A presente análise a formação histórica, as transformações socioeconômicas e os processos de patrimonialização no município de São Francisco do Sul, localizado no litoral norte do Santa Catarina. Reconhecida como uma das cidades mais antigas do Brasil, fundada oficialmente no século XVII, a cidade apresenta singularidades históricas associadas à colonização portuguesa, à presença indígena pré-colonial, ao sistema escravista e à posterior consolidação portuária e industrial. O estudo articula abordagem historiográfica, análise socioeconômica e revisão bibliográfica especializada, com base em literatura acadêmica regional e nacional. Argumenta-se que São Francisco do Sul representa um espaço estratégico de interseção entre patrimônio histórico, desenvolvimento portuário e tensões ambientais contemporâneas. Conclui-se que o desafio central do município consiste em equilibrar crescimento econômico, preservação cultural e sustentabilidade ambiental.
Palavras-chave: São Francisco do Sul; patrimônio cultural; história colonial; desenvolvimento portuário; sustentabilidade.
1. Introdução
O município de São Francisco do Sul ocupa posição singular na historiografia catarinense. Situado na Baía da Babitonga, constitui importante polo histórico, cultural e logístico do Sul do Brasil. Sua fundação oficial remonta a 1658, embora registros indiquem ocupação europeia desde o século XVI, além da presença milenar de povos sambaquieiros e grupos indígenas.
A cidade integra o conjunto dos primeiros núcleos coloniais do território brasileiro, ao lado de Salvador e São Vicente, guardadas as devidas proporções históricas. Contudo, diferentemente de centros coloniais de grande porte, São Francisco do Sul consolidou-se como entreposto estratégico, articulando defesa territorial, exploração econômica e catequese religiosa.
1.1 Sambaquis em São Francisco do Sul: Arqueologia, Paisagem e Patrimônio Cultural
A região de São Francisco do Sul, situada no litoral norte de Santa Catarina, abriga importantes sítios arqueológicos do tipo sambaqui, associados às populações pré-coloniais que ocuparam a costa sul-brasileira ao longo de milênios. Inseridos no ecossistema estuarino da Baía da Babitonga, esses sítios constituem registros materiais fundamentais para a compreensão das dinâmicas ambientais, econômicas e simbólicas das sociedades construtoras de montículos conchíferos.
Os sambaquis são formações arqueológicas compostas predominantemente por conchas de moluscos, ossos de fauna marinha, vestígios líticos e restos humanos, resultantes de ocupações sucessivas e práticas rituais complexas. Pesquisas indicam que tais estruturas não devem ser interpretadas apenas como depósitos alimentares, mas como construções sociais dotadas de significado territorial e simbólico (VILLAGRA; MANSUR, 2002).
Na área de São Francisco do Sul, estudos documentais e arqueológicos evidenciam a presença de numerosos sambaquis ao longo da costa leste e nas margens da Baía da Babitonga. Segundo BANDEIRA e MACIEL (2015), a análise integrada de fontes históricas e levantamentos arqueológicos permite reconstruir a distribuição espacial desses sítios, revelando padrões de ocupação associados à exploração sustentável dos recursos estuarinos.
A abordagem arqueoecológica tem demonstrado que as populações sambaquieiras mantinham relações sofisticadas com o ambiente costeiro, explorando moluscos, peixes e mamíferos marinhos de forma adaptativa (MILLER; SOARES, 2003). A localização estratégica dos sambaquis indica conhecimento detalhado das marés, correntes e ciclos biológicos, o que reforça a hipótese de organização social estruturada.
Além do aspecto econômico, os sambaquis desempenhavam função ritual e funerária. Enterramentos humanos associados a artefatos e estruturas cerimoniais sugerem que esses montículos eram também espaços de memória coletiva e afirmação identitária (FERNANDES, 2011). Assim, os sambaquis devem ser compreendidos como paisagens culturalmente construídas, integrando território, espiritualidade e organização social.
No contexto contemporâneo, a preservação dos sambaquis enfrenta desafios decorrentes da expansão urbana, atividades portuárias e pressões imobiliárias no litoral catarinense. A legislação brasileira reconhece esses sítios como patrimônio arqueológico protegido, cabendo ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) a responsabilidade por sua tutela e fiscalização.
A valorização dos sambaquis em São Francisco do Sul não se restringe à dimensão científica. Eles constituem elemento central para a construção de uma narrativa histórica que antecede a colonização europeia, ampliando a compreensão da longa duração da ocupação humana no território. Nesse sentido, a integração entre pesquisa acadêmica, educação patrimonial e políticas públicas revela-se essencial para assegurar a proteção desses vestígios.
Portanto, os sambaquis da Baía da Babitonga configuram-se como patrimônio arqueológico de alta relevância, oferecendo subsídios para investigações interdisciplinares que articulam arqueologia, história ambiental e antropologia cultural. Sua preservação representa não apenas compromisso com a memória pré-colonial, mas também com a sustentabilidade cultural e científica do litoral catarinense.
2. Formação Histórica e Ocupação Territorial
2.1 Povos Originários e Sambaquis
Antes da colonização europeia, a região era ocupada por populações construtoras de sambaquis, evidenciadas por sítios arqueológicos que remontam a mais de quatro mil anos. Estudos arqueológicos indicam organização social complexa e intensa relação com o ecossistema costeiro (BANDEIRA; MACIEL, 2015).
A posterior presença de grupos indígenas do tronco Tupi-Guarani consolidou redes de circulação e troca. A chegada dos europeus alterou profundamente essa dinâmica, introduzindo novas estruturas de poder e reorganização territorial.
2.2 Colonização Portuguesa e Estrutura Administrativa
A oficialização da vila no século XVII integrou o projeto expansionista português no Sul da América. A posição geográfica estratégica favoreceu a instalação de aparato militar e religioso. A atuação da Companhia de Jesus contribuiu para a catequização indígena e organização social colonial.
Durante o período monárquico, a vila consolidou funções administrativas e comerciais (GOMES, 2022). O porto natural da Babitonga tornou-se elemento central da economia regional.
3. Escravidão e Estrutura Social no Oitocentos
O sistema escravista esteve presente na configuração socioeconômica local. Pesquisas documentais demonstram a existência de famílias escravizadas, atividades domésticas e participação no setor portuário (BORBA; BANDEIRA, 2013).
A dinâmica escravista em São Francisco do Sul diferia parcialmente de centros cafeeiros do Sudeste, assumindo caráter mais urbano e comercial. Ainda assim, reforçou hierarquias raciais e desigualdades estruturais que reverberam na contemporaneidade.
4. Desenvolvimento Portuário e Modernização Econômica
O porto constitui eixo estruturante da economia francisquense. O atual Porto de São Francisco do Sul figura entre os principais complexos portuários do Sul do Brasil, destacando-se na movimentação de grãos, fertilizantes e produtos siderúrgicos.
A modernização logística intensificou-se no século XX, com investimentos em infraestrutura rodoviária e ferroviária, integrando o município às cadeias produtivas nacionais e internacionais.
Contudo, o crescimento econômico gerou tensões socioambientais, especialmente relacionadas à poluição da Baía da Babitonga e à pressão sobre áreas de manguezal.
5. Patrimônio Cultural e Processos de Tombamento
O centro histórico de São Francisco do Sul é reconhecido pelo conjunto arquitetônico colonial preservado. O tombamento federal foi conduzido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), consolidando políticas de proteção.
Entre os equipamentos culturais destaca-se o Museu Nacional do Mar, referência nacional na preservação da memória naval brasileira.
A patrimonialização, entretanto, não é processo neutro. Conforme apontam estudos culturais, a seleção de bens preservados reflete disputas simbólicas sobre identidade e memória coletiva.
6. Educação e Formação Institucional
A formação educacional no município acompanha transformações políticas nacionais. Pesquisas sobre instituições escolares entre 1835 e 1935 demonstram consolidação gradual do sistema educacional local (OLIVEIRA, 2019).
No ensino superior, destaca-se a presença da Universidade da Região de Joinville (UNIVILLE), que mantém pesquisas na área ambiental e histórica, incluindo estudos sobre a Baía da Babitonga e a Ilha da Rita.
7. Sustentabilidade e Desafios Contemporâneos
O município encontra-se inserido em ecossistema costeiro sensível, composto por manguezais, restingas e áreas marinhas protegidas. A expansão portuária e industrial demanda políticas públicas que conciliem desenvolvimento econômico e preservação ambiental.
A agenda contemporânea inclui:
-
Monitoramento da qualidade da água;
-
Gestão participativa do patrimônio;
-
Turismo sustentável;
-
Inclusão social em áreas periféricas.
A consolidação de políticas integradas depende de articulação entre poder público, universidades e sociedade civil.
8. A Ilha da Rita, a UNIVILLE e a Produção de Conhecimento Socioambiental na Baía da Babitonga
A Ilha da Rita, situada na Baía da Babitonga, em São Francisco do Sul, constitui espaço estratégico para estudos históricos, ambientais e patrimoniais no litoral norte de Santa Catarina. Historicamente associada a funções militares e logísticas, a ilha passou, nas últimas décadas, a integrar projetos acadêmicos voltados à pesquisa interdisciplinar e à educação ambiental.
Nesse contexto, destaca-se a atuação da Universidade da Região de Joinville (UNIVILLE), que desenvolve investigações relacionadas à Baía da Babitonga, à conservação de ecossistemas costeiros e à memória histórica regional. A produção científica vinculada à universidade tem enfatizado a importância da gestão integrada do território, articulando dimensões ecológicas, culturais e socioeconômicas.
A Baía da Babitonga configura-se como um dos sistemas estuarinos mais relevantes do Sul do Brasil, abrigando extensas áreas de manguezais e biodiversidade marinha significativa. A Ilha da Rita, inserida nesse ecossistema, torna-se ponto privilegiado para análise de impactos antrópicos, dinâmicas portuárias e processos de patrimonialização.
Do ponto de vista historiográfico, a ilha também apresenta relevância simbólica, associada à defesa costeira e às estratégias militares no período republicano. Pesquisas interdisciplinares têm buscado compreender a sobreposição de camadas históricas — colonial, imperial, republicana e contemporânea — que moldaram o território insular.
A atuação acadêmica da UNIVILLE evidencia uma perspectiva de ciência regional comprometida com o desenvolvimento sustentável. Projetos vinculados ao monitoramento ambiental da Baía da Babitonga incluem estudos sobre qualidade da água, impactos da atividade portuária e conservação de áreas de mangue. Tais pesquisas contribuem para formulação de políticas públicas e para o debate sobre governança costeira.
Além disso, a produção científica relacionada à Ilha da Rita dialoga com abordagens contemporâneas de patrimônio cultural, entendendo o território não apenas como espaço físico, mas como construção social permeada por memórias, identidades e disputas simbólicas. A integração entre universidade, poder público e comunidade local revela-se fundamental para a consolidação de modelos participativos de gestão.
Assim, a Ilha da Rita representa um laboratório natural e histórico, onde convergem pesquisa acadêmica, preservação ambiental e valorização cultural. Sua análise amplia a compreensão das dinâmicas territoriais de São Francisco do Sul e reforça o papel das universidades regionais na produção de conhecimento aplicado.
Considerações Finais
São Francisco do Sul representa um microcosmo das dinâmicas históricas brasileiras: colonização, escravidão, modernização econômica e disputas patrimoniais. Sua relevância histórica contrasta com desafios ambientais contemporâneos, exigindo abordagem interdisciplinar.
O equilíbrio entre crescimento portuário, preservação cultural e sustentabilidade ecológica constitui o principal eixo estratégico para o futuro do município.
A análise evidencia que a cidade não pode ser compreendida apenas como relicário colonial ou polo logístico, mas como território em constante reconstrução histórica e social.
Referências (ABNT – NBR 6023:2018)
BANDEIRA, Dione da Rocha; MACIEL, Joelson Lopes. Contribuição da pesquisa documental à história dos sambaquis da costa leste de São Francisco do Sul/SC. Revista Brasileira de História & Ciências Sociais, v.7, n.14, 2015.
BORBA, Fernanda Mara; BANDEIRA, Dione da Rocha. Escravos na Vila de São Francisco do Sul no oitocentos. Revista Latino-Americana de História, v.2, n.9, 2013.
GOMES, Lihla Zaslavsky. O período monárquico na História de São Francisco do Sul. Revista Santa Catarina em História, v.16, n.1-2, 2022.
OLIVEIRA, Andréa de. História de instituições escolares de São Francisco do Sul, SC: 1835-1935. 2019. Dissertação (Mestrado em Educação) – UFSC, Florianópolis, 2019.
BRAGA, Sylvia (coord.). Museu do Mar: São Francisco do Sul – SC. Brasília: IPHAN, 2008.
FERRARI, Cibele Dalina Piva; GUEDES, Sandra Paschoal Leite de Camargo. O estudo interdisciplinar do patrimônio cultural: representações sociais sobre a Ilha da Rita em São Francisco do Sul/SC. Cultura Histórica & Patrimônio, v.3, n.2, 2014.
UNIVERSIDADE DA REGIÃO DE JOINVILLE. Projetos de pesquisa sobre a Baía da Babitonga e Ilha da Rita. Joinville: UNIVILLE, s.d. Documentos institucionais.
BRAGA, Sylvia (coord.). Museu do Mar: São Francisco do Sul – SC. Brasília: IPHAN, 2008.
BANDEIRA, Dione da Rocha; MACIEL, Joelson Lopes. Contribuição da pesquisa documental à história dos sambaquis da costa leste de São Francisco do Sul/SC. Revista Brasileira de História & Ciências Sociais, v. 7, n. 14, 2015.
FERNANDES, A. C. Símbolos, modos e práticas dos povos sambaquieiros do sul do Brasil. Anais do Museu de Arqueologia e Etnologia, v. 10, p. 89-110, 2011.
MILLER, V.; SOARES, C. R. F. Sambaquis: aspectos ambientais e ocupação humana no litoral brasileiro. Boletim do Museu Nacional, v. 82, 2003.
VILLAGRA, Paulo Alexandre Ribeiro; MANSUR, João Alfredo. Sambaquis e sociedades pré-colombianas do litoral sul-sudeste do Brasil. Revista de Arqueologia, v. 15, n. 29, p. 55-78, 2002.

Nenhum comentário:
Postar um comentário