domingo, 11 de janeiro de 2026

Terra Plana e Terra Esférica: Análise Crítica entre Divulgação Independente e Ciência Consolidada

Este estudo realiza uma análise crítica da crença contemporânea na Terra plana a partir de obras de divulgação independente, confrontando-as com o conhecimento científico consolidado da astronomia, da física e da história da ciência. São examinados os principais argumentos apresentados por autores terraplanistas, bem como as evidências empíricas, históricas e teóricas que sustentam a esfericidade da Terra. O objetivo não é desqualificar crenças individuais, mas evidenciar, à luz do método científico, as diferenças epistemológicas entre discurso pseudocientífico e conhecimento validado institucionalmente.


Palavras-chave: Terra plana; método científico; astronomia; pseudociência; epistemologia.


1. Introdução

Nas últimas décadas, o movimento terraplanista ganhou visibilidade por meio das redes sociais, plataformas digitais e publicações independentes. Autores como Jota Martins e Alfred Kimmicher defendem que a ciência moderna ocultaria deliberadamente o “verdadeiro formato” da Terra, questionando instituições científicas, universidades e agências espaciais. Em contrapartida, o consenso científico sobre a esfericidade da Terra baseia-se em evidências acumuladas ao longo de mais de dois milênios, anteriores inclusive à era espacial (KENNEDY, 2018).

Esta análise propõe uma comparação dessas perspectivas, situando-as no campo da epistemologia científica e distinguindo opinião pessoal de conhecimento validado.


2. Argumentos em Defesa da Terra Plana na Divulgação Independente

Nas obras O universo que não te apresentam (MARTINS, s.d.) e Terra plana, o éter e o real formato da Terra (KIMMICHER, s.d.), os autores sustentam que a cosmologia moderna seria fruto de manipulação institucional. 

Martins afirma que imagens espaciais seriam fabricadas e que modelos astronômicos seriam narrativas ideológicas. Kimmicher, por sua vez, resgata o conceito de éter e interpreta fenômenos físicos como evidência de um mundo plano e estacionário.

Essas obras compartilham características recorrentes:

rejeição da ciência institucional;

desconfiança de modelos matemáticos;

apelo à interpretação literal de textos antigos ou religiosos;

ausência de experimentos reproduzíveis;

inexistência de modelos quantitativos testáveis;

falta de revisão por pares.

Do ponto de vista metodológico, tais obras se enquadram como produção opinativa e divulgação pessoal, não atendendo aos critérios mínimos do método científico, como falseabilidade, replicabilidade e coerência com evidências independentes (SAGAN, 2006).


3. Evidências Científicas da Esfericidade da Terra

3.1 Evidências Históricas

A concepção da Terra esférica é anterior à ciência moderna. No século III a.C., Eratóstenes calculou a circunferência terrestre comparando a inclinação das sombras solares em Siena e Alexandria, utilizando geometria elementar. O valor obtido apresentou notável precisão e pode ser reproduzido até hoje (BOWEN, 2009).


3.2 Evidências Astronômicas

A observação de eclipses lunares revela consistentemente a sombra curva da Terra projetada sobre a Lua. Ademais, a visibilidade das constelações varia conforme a latitude, fenômeno incompatível com um modelo plano, mas plenamente explicado por um planeta esférico (KENNEDY, 2018).


3.3 Evidências Tecnológicas

Sistemas de navegação global, como o GPS, operam considerando a curvatura da Terra e os efeitos relativísticos descritos por Einstein. 

Sem esses ajustes, erros de posicionamento se acumulariam rapidamente, tornando o sistema inutilizável (NASA, 2026).


3.4 Evidências Observacionais Diretas

Imagens obtidas por satélites e missões tripuladas mostram a curvatura terrestre de maneira consistente e independente. Essas imagens provêm de diferentes países, agências e tecnologias, o que inviabiliza a hipótese de uma conspiração global coordenada (NASA, 2026).


4. Pseudociência e Negacionismo Científico

Carl Sagan (2006) destaca que a ciência não se define por autoridade, mas pela convergência de evidências e pela possibilidade de refutação.

 O discurso terraplanista rejeita sistematicamente qualquer evidência contrária, reinterpretando dados para preservar a crença original, característica típica de sistemas pseudocientíficos.

Diferentemente da ciência, que revisa seus modelos à luz de novos dados, o terraplanismo opera por confirmação seletiva, imunização contra refutação e desconfiança generalizada das instituições, sem oferecer um modelo alternativo funcional.


5. Conclusão

A análise comparativa demonstra que a defesa da Terra plana se fundamenta em desconfiança institucional, ausência de método científico rigoroso e interpretação seletiva de informações. Em contraste, a concepção da Terra como aproximadamente esférica resulta de séculos de observações independentes, experimentos reproduzíveis e teorias testáveis, desenvolvidas em diferentes culturas e períodos históricos.

Conclui-se que a Terra plana constitui um fenômeno sociocultural contemporâneo relevante para estudos sobre negacionismo científico, mas incompatível com o conhecimento empírico acumulado. 

A busca pela verdade exige abertura à investigação crítica, disposição para revisar crenças e compromisso com evidências verificáveis.


Referências Bibliográficas

BOWEN, A. Eratosthenes and the Size of the Earth. Cambridge: Cambridge University Press, 2009.

KENNEDY, D. History of Astronomy: From Ancient Greece to Modern Times. New York: Springer, 2018.

KIMMICHER, Alfred. Terra plana, o éter e o real formato da Terra. [S.l.]: Edição independente, [s.d.].

Disponível em: plataformas digitais e redes sociais do autor. Acesso em: jan. 2026.

Obs.: obra de opinião pessoal, sem validação científica institucional.

MARTINS, Jota. O universo que não te apresentam. [S.l.]: Edição independente, [s.d.].

Disponível em: plataformas digitais e redes sociais do autor. Acesso em: jan. 2026.

Obs.: obra de divulgação pessoal, sem revisão por pares.

NASA. Earth from Space. Disponível em: https://www.nasa.gov/. Acesso em: jan. 2026.

SAGAN, C. O mundo assombrado pelos demônios: a ciência como uma vela no escuro. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.




Anexo






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