Analisando a educação financeira a partir das três peneiras de Sócrates: verdade, bondade e utilidade. A proposta relaciona esses princípios aos conceitos de desejo, utilidade e necessidade nas decisões econômicas. Discute-se como o consumo impulsivo compromete a estabilidade financeira. A reflexão filosófica contribui para escolhas mais racionais e conscientes. Conclui-se que a educação financeira deve integrar ética, comportamento e planejamento econômico. Para conseguir guardar uns trocos todo mês temos que aprender sobre o nosso desejo, o que é útil e o que realmente necessário colocar nossas energias, dinheiro na realidade é uma energia que gastamos nosso tempo para adquirir não é mesmo?
Palavras-chave
Educação financeira; Consumo consciente; Ética econômica; Sócrates; Tomada de decisão.
Introdução
A sociedade contemporânea é marcada por elevados níveis de consumo, endividamento e decisões financeiras impulsivas, frequentemente estimuladas por publicidade, crédito fácil e padrões sociais de status. Nesse contexto, torna-se fundamental o desenvolvimento da educação financeira como instrumento de autonomia individual e sustentabilidade econômica.
Uma abordagem filosófica que contribui para essa reflexão é a chamada “teoria das três peneiras de Sócrates”, que propõe que toda informação ou ação humana deveria ser filtrada por três critérios: verdade, bondade e utilidade. Segundo essa perspectiva, antes de dizer ou fazer algo, o indivíduo deveria questionar: isso é verdadeiro? Isso não causa mal? Isso é útil?
Ao transpor esse modelo ético para o campo da economia pessoal, é possível reinterpretar essas peneiras como filtros para decisões financeiras, associando-as aos conceitos de desejo, utilidade e necessidade, fundamentais para a formação de uma consciência econômica crítica.
Desenvolvimento: Educação Financeira e Tomada de Decisão
A educação financeira pode ser definida como o processo pelo qual indivíduos adquirem conhecimentos, habilidades e atitudes necessárias para tomar decisões conscientes sobre o uso do dinheiro, planejamento, consumo, poupança e investimento (OCDE, 2016).
Entretanto, mais do que cálculos ou técnicas, a educação financeira envolve uma dimensão ética e comportamental, pois as decisões econômicas são profundamente influenciadas por fatores psicológicos, sociais e culturais. Nesse sentido, a releitura das peneiras socráticas permite estruturar a educação financeira a partir de três eixos fundamentais.
Desejo
O desejo representa a dimensão subjetiva do consumo. Trata-se da vontade de possuir algo, muitas vezes estimulada por fatores externos, como publicidade, redes sociais e comparação social. Na economia comportamental, o desejo está associado ao consumo impulsivo e à chamada “economia do status”, em que as pessoas consomem para sinalizar pertencimento social.
Grande parte dos problemas financeiros individuais decorre da confusão entre desejo e necessidade. Ao não filtrar o desejo, o indivíduo tende a gastar mais do que pode, recorrendo a crédito e endividamento, comprometendo sua estabilidade econômica de longo prazo.
Utilidade
A utilidade refere-se ao valor funcional de um bem ou serviço. Na teoria econômica clássica, um produto é útil quando satisfaz uma necessidade ou gera benefício concreto ao consumidor. No contexto da educação financeira, questionar a utilidade significa perguntar: isso realmente melhora minha vida ou apenas satisfaz um impulso momentâneo?
A análise da utilidade permite substituir decisões emocionais por decisões racionais, promovendo alocação eficiente de recursos escassos, princípio central da ciência econômica.
Necessidade
A necessidade está relacionada às condições básicas de existência e bem-estar, como alimentação, moradia, saúde, educação e segurança. Diferentemente do desejo, a necessidade possui caráter objetivo e estrutural.
Ao priorizar necessidades sobre desejos, o indivíduo desenvolve uma lógica de consumo consciente, alinhada aos princípios da sustentabilidade econômica e social. Esse filtro também contribui para a formação de reservas financeiras, prevenção de crises pessoais e construção de autonomia.
Conclusão
A integração entre a filosofia socrática e a educação financeira revela que decisões econômicas não são apenas técnicas, mas essencialmente éticas e cognitivas. As três peneiras — verdade, bondade e utilidade — reinterpretadas como desejo, utilidade e necessidade, constituem um modelo simples e eficaz para orientar escolhas financeiras conscientes.
Ao aplicar esses filtros, o indivíduo deixa de ser mero consumidor passivo e torna-se sujeito ativo de sua própria economia, capaz de resistir a estímulos artificiais, reduzir o endividamento e promover estabilidade financeira. Assim, a educação financeira baseada em princípios filosóficos contribui não apenas para o equilíbrio econômico individual, mas também para uma sociedade mais racional, sustentável e justa.
Referências
OCDE. OECD/INFE International Survey of Adult Financial Literacy Competencies. Paris: OECD Publishing, 2016.
BRASIL. Banco Central do Brasil. Cidadania Financeira: educação financeira no Brasil. Brasília: BCB, 2018.
MANKIW, N. Gregory. Introdução à economia. 8. ed. São Paulo: Cengage Learning, 2019.
KAHNEMAN, Daniel. Rápido e devagar: duas formas de pensar. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.
SENECA, Lúcio Aneu. Sobre a brevidade da vida. São Paulo: Martin Claret, 2010.
PLATÃO. Apologia de Sócrates. São Paulo: Edipro, 2017.

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