sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Terraplanismo, Interpretação Bíblica e História do Conhecimento: Uma Análise Crítica

A presente análise sobre a crença no terraplanismo sob três perspectivas fundamentais: histórica, bíblica e epistemológica. Demonstra-se que a ideia de uma Terra plana não foi sustentada de forma sistemática nos períodos antigos, tampouco no cristianismo histórico. O estudo aborda a origem moderna do terraplanismo, identifica erros recorrentes de interpretação bíblica associados a essa crença e apresenta princípios hermenêuticos básicos para uma leitura responsável das Escrituras. Conclui-se que o terraplanismo não encontra respaldo nem na tradição cristã, nem na exegese bíblica, nem na história do conhecimento humano.


Palavras-chave: Terraplanismo; Hermenêutica bíblica; História da ciência; Cosmologia antiga; Fé e razão.


1 Introdução

Nas últimas décadas, observa-se o ressurgimento de movimentos que rejeitam consensos científicos consolidados, entre eles o terraplanismo. Diferentemente de debates científicos legítimos, tal crença frequentemente se apoia em leituras literais e descontextualizadas de textos bíblicos, associadas a uma profunda desconfiança das instituições científicas modernas. 

Está análise busca responder a quatro questões centrais: 

(1) por que não existiam terraplanistas nos tempos antigos; 

(2) como surgiu o terraplanismo moderno;

 (3) quais são os principais erros de interpretação bíblica cometidos por seus defensores; e 

(4) o que a Bíblia efetivamente afirma sobre a Terra. Por fim, propõe-se um modelo de leitura bíblica que respeite o texto sagrado sem distorcê-lo.

O artigo mostra que a Bíblia não ensina que a Terra é plana.

Cristãos antigos e mesmo Agostinho e Tomás de Aquino, aceitavam que a Terra é redonda.

A ideia de Terra plana surgiu muito depois, no século XIX, ligada à desconfiança da ciência.

Muitos terraplanistas interpretam a Bíblia literalmente, sem entender a poesia e o simbolismo do texto.

Expressões como “quatro cantos da Terra” ou “o sol nasceu” são formas de falar, não ciência.

A Bíblia é literal ao tratar de pecado, salvação e Cristo, mas poética ao falar da natureza.

Romanos 1:20 mostra que a criação revela Deus, e João 8:32 ensina que a verdade liberta.

Observar o mundo e estudar ciência não vai contra a fé, mas ajuda a compreender melhor a criação.

Fé e ciência caminham juntas, cada uma mostrando aspectos diferentes da verdade.

Rejeitar evidências da realidade não fortalece a fé, apenas gera confusão e erro.

A primeira Bíblia moderna que conhecemos hoje não foi escrita de uma vez. Ela é o resultado de séculos de cópias, traduções e revisões. O Antigo Testamento veio do hebraico, o Novo do grego, e a versão que usamos atualmente, como a Almeida Revista e Atualizada, foi traduzida entre os séculos XVI e XX por estudiosos cristãos. 

Isso não significa que o texto tenha sido inventado ou manipulado para enganar; significa que houve trabalho humano para tornar a Palavra acessível, mantendo o sentido original o mais fiel possível.

Sobre a fé versus ciência, é verdade que tanto livros quanto experimentos podem ser mal interpretados ou usados de forma errada. Mas a fé cristã não depende de manipulação humana: ela se baseia na confiança em Deus e em Jesus Cristo. A ciência também busca a verdade, mas sempre com métodos que podem ser testados e corrigidos, diferente de interpretações pessoais.

Albert Einstein disse algo próximo disso: “O que existe, de fato, só podemos compreender se conseguimos observar, medir e entender”. Ou seja, a realidade não depende do que queremos acreditar; existe uma ordem natural criada por Deus que podemos estudar e conhecer.

Portanto, fé e ciência não são inimigas: a fé dá sentido à criação e nos guia espiritualmente; a ciência explica como essa criação funciona de forma prática e observável. Confiar apenas no que queremos acreditar é perigoso, porque Deus criou o mundo com verdade e ordem, e nossa tarefa é buscar conhecê-lo com honestidade, tanto na Bíblia quanto na natureza.


2 Por que não existiam terraplanistas nos tempos antigos?

Embora povos antigos possuíssem cosmologias simbólicas e não científicas no sentido moderno, não existiu um movimento organizado de negação da esfericidade da Terra como o atual terraplanismo. 

Já na Grécia Antiga, entre os séculos VI e IV a.C., pensadores como Pitágoras, Aristóteles e Eratóstenes defendiam a Terra esférica com base em observações empíricas, como eclipses lunares e variações estelares conforme a latitude (BOWEN, 2009).

No cristianismo primitivo e medieval, a esfericidade da Terra era amplamente aceita por teólogos e filósofos naturais, incluindo Agostinho de Hipona, Tomás de Aquino e Beda, o Venerável. A ideia de que a Igreja ensinava uma Terra plana é um mito moderno, historicamente insustentável (KENNEDY, 2018).


3 Como surgiu o terraplanismo moderno?

O terraplanismo moderno surge no século XIX, especialmente com Samuel Rowbotham, autor de Zetetic Astronomy (1849). Diferentemente da ciência clássica, o método zetético rejeitava inferências teóricas e priorizava interpretações pessoais de experimentos limitados. No século XXI, a crença foi amplificada pelas redes sociais, bolhas informacionais e discursos conspiratórios que associam ciência, governos e mídia a um suposto engano global.

Portanto, o terraplanismo não é herança bíblica nem tradição antiga, mas um fenômeno contemporâneo vinculado à desconfiança institucional e à pseudociência.


4 Erros na interpretação bíblica cometidos por terraplanistas

Os principais erros hermenêuticos observados são:

4.1 Leitura literal de textos poéticos

Livros como Salmos, Jó e Isaías utilizam linguagem metafórica. Expressões como “fundamentos da Terra” ou “quatro cantos da Terra” são figuras de linguagem, não descrições geográficas.


4.2 Desconsideração do gênero literário

Textos proféticos e apocalípticos, como Daniel e Apocalipse, utilizam símbolos e visões, não dados físicos do mundo natural.


4.3 Anacronismo interpretativo

Projeção de conceitos modernos (como domos físicos) sobre termos hebraicos antigos, como raqiaʿ (firmamento), cujo sentido é “expansão” ou “extensão”.


4.4 Confusão entre teologia e ciência

A Bíblia não se propõe a explicar mecanismos naturais, mas a transmitir verdades teológicas e morais.


5 O que a Bíblia diz sobre a Terra?

A Bíblia não define a forma geométrica da Terra. Textos como Isaías 40:22 mencionam o “círculo da Terra” (chûg), termo que indica curvatura ou abrangência, não um disco plano. Em nenhum ponto das Escrituras há afirmação explícita de que a Terra seja plana ou coberta por uma cúpula sólida.

Teólogos clássicos, como Agostinho, já afirmavamu que o cristão não deveria transformar interpretações cosmológicas em dogmas de fé, sob risco de desacreditar o Evangelho diante do conhecimento humano (AGOSTINHO, 2002).


6 Como ler a Bíblia sem distorcê-la

Uma leitura responsável das Escrituras exige:

consideração do contexto histórico e cultural;

identificação do gênero literário do texto;

distinção entre linguagem simbólica e proposições doutrinárias;

compreensão de que a Bíblia revela quem Deus é, não como funciona o universo em termos físicos.

Essa abordagem, conhecida como hermenêutica histórico-gramatical, é amplamente adotada pela teologia cristã acadêmica.


7 O Firmamento na Bíblia: Análise Exegética e Hermenêutica

A palavra traduzida por “firmamento” em Gênesis 1 é o termo hebraico raqiaʿ (רָקִיעַ), derivado do verbo raqaʿ, que significa estender, expandir ou espalhar. 

Esse verbo é usado em outros textos bíblicos para descrever o ato de bater metal para esticá-lo (Isaías 40:19) ou espalhar a terra sobre as águas (Salmos 136:6). Portanto, o sentido original não é o de uma cúpula sólida, mas de algo amplo e estendido, como o espaço visível.

A própria narrativa bíblica refuta a ideia de um domo físico. Em Gênesis 1:20, as aves voam “sobre a face do firmamento dos céus”, o que seria impossível se o firmamento fosse um vidro sólido. Além disso, textos como Jó 37:16 falam do movimento e do equilíbrio das nuvens, indicando um céu atmosférico, não uma estrutura rígida.

Quanto à forma da Terra, Isaías 40:22 afirma que Deus está assentado sobre o “círculo da Terra”. A palavra hebraica chûg (חוּג) significa círculo, arco ou curvatura, sendo usada para descrever o horizonte e o arco do céu, nunca um plano com bordas. 

Expressões como “os quatro cantos da Terra” (Isaías 11:12; Apocalipse 7:1) são figuras de linguagem, assim como “o sol nasceu”, comuns até hoje, sem intenção geográfica literal.

Historicamente, os principais pensadores cristãos — como Agostinho, Basílio e Tomás de Aquino — aceitavam a esfericidade da Terra, sem ver contradição com a fé. Não existe registro de concílios cristãos que tenham defendido a Terra plana como doutrina.

Por fim, a Bíblia deve ser lida conforme seu gênero literário. Ela é literal ao tratar de fé, salvação e Cristo, mas usa linguagem poética ao falar da natureza. Assim, a Escritura não ensina a Terra plana nem um domo físico, e não entra em conflito com a realidade observável. Seu foco central é teológico: afirmar que Deus é o Criador e que a criação revela Sua glória.



Conclusão

O terraplanismo não possui fundamento histórico, bíblico ou científico. Trata-se de um movimento moderno baseado em interpretações equivocadas das Escrituras e em rejeição seletiva do conhecimento empírico. 

A Bíblia, corretamente interpretada, não entra em conflito com a realidade observável nem exige a negação da razão. Pelo contrário, a tradição cristã histórica sempre reconheceu que fé e razão, quando corretamente compreendidas, não se opõem, mas se complementam.

A ideia de que a Terra é plana não vem da Bíblia nem dos povos antigos. Desde a antiguidade, muitas pessoas já observavam a natureza e percebiam que a Terra tinha forma arredondada. O terraplanismo como movimento surgiu só nos tempos modernos, ligado à desconfiança da ciência e das instituições. 

Muitos terraplanistas erram ao ler a Bíblia de forma literal, sem considerar que ela usa linguagem poética e simbólica. Expressões como “quatro cantos da Terra” não são descrições físicas, mas formas comuns de falar. 

A Bíblia não ensina a forma da Terra, pois seu objetivo é ensinar sobre Deus e a salvação. Ler a Bíblia corretamente exige contexto, cuidado e humildade. Fé e razão não são inimigas.

À luz de Romanos 1:20 — “os atributos invisíveis de Deus, assim como o seu eterno poder e a sua divindade, são claramente percebidos por meio das coisas criadas” — a própria criação é apresentada como um testemunho acessível, inteligível e universal da ação e do poder divinos. 

A ordem, a regularidade e a coerência observáveis no mundo natural permitem ao ser humano reconhecer atributos de Deus por meio da observação racional da realidade criada.

 Dessa forma, a negação sistemática das evidências empíricas não fortalece a fé, mas obscurece aquilo que, segundo o próprio texto bíblico, Deus tornou manifesto à razão humana.

Em consonância com essa perspectiva, João 8:32 afirma: “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. 

O texto joanino atribui à verdade um caráter libertador, indicando que ela não teme investigação, exame crítico ou confronto com os fatos. 

Ao contrário, a verdade se consolida quando submetida à razão, à experiência e à honestidade intelectual. Nesse sentido, fé cristã e conhecimento científico não se apresentam como esferas antagônicas, mas como caminhos distintos e complementares de acesso à verdade.

Podemos dizer assim de forma simples: Deus está no meio de nós, não porque vemos com os olhos, mas porque Ele age e se revela na criação, na Palavra e no coração de quem crê.

 A presença d’Ele não depende de manipulação humana de textos ou de experiências externas — está na fé verdadeira, na oração, na justiça, na compaixão e no amor que praticamos.

Mesmo quando temos dúvidas sobre ciência ou sobre interpretações de textos antigos, podemos confiar que Deus continua conosco, guiando-nos à verdade, como Jesus prometeu: “E eis que estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos” (Mateus 28:20).







Conclui-se, portanto, que uma interpretação bíblica responsável — atenta aos gêneros literários, ao contexto histórico e à finalidade teológica dos textos — não conduz à negação da realidade empírica, mas à compreensão mais profunda tanto da criação quanto do Criador. 

A fé que se apoia na verdade promove libertação; a fé que rejeita o exame da realidade tende ao obscurantismo e à distorção do próprio testemunho bíblico.


Referências

AGOSTINHO, A. A Interpretação Literal do Gênesis. São Paulo: Paulus, 2002.

BÍBLIA. Tradução Almeida Revista e Atualizada. Sociedade Bíblica do Brasil, 2009.

BOWEN, A. Eratosthenes and the Size of the Earth. Cambridge: Cambridge University Press, 2009.

KENNEDY, D. History of Astronomy: From Ancient Greece to Modern Times. New York: Springer, 2018.

SAGAN, C. O Mundo Assombrado pelos Demônios. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.











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