A presente análise sobre a crença no terraplanismo sob três perspectivas fundamentais: histórica, bíblica e epistemológica. Demonstra-se que a ideia de uma Terra plana não foi sustentada de forma sistemática nos períodos antigos, tampouco no cristianismo histórico. O estudo aborda a origem moderna do terraplanismo, identifica erros recorrentes de interpretação bíblica associados a essa crença e apresenta princípios hermenêuticos básicos para uma leitura responsável das Escrituras. Conclui-se que o terraplanismo não encontra respaldo nem na tradição cristã, nem na exegese bíblica, nem na história do conhecimento humano.
Palavras-chave: Terraplanismo; Hermenêutica bíblica; História da ciência; Cosmologia antiga; Fé e razão.
1 Introdução
Nas últimas décadas, observa-se o ressurgimento de movimentos que rejeitam consensos científicos consolidados, entre eles o terraplanismo. Diferentemente de debates científicos legítimos, tal crença frequentemente se apoia em leituras literais e descontextualizadas de textos bíblicos, associadas a uma profunda desconfiança das instituições científicas modernas.
Está análise busca responder a quatro questões centrais:
(1) por que não existiam terraplanistas nos tempos antigos;
(2) como surgiu o terraplanismo moderno;
(3) quais são os principais erros de interpretação bíblica cometidos por seus defensores; e
(4) o que a Bíblia efetivamente afirma sobre a Terra. Por fim, propõe-se um modelo de leitura bíblica que respeite o texto sagrado sem distorcê-lo.
O artigo mostra que a Bíblia não ensina que a Terra é plana.
Cristãos antigos e mesmo Agostinho e Tomás de Aquino, aceitavam que a Terra é redonda.
A ideia de Terra plana surgiu muito depois, no século XIX, ligada à desconfiança da ciência.
Muitos terraplanistas interpretam a Bíblia literalmente, sem entender a poesia e o simbolismo do texto.
Expressões como “quatro cantos da Terra” ou “o sol nasceu” são formas de falar, não ciência.
A Bíblia é literal ao tratar de pecado, salvação e Cristo, mas poética ao falar da natureza.
Romanos 1:20 mostra que a criação revela Deus, e João 8:32 ensina que a verdade liberta.
Observar o mundo e estudar ciência não vai contra a fé, mas ajuda a compreender melhor a criação.
Fé e ciência caminham juntas, cada uma mostrando aspectos diferentes da verdade.
Rejeitar evidências da realidade não fortalece a fé, apenas gera confusão e erro.
A primeira Bíblia moderna que conhecemos hoje não foi escrita de uma vez. Ela é o resultado de séculos de cópias, traduções e revisões. O Antigo Testamento veio do hebraico, o Novo do grego, e a versão que usamos atualmente, como a Almeida Revista e Atualizada, foi traduzida entre os séculos XVI e XX por estudiosos cristãos.
Isso não significa que o texto tenha sido inventado ou manipulado para enganar; significa que houve trabalho humano para tornar a Palavra acessível, mantendo o sentido original o mais fiel possível.
Sobre a fé versus ciência, é verdade que tanto livros quanto experimentos podem ser mal interpretados ou usados de forma errada. Mas a fé cristã não depende de manipulação humana: ela se baseia na confiança em Deus e em Jesus Cristo. A ciência também busca a verdade, mas sempre com métodos que podem ser testados e corrigidos, diferente de interpretações pessoais.
Albert Einstein disse algo próximo disso: “O que existe, de fato, só podemos compreender se conseguimos observar, medir e entender”. Ou seja, a realidade não depende do que queremos acreditar; existe uma ordem natural criada por Deus que podemos estudar e conhecer.
Portanto, fé e ciência não são inimigas: a fé dá sentido à criação e nos guia espiritualmente; a ciência explica como essa criação funciona de forma prática e observável.
Confiar apenas no que queremos acreditar é perigoso, porque Deus criou o mundo com verdade e ordem, e nossa tarefa é buscar conhecê-lo com honestidade, tanto na Bíblia quanto na natureza.
O desafio de Gustavo Henrique Correa de Andrade, Me provem que a terra é um globo?
Parte-se da afirmação de Douglas Rodrigues: Quem fala que a terra é uma bola giratória, nega a palavra de Deus, pois se alegam crer em Deus tem que crer em sua palavra, o que me espanta é cristãos acreditar nessa mentira, ímpios e ateus não podemos nos surpreender.
2 Por que não existiam terraplanistas nos tempos antigos?
Embora povos antigos possuíssem cosmologias simbólicas e não científicas no sentido moderno, não existiu um movimento organizado de negação da esfericidade da Terra como o atual terraplanismo.
Já na Grécia Antiga, entre os séculos VI e IV a.C., pensadores como Pitágoras, Aristóteles e Eratóstenes defendiam a Terra esférica com base em observações empíricas, como eclipses lunares e variações estelares conforme a latitude (BOWEN, 2009).
No cristianismo primitivo e medieval, a esfericidade da Terra era amplamente aceita por teólogos e filósofos naturais, incluindo Agostinho de Hipona, Tomás de Aquino e Beda, o Venerável. A ideia de que a Igreja ensinava uma Terra plana é um mito moderno, historicamente insustentável (KENNEDY, 2018).
3 Como surgiu o terraplanismo moderno?
O terraplanismo moderno surge no século XIX, especialmente com Samuel Rowbotham, autor de Zetetic Astronomy (1849). Diferentemente da ciência clássica, o método zetético rejeitava inferências teóricas e priorizava interpretações pessoais de experimentos limitados. No século XXI, a crença foi amplificada pelas redes sociais, bolhas informacionais e discursos conspiratórios que associam ciência, governos e mídia a um suposto engano global.
Portanto, o terraplanismo não é herança bíblica nem tradição antiga, mas um fenômeno contemporâneo vinculado à desconfiança institucional e à pseudociência.
4 Erros na interpretação bíblica cometidos por terraplanistas
Os principais erros hermenêuticos observados são:
4.1 Leitura literal de textos poéticos
Livros como Salmos, Jó e Isaías utilizam linguagem metafórica. Expressões como “fundamentos da Terra” ou “quatro cantos da Terra” são figuras de linguagem, não descrições geográficas.
4.2 Desconsideração do gênero literário
Textos proféticos e apocalípticos, como Daniel e Apocalipse, utilizam símbolos e visões, não dados físicos do mundo natural.
4.3 Anacronismo interpretativo
Projeção de conceitos modernos (como domos físicos) sobre termos hebraicos antigos, como raqiaʿ (firmamento), cujo sentido é “expansão” ou “extensão”.
4.4 Confusão entre teologia e ciência
A Bíblia não se propõe a explicar mecanismos naturais, mas a transmitir verdades teológicas e morais.
5 O que a Bíblia diz sobre a Terra?
A Bíblia não define a forma geométrica da Terra. Textos como Isaías 40:22 mencionam o “círculo da Terra” (chûg), termo que indica curvatura ou abrangência, não um disco plano. Em nenhum ponto das Escrituras há afirmação explícita de que a Terra seja plana ou coberta por uma cúpula sólida.
Teólogos clássicos, como Agostinho, já afirmavamu que o cristão não deveria transformar interpretações cosmológicas em dogmas de fé, sob risco de desacreditar o Evangelho diante do conhecimento humano (AGOSTINHO, 2002).
6 Como ler a Bíblia sem distorcê-la
Uma leitura responsável das Escrituras exige:
consideração do contexto histórico e cultural;
identificação do gênero literário do texto;
distinção entre linguagem simbólica e proposições doutrinárias;
compreensão de que a Bíblia revela quem Deus é, não como funciona o universo em termos físicos.
Essa abordagem, conhecida como hermenêutica histórico-gramatical, é amplamente adotada pela teologia cristã acadêmica.
7 O Firmamento na Bíblia: Análise Exegética e Hermenêutica
A palavra traduzida por “firmamento” em Gênesis 1 é o termo hebraico raqiaʿ (רָקִיעַ), derivado do verbo raqaʿ, que significa estender, expandir ou espalhar.
Esse verbo é usado em outros textos bíblicos para descrever o ato de bater metal para esticá-lo (Isaías 40:19) ou espalhar a terra sobre as águas (Salmos 136:6). Portanto, o sentido original não é o de uma cúpula sólida, mas de algo amplo e estendido, como o espaço visível.
A própria narrativa bíblica refuta a ideia de um domo físico. Em Gênesis 1:20, as aves voam “sobre a face do firmamento dos céus”, o que seria impossível se o firmamento fosse um vidro sólido. Além disso, textos como Jó 37:16 falam do movimento e do equilíbrio das nuvens, indicando um céu atmosférico, não uma estrutura rígida.
Quanto à forma da Terra, Isaías 40:22 afirma que Deus está assentado sobre o “círculo da Terra”. A palavra hebraica chûg (חוּג) significa círculo, arco ou curvatura, sendo usada para descrever o horizonte e o arco do céu, nunca um plano com bordas.
Expressões como “os quatro cantos da Terra” (Isaías 11:12; Apocalipse 7:1) são figuras de linguagem, assim como “o sol nasceu”, comuns até hoje, sem intenção geográfica literal.
Historicamente, os principais pensadores cristãos — como Agostinho, Basílio e Tomás de Aquino — aceitavam a esfericidade da Terra, sem ver contradição com a fé. Não existe registro de concílios cristãos que tenham defendido a Terra plana como doutrina.
Por fim, a Bíblia deve ser lida conforme seu gênero literário. Ela é literal ao tratar de fé, salvação e Cristo, mas usa linguagem poética ao falar da natureza. Assim, a Escritura não ensina a Terra plana nem um domo físico, e não entra em conflito com a realidade observável. Seu foco central é teológico: afirmar que Deus é o Criador e que a criação revela Sua glória.
8 Crítica ao fundamentalismo literalista e a interpretação teológica coerente de Isaías 40:22
A leitura fundamentalista de Isaías 40:22, que sustenta a ideia de uma Terra plana coberta por um domo físico, resulta de um grave erro hermenêutico: a confusão entre linguagem poética-teológica e descrição científica.
O texto pertence ao gênero da poesia profética, cujo objetivo não é explicar a estrutura do cosmos, mas afirmar a soberania de Deus sobre a criação. Interpretá-lo como geografia literal ignora o contexto literário, histórico e linguístico em que foi produzido.
O termo hebraico ḥûg (חוּג), traduzido por “cúpula” ou “círculo”, refere-se ao horizonte visível, ao contorno da Terra conforme percebido pelos sentidos humanos. Não designa um domo sólido ou uma estrutura física.
O profeta utiliza imagens acessíveis ao imaginário do povo antigo — “céus como cortina”, “tenda”, “habitantes como gafanhotos” — recursos típicos da poesia hebraica, que comunica verdades teológicas por meio de metáforas.
A leitura literal descontextualizada produz contradições internas na própria Bíblia. Se Isaías estivesse ensinando cosmologia física, outros textos como Jó 26:7 (“suspende a terra sobre o nada”) ou Salmos 104:2 (“estendes os céus como uma cortina”) se tornariam incoerentes ou cientificamente falsos.
A Escritura adota frequentemente linguagem fenomenológica, descrevendo o mundo como ele aparece à experiência humana, não como objeto de análise técnica.
Uma teologia cristã coerente interpreta Isaías a partir de seu propósito original: exaltar a transcendência de Deus, sua autoridade sobre reis e nações, e a pequenez humana diante do Criador. O texto não pretende definir a forma da Terra, mas afirmar que Deus está acima de toda a criação.
O fundamentalismo literalista, ao absolutizar imagens poéticas, desloca o foco do texto e transforma fé em pseudociência.
Assim, a interpretação correta, fiel ao que está escrito e a quem escreveu, reconhece Isaías 40:22 como teologia em forma poética, não como cosmologia.
Defender Terra plana a partir desse versículo não é fidelidade bíblica, mas leitura anacrônica e ideológica, incompatível com a tradição exegética cristã séria e historicamente informada.
9 Forma da Terra e forma da fé uma crítica que quer mascarar a realidade, com uma ideologia anti ciência e da pós verdade
O terraplanista Gustavo Henrique Correa de Andrade, afirmou: Osni Valfredo Wagner Não é nada disso é vocês querendo distorcer pra defender, o globo de vocês.
Diante da negação de Gustavo Henrique Correa de Andrade PERGUNTO-LHE: Querer que uma poesia de Isaías seja um dado para contrapor e refutar o científico? Vou fazer uma poesia para refutar a Terra plana.
A Ilusão da Terra Plana
(Osni Valfredo Wagner 1:1)
1 Não nasceu da história, nem da cultura dos povos; não brotou da ciência, nem da fé que busca sentido.
2 A Terra plana é crença rígida, não herança antiga;
é ideia recente vestida de certeza, sem raiz na memória dos povos.
3 É leitura sem escuta, texto sem contexto, letra sem espírito e palavra sem vida.
4 Confunde poesia com mapa e metáfora com concreto; transforma o sagrado em régua e esquadro.
5 Lê a Escritura com os olhos fechados para o tempo em que foi escrita; ignora o autor e o povo, o clamor, o exílio e a intenção.
6 Não é teologia, é dogma ideológico; não é fé, é medo do diálogo; não é zelo pela verdade, mas rigidez sem discernimento.
7 Onde falta amor pela verdade, sobra literalismo;
onde falta humildade, nasce a falsa certeza.
8 A Escritura aponta para Deus, não para a forma da Terra; revela o Criador, não o desenho da criação.
9 Quem aprisiona o texto à própria ideologia perde o sentido da revelação e troca a luz do entendimento pela sombra da letra morta.
Osni Valfredo Wagner 2:1
(Estilo de Sabedoria / Provérbios)
1 O que lê sem entender, erra; o que entende sem contexto, tropeça.
2 A letra isolada endurece, mas a sabedoria dá vida.
3 Quem transforma poesia em mapa perde o caminho da verdade.
4 O sábio busca o sentido; o tolo agarra-se à forma.
5 A Escritura revela Deus, não o desenho da Terra.
6 Onde falta discernimento, nasce o dogma ideológico.
7 O temor do Senhor é princípio da sabedoria, mas o medo do diálogo é princípio do erro.
8 Melhor é quem escuta e aprende do que quem grita e não compreende.
9 A verdade não teme a razão, nem a fé foge da luz.
10 Questões das redes sociais sobre Bíblia e Ciência
Paulo Weschenfelder, diz para, Douglas Rodrigues A Bíblia é um livro religioso escrito por 'homens' que não tinham nenhum conhecimento científico e não um livro de ciências. Deveria ser pecado usar a Bíblia Sagrada pra embasar sua ignorância a respeito de fatos científicos cansativamente comprovados.
Douglas Rodrigues pergunta para Paulo Weschenfelder a Bíblia é inspirada por Deus, principalmente Gênesis, você acha que Deus iria inspirar mentira para o autor? Quando fala que Deus separou as águas, uma parte para baixo e a outra para cima do firmamento, o que ele esta querendo dizer?
Inspiração Bíblica, Gênesis e a Linguagem da Criação
Deus inspirou mentira ao autor de Gênesis?
Não. A teologia cristã afirma que Deus é verdade e não pode mentir. A inspiração bíblica não significa ditado científico, mas revelação divina comunicada por autores humanos situados em contextos históricos e culturais específicos. Deus inspira a mensagem, não impõe categorias científicas modernas aos escritores antigos.
Por que Gênesis usa linguagem que parece descrever uma cosmologia antiga?
Porque Deus fala na linguagem compreensível ao povo de seu tempo. O objetivo de Gênesis não é explicar a estrutura física do universo, mas afirmar verdades teológicas fundamentais: Deus é o Criador, a criação é ordenada e possui propósito.
O que significa a separação das “águas de cima” e das “águas de baixo”?
Essa imagem expressa simbolicamente a organização do caos primordial. As “águas de baixo” representam mares e abismos; as “águas de cima” referem-se ao céu de onde vem a chuva. O texto não descreve um oceano literal acima do firmamento, mas comunica que Deus estabelece ordem e limites na criação.
O firmamento (raqia) é uma cúpula sólida?
Não. O termo hebraico raqia significa algo expandido ou estendido, referindo-se ao espaço visível entre céu e terra. A interpretação de um domo físico resulta de leitura literalista descontextualizada, não do sentido original do texto.
Ler Gênesis de forma simbólica enfraquece a fé?
Pelo contrário. Reconhecer o gênero literário e a intenção teológica do texto fortalece a fé, pois permite compreender a revelação de Deus sem reduzi-la a um modelo científico ultrapassado.
Qual é a mensagem central de Gênesis 1?
Gênesis ensina que Deus cria, ordena e sustenta tudo o que existe. Ele revela o sentido da criação e da vida humana, não a mecânica do cosmos.
11 O Firmamento Bíblico à Luz da Exegese e da Ciência
A interpretação do firmamento bíblico tem sido frequentemente utilizada por defensores da Terra plana como argumento teológico para a existência de um domo físico sólido sobre a Terra. No entanto, uma análise exegética rigorosa do texto hebraico, aliada ao contexto literário e histórico das Escrituras, não sustenta tal conclusão. O termo hebraico raqiaʿ (רָקִיעַ), empregado em Gênesis 1:6–8, deriva do verbo raqaʿ, cujo significado básico é “estender” ou “expandir”. Embora esse verbo possa ser usado em contextos de martelar metais, o sentido semântico final do substantivo depende do uso contextual, não da raiz isolada.
Nos textos bíblicos, o raqiaʿ é descrito como o espaço onde aves voam (Gn 1:20), onde estão os astros (Gn 1:14–17; Dn 12:3) e onde se manifestam nuvens e fenômenos atmosféricos (Jó 35:11; Jó 37:16). Tais descrições tornam incompatível a leitura de um firmamento sólido e físico, pois pressupõem um ambiente aberto e dinâmico. Além disso, passagens frequentemente citadas para defender a solidez do firmamento, como Jó 37:18 e Ezequiel 1:22, pertencem a gêneros poéticos e proféticos, caracterizados pelo uso intenso de metáforas visuais, não por descrições físicas ou cosmológicas literais.
Do ponto de vista histórico-teológico, é relevante destacar que os principais pensadores cristãos da Antiguidade e da Idade Média — como Agostinho de Hipona, Basílio de Cesareia e Tomás de Aquino — aceitaram a esfericidade da Terra sem considerar tal posição contrária à fé cristã. Não há registros de concílios, credos ou dogmas cristãos que defendam a Terra plana como ensino bíblico obrigatório. Isso indica que a associação entre literalismo cosmológico e fidelidade às Escrituras é um fenômeno recente, sem respaldo na tradição cristã histórica.
À luz da ciência, as evidências empíricas acumuladas ao longo de mais de dois milênios — desde as medições de Eratóstenes até a astronomia moderna e os sistemas de navegação global — corroboram de forma independente a esfericidade da Terra. A Escritura, por sua vez, não se propõe a oferecer um modelo científico do cosmos, mas a comunicar verdades teológicas por meio da linguagem humana, frequentemente poética e fenomenológica.
Conclui-se, portanto, que a leitura responsável do texto bíblico, respeitando seus gêneros literários e seu contexto histórico, não conduz à crença em um domo físico ou em uma Terra plana. Pelo contrário, ela preserva a harmonia entre fé e razão, reafirmando que a criação revela a glória de Deus sem exigir a negação da realidade observável.
11.1 Quando a Fé Encontra a Verdade: Sabedoria, Escritura e Realidade
Osni Valfredo Wagner 3:1
1 E disse o escritor: Não confundais a palavra com o formato da Terra, nem torneis metáfora em mapa, nem poesia em tratado de física.
2 Porque o firmamento foi dado para separar, não para aprisionar; e a criação foi feita para revelar a glória de Deus, não para negar aquilo que os olhos veem e a razão coconfirma.
3 A verdade não teme exame, a fé não se sustenta na recusa do conhecimento, e a sabedoria anda junto com a humildade.
4 Quem ouve sem examinar tropeça, mas quem examina com honestidade permanece firme.
11.2 Provérbios — Osni Valfredo Wagner 4:1
1 O sábio contempla a criação e dela aprende; mas o insensato rejeita o que vê e gloria-se na própria ignorância.
2 A fé que teme a verdade não procede de Deus, pois o Senhor é fonte da luz e não autor da confusão.
3 Aquele que fecha os olhos para os fatos endurece o coração; mas o que busca entendimento encontra descanso para a alma.
4 A verdade permanece, ainda que seja negada; a mentira necessita de muitos gritos para se sustentar.
12 Textos Bíblicos Utilizados pelo Terraplanismo e Análise Hermenêutica Multidisciplinar
Esta seção examina os principais textos bíblicos frequentemente citados por defensores da Terra plana, submetendo-os a uma análise hermenêutica rigorosa, fundamentada no contexto histórico, cultural, político, econômico, literário, espiritual, metafórico, filosófico, sociológico, antropológico e cosmológico do mundo bíblico.
Os textos mais recorrentes incluem Gênesis 1:6–8; 1:14–17 (firmamento), Isaías 40:22 (círculo da Terra), Jó 38:13–14; 37:18; 26:7, Salmos 19; 104:5; 136:6, 1 Samuel 2:8, Eclesiastes 1:5, Apocalipse 7:1 e Ezequiel 1:22. O uso terraplanista desses trechos parte de uma leitura literalista isolada, desconsiderando o gênero literário e o horizonte cultural do Antigo Oriente Próximo.
Do ponto de vista histórico-cultural, os autores bíblicos escreviam dentro de uma cosmovisão pré-científica, na qual a linguagem da natureza era fenomenológica (descritiva da aparência) e funcional, não técnica. Não havia a intenção de descrever a estrutura física do cosmos, mas de afirmar a soberania divina sobre a criação. Transformar essas descrições em mapas cosmológicos é um anacronismo hermenêutico.
Sob o aspecto literário e metafórico, livros como Salmos, Jó, Eclesiastes e Apocalipse utilizam poesia, paralelismo, hipérbole e simbolismo. Expressões como “colunas da Terra”, “bordas da Terra” e “quatro cantos” pertencem ao campo da linguagem figurada, comum também em outras culturas antigas e ainda presente na linguagem moderna. Literalizá-las rompe com a própria lógica interna do texto bíblico.
No plano filosófico e metafísico, a Bíblia não se propõe a explicar o “como” físico do universo, mas o “porquê” último da existência. Sua cosmologia é teológica, não geométrica. A tentativa de extrair dela um modelo físico da Terra desloca a Escritura de seu propósito ontológico e moral para um uso ideológico.
Do ponto de vista sociológico e antropológico, o terraplanismo bíblico moderno surge como fenômeno contemporâneo, ligado à desconfiança institucional, ao antiintelectualismo e à leitura identitária da fé, e não como herança do judaísmo antigo ou do cristianismo histórico. Os principais teólogos cristãos — como Agostinho, Basílio e Tomás de Aquino — nunca defenderam a Terra plana como doutrina bíblica.
Por fim, sob o aspecto cosmológico, a Bíblia não entra em conflito com a realidade observável quando corretamente interpretada, pois não pretende substituir a investigação empírica. Ao contrário, textos como Romanos 1:20 afirmam que a criação pode ser compreendida pela razão humana, e Provérbios 18:13 adverte contra conclusões sem exame.
Conclui-se, portanto, que o uso terraplanista da Bíblia resulta de uma hermenêutica reducionista, que ignora contexto, gênero e intenção do texto sagrado. Uma leitura responsável reconhece que a Escritura revela Deus e o sentido da existência, não a geometria do planeta.
12.1 Estilo poético-sapiencial
Osni Valfredo Wagner 5:1
1 E disse o escriba: Não temas a verdade que se mostra nos céus, nem rejeites o saber por causa do orgulho do coração.
2 Pois a fé que se fecha à luz torna-se sombra, mas a fé que caminha com o entendimento permanece firme.
3 A criação fala em silêncio, dia após dia, e revela ordem àqueles que desejam ouvir.
4 O homem que confunde metáfora com medida perde o rumo, mas o que discerne o tempo e o sentido encontra clareza.
5 A sabedoria não destrói a fé, antes a purifica; e a verdade não afronta Deus, pois dele procede.
6 Bem-aventurado o que busca compreender sem medo, porque esse não troca a luz do discernimento pela rigidez da letra.
12.2 Provérbios – estilo sapiencial
Osni Valfredo Wagner 6:1
1 O sábio não teme o conhecimento, pois sabe que toda verdade procede do Altíssimo; o insensato rejeita a razão e chama sua cegueira de fé.
2 A palavra sem discernimento torna-se peso, mas a palavra compreendida gera liberdade.
3 Quem lê sem contexto constrói muros; quem interpreta com sabedoria edifica pontes.
4 Não é a investigação que afasta de Deus, mas o orgulho que se recusa a aprender.
5 A criação não mente sobre o Criador, antes confirma Sua ordem e Seu poder.
6 Melhor é a fé que pergunta e cresce do que a certeza rígida que não escuta.
Conclusão
O terraplanismo não possui fundamento histórico, bíblico ou científico. Trata-se de um movimento moderno baseado em interpretações equivocadas das Escrituras e em rejeição seletiva do conhecimento empírico.
A Bíblia, corretamente interpretada, não entra em conflito com a realidade observável nem exige a negação da razão. Pelo contrário, a tradição cristã histórica sempre reconheceu que fé e razão, quando corretamente compreendidas, não se opõem, mas se complementam.
A ideia de que a Terra é plana não vem da Bíblia nem dos povos antigos. Desde a antiguidade, muitas pessoas já observavam a natureza e percebiam que a Terra tinha forma arredondada. O terraplanismo como movimento surgiu só nos tempos modernos, ligado à desconfiança da ciência e das instituições.
Muitos terraplanistas erram ao ler a Bíblia de forma literal, sem considerar que ela usa linguagem poética e simbólica. Expressões como “quatro cantos da Terra” não são descrições físicas, mas formas comuns de falar.
A Bíblia não ensina a forma da Terra, pois seu objetivo é ensinar sobre Deus e a salvação. Ler a Bíblia corretamente exige contexto, cuidado e humildade. Fé e razão não são inimigas.
À luz de Romanos 1:20 — “os atributos invisíveis de Deus, assim como o seu eterno poder e a sua divindade, são claramente percebidos por meio das coisas criadas” — a própria criação é apresentada como um testemunho acessível, inteligível e universal da ação e do poder divinos.
A ordem, a regularidade e a coerência observáveis no mundo natural permitem ao ser humano reconhecer atributos de Deus por meio da observação racional da realidade criada.
Dessa forma, a negação sistemática das evidências empíricas não fortalece a fé, mas obscurece aquilo que, segundo o próprio texto bíblico, Deus tornou manifesto à razão humana.
Em consonância com essa perspectiva, João 8:32 afirma: “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”.
O texto joanino atribui à verdade um caráter libertador, indicando que ela não teme investigação, exame crítico ou confronto com os fatos.
Ao contrário, a verdade se consolida quando submetida à razão, à experiência e à honestidade intelectual. Nesse sentido, fé cristã e conhecimento científico não se apresentam como esferas antagônicas, mas como caminhos distintos e complementares de acesso à verdade.
Podemos dizer assim de forma simples: Deus está no meio de nós, não porque vemos com os olhos, mas porque Ele age e se revela na criação, na Palavra e no coração de quem crê.
A presença d’Ele não depende de manipulação humana de textos ou de experiências externas — está na fé verdadeira, na oração, na justiça, na compaixão e no amor que praticamos.
Mesmo quando temos dúvidas sobre ciência ou sobre interpretações de textos antigos, podemos confiar que Deus continua conosco, guiando-nos à verdade, como Jesus prometeu: “E eis que estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos” (Mateus 28:20).
Conclui-se, portanto, que uma interpretação bíblica responsável — atenta aos gêneros literários, ao contexto histórico e à finalidade teológica dos textos — não conduz à negação da realidade empírica, mas à compreensão mais profunda tanto da criação quanto do Criador.
A fé que se apoia na verdade promove libertação; a fé que rejeita o exame da realidade tende ao obscurantismo e à distorção do próprio testemunho bíblico.
Referências
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MARTINS, Jota. O universo que não te apresentam. [S.l.]: Edição independente, [s.d.]. Disponível em: plataformas digitais do autor. Acesso em: jan. 2026.
KIMMICHER, Alfred. Terra plana, o éter e o real formato da Terra. [S.l.]: Edição independente, [s.d.]. Disponível em: plataformas digitais do autor. Acesso em: jan. 2026.
Observação metodológica: As obras terraplanistas acima são de caráter opinativo, sem revisão por pares ou validação científica institucional, sendo utilizadas exclusivamente para análise crítica e comparativa.
Anexo A
Anexo B









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