana na Divulgação Independente
Nas obras O universo que não te apresentam (MARTINS, s.d.) e Terra plana, o éter e o real formato da Terra (KIMMICHER, s.d.), os autores sustentam que a cosmologia moderna seria fruto de manipulação institucional.
Martins afirma que imagens espaciais seriam fabricadas e que modelos astronômicos seriam narrativas ideológicas. Kimmicher, por sua vez, resgata o conceito de éter e interpreta fenômenos físicos como evidência de um mundo plano e estacionário.
Essas obras compartilham características recorrentes:
rejeição da ciência institucional;
desconfiança de modelos matemáticos;
apelo à interpretação literal de textos antigos ou religiosos;
ausência de experimentos reproduzíveis;
inexistência de modelos quantitativos testáveis;
falta de revisão por pares.
Do ponto de vista metodológico, tais obras se enquadram como produção opinativa e divulgação pessoal, não atendendo aos critérios mínimos do método científico, como falseabilidade, replicabilidade e coerência com evidências independentes (SAGAN, 2006).
3. Evidências Científicas da Esfericidade da Terra
3.1 Evidências Históricas
A concepção da Terra esférica é anterior à ciência moderna. No século III a.C., Eratóstenes calculou a circunferência terrestre comparando a inclinação das sombras solares em Siena e Alexandria, utilizando geometria elementar. O valor obtido apresentou notável precisão e pode ser reproduzido até hoje (BOWEN, 2009).
3.2 Evidências Astronômicas
A observação de eclipses lunares revela consistentemente a sombra curva da Terra projetada sobre a Lua. Ademais, a visibilidade das constelações varia conforme a latitude, fenômeno incompatível com um modelo plano, mas plenamente explicado por um planeta esférico (KENNEDY, 2018).
3.3 Evidências Tecnológicas
Sistemas de navegação global, como o GPS, operam considerando a curvatura da Terra e os efeitos relativísticos descritos por Einstein.
Sem esses ajustes, erros de posicionamento se acumulariam rapidamente, tornando o sistema inutilizável (NASA, 2026).
3.4 Evidências Observacionais Diretas
Imagens obtidas por satélites e missões tripuladas mostram a curvatura terrestre de maneira consistente e independente. Essas imagens provêm de diferentes países, agências e tecnologias, o que inviabiliza a hipótese de uma conspiração global coordenada (NASA, 2026).
4. Pseudociência e Negacionismo Científico
Carl Sagan (2006) destaca que a ciência não se define por autoridade, mas pela convergência de evidências e pela possibilidade de refutação.
O discurso terraplanista rejeita sistematicamente qualquer evidência contrária, reinterpretando dados para preservar a crença original, característica típica de sistemas pseudocientíficos.
Diferentemente da ciência, que revisa seus modelos à luz de novos dados, o terraplanismo opera por confirmação seletiva, imunização contra refutação e desconfiança generalizada das instituições, sem oferecer um modelo alternativo funcional.
5. Conclusão
A análise comparativa demonstra que a defesa da Terra plana se fundamenta em desconfiança institucional, ausência de método científico rigoroso e interpretação seletiva de informações. Em contraste, a concepção da Terra como aproximadamente esférica resulta de séculos de observações independentes, experimentos reproduzíveis e teorias testáveis, desenvolvidas em diferentes culturas e períodos históricos.
Conclui-se que a Terra plana constitui um fenômeno sociocultural contemporâneo relevante para estudos sobre negacionismo científico, mas incompatível com o conhecimento empírico acumulado.
A busca pela verdade exige abertura à investigação crítica, disposição para revisar crenças e compromisso com evidências verificáveis.
Referências Bibliográficas
BOWEN, A. Eratosthenes and the Size of the Earth. Cambridge: Cambridge University Press, 2009.
KENNEDY, D. History of Astronomy: From Ancient Greece to Modern Times. New York: Springer, 2018.
KIMMICHER, Alfred. Terra plana, o éter e o real formato da Terra. [S.l.]: Edição independente, [s.d.].
Disponível em: plataformas digitais e redes sociais do autor. Acesso em: jan. 2026.
Obs.: obra de opinião pessoal, sem validação científica institucional.
MARTINS, Jota. O universo que não te apresentam. [S.l.]: Edição independente, [s.d.].
Disponível em: plataformas digitais e redes sociais do autor. Acesso em: jan. 2026.
Obs.: obra de divulgação pessoal, sem revisão por pares.
NASA. Earth from Space. Disponível em: https://www.nasa.gov/. Acesso em: jan. 2026.
SAGAN, C. O mundo assombrado pelos demônios: a ciência como uma vela no escuro. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
Anexo

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